quarta-feira, 13 de julho de 2005

Abra as pernas e feche os olhos

Chegou o dia tão temido. Dia da consulta semestral ao ginecologista. No meu caso, bianual. Sim, é horrível uma garota consciente e limpinha adiar por tanto tempo um check-up nas partes pudicas. Pensando bem, talvez seja menos horrível do que ter alguém estranho mexendo em suas partes pudicas. Dizem que o topo da lista das especialidades médicas mais temidas do mundo é dentista. Pois eu prefiro qualquer anestesia na gengiva a um par de mãos enluvadas... lá.

O terror dos odontofóbicos é, por certo, a broca fazendo aquele zuiiiiiiiiim na boca, barulho possível de ser sentido até no âmago. Já o terror das ginecofóbicas (será que o termo existe?), como eu, é ficar sem calcinha deitada no leito que mais parece aparelho de tortura medieval, com uma perna para cada lado. Tudo escancarado, sem qualquer possibilidade de defesa. Levantar e sair correndo da cadeira do dentista é moleza. Agora experimente tentar livrar-se de supetão da cadeira do ginecologista: você corre o risco de se espatifar no assoalho. Pelada.

A dureza é que a gente nunca se acostuma com a idéia. Cada ida ao consultório parece a primeira vez. Manja modelo que posa nua e diz “No começo eu fiquei tímida, mas todos da equipe foram tão delicados que depois rolou numa boa”? Então. Tire a parte do “depois rolou numa boa” – não rola numa boa não. Só quando você finalmente alcança a rua (embora o medo de estar com cara de quem acabou de sair do ginecologista persista até em casa). E tire também a parte do dinheiro entrando na conta e da fama de gostosa. Ficamos, portanto, só com o caroço.

Lembro-me de ler na “Capricho”, quando eu era uma teen assinante da revista, algumas dicas para enfrentar aquela meia hora que nunca passa. Uma delas era ter em mente o fato de que, para o ginecologista, o procedimento era café-com-leite. Ele já viu milhares de xoxotas na frente, de todas as cores, aromas, idades e credos. Tão lógico! Só que essa mentalização cai por terra a partir do momento em que é a sua xoxota em jogo. E que você não teve milhares de pessoas de branco com a fuça nela.

O tormento já começa na sala de espera. Um punhado de mulheres tenta aparentar calma folheando revistas como uma “Cláudia” de 1997. Para não fazer papel de histérica, você faz o mesmo e alcança uma “Caras” com a Carla Perez antes da plástica estampada na capa. O negócio é transpirar tranqüilidade. Fazer de conta que está interessadíssima na receita da torta feita com talos de vegetais. E tentar não dar um pulo assustado quando ouve o seu nome sendo chamado lá de dentro da salinha.

Eis que você é então recebida por um médico ou uma médica sorridente. Costumo pensar o que é melhor: homem ou mulher ginecologista. Tem gente que acha que os homens são mais cuidadosos. E também correm um risco (baixo, é verdade) de se parecerem com o George Clooney em “E.R.”. O que facilitaria muito, cá entre nós. Outras, porém, não se sentem bem ao lado de um homem, e acreditam que só as médicas podem compreender os mistérios femininos. Eu ainda não cheguei a conclusão alguma. Para mim, no fundo, tanto faz – desde que o martírio acabe logo.

Primeiro você senta na cadeira normal e responde a um questionário deveras estranho. Perguntas como “Com que idade você perdeu a virgindade?”, “Qual foi a última vez que você fez sexo?”, “Você sente prazer?” e “Quantos parceiros você teve nos últimos cinco anos?” são indagados pelo doutor como se versassem sobre um tema inofensivo, tipo seu sabor de sorvete favorito ou quantas vezes você já deixou queimar o arroz no almoço de domingo. Passado esse primeiro obstáculo, você é gentilmente conduzida a um biombo para arrancar os trajes.

Daí eu pergunto: qual é a função específica do biombo? Diacho, você vai sair de lá como veio ao mundo (um pouco mais encorpada e com um pouco mais de pêlos, obviamente) e vai deitar mui abertamente na maldita cadeira-dos-infernos! O biombo é para a gente sentir mais privacidade, é? Sei. Eu voto pela extinção do biombo e pela aquisição de uma taça de vinho, uma música ambiente e um incenso cheiroso. Pô, cadê o romantismo? Eu é que não vou sair tirando a roupa sem preparação não!

Mas no consultório ginecológico não há clima algum. É um ambiente seco e profissional. Então você afasta a idéia do vinho enquanto tenta escalar o leito-tortura agarrando-se ao resto de dignidade que lhe resta após deixar o biombo. “Pode chegar um pouco mais pra cá?”, diz o doutor. Você respira fundo e faz o que ele manda. Aliás, você tocaria bandolim com os pés se isso fosse contribuir para o desenrolar da consulta. Contudo, o divertido pensamento sobre o bandolim some quando sente um cutucão lá embaixo.

Droga, começou! O lance agora é fechar os olhos e buscar concentração para pensar sobre coisas relaxantes: uma cachoeira, um imenso campo verdejante, um gatinho ronronando, uma borboleta serelepe a voar... Qualquer coisa que afaste a dura realidade: há alguém com o qual você não tem intimidade alguma vasculhando o que há de mais íntimo no seu corpo. Definitivamente, ser uma garota não é nada fácil.

Ainda bem que é só a cada seis meses. Ou dois anos, se o trauma persistir até lá.

Vivi Griswold às 10:34 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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