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Sabe o Português? A gente chupa manga, mas também pode cortar as mangas da camisa. Isso não significa, de maneira alguma, que mangas nasçam em camisetas. Mangas frutas, digo. Alvejar também pode ser de dois jeitos: significa ou que atiramos em alguém ou que jogamos cloro ou outro produto similar num paninho qualquer. Ou seja, alvejar vem de tornar alvo, seja lá um tecido ou um infeliz andando pela rua. Isso porque alvo, por sua vez, pode ser equivalente a mira, objetivo de um projétil ou a branco, claro. Como se não bastasse, ainda temperamos doces e bebidinhas com canela. Mas não a da perna, por certo. Nem pense em cortar fora aquela parte afinada, entre os joelhos e o tornozelo, para botar no vinho quente. Ao ler que tal empresa tem sede à rua X, tampouco me vá imaginar que a firma está precisada de um copo d’água enquanto se encontra no dito passeio público. E se digo que cedo trabalho, fica a seu critério entender se pretendo passar minhas tarefas a alguém ou começo a labutar nas primeiras horas da manhã. Outras vezes, uma letrinha muda tudo. Mas só na pronúncia é impossível sacá-la. Eu posso acender a luz ou ascender à luz. Promover um concerto de flauta doce (não ria, é o único instrumento que sei tocar) ou... promover um conserto – nesse caso, em tudo que é tranqueira quebrada lá em casa. Perder o censo, se não estiver em casa quando o moço passar. Ou perder o senso e sair correndo pelada pela rua. Isso sem falar em X – não a rua citada à guisa de exemplo ali em cima, mas a letra e sua gama infindável de sons. Na Caminho Suave, a lição do X (acertadamente a final da cartilha) tinha uma história que incluía um táxi, um vidro de xarope e alguns exames. Acho que o texto era sobre alguém que adoecia... A palavra texto, aliás, não constava da epopéia. Mas já serviu para exemplificar mais um dos fonemas do X. Não me espanta ser esta a letra mais associada a incógnitas. Depois, temos coragem de achar o Chinês ou o Alemão complicados! E não é só. Ainda temos muitos modos. Mas não só modos de boa educação, daqueles que sua mãe aconselha a mostrar às visitas; e sim modos verbais. Dispomos de três, cada qual subdividido em tempos: indicativo, subjuntivo e imperativo – o menos usado e mais legal. Ou você não acharia o máximo dizer “faze tu!” quando seu irmão pede alguma coisa? Mas vamos nos ater ao indicativo, que exprime algo certo. Nele, conjugamos em seis tempos: presente (ok), pretérito imperfeito (que não trata necessariamente de um passado maculado), pretérito perfeito (tampouco se refere a uma biografia certinha), pretérito mais-que-perfeito (mania de grandeza!), futuro do presente (eu pensava “mas, afinal, isso é futuro ou presente?”) e, pasme, futuro do pretérito (que embananou de vez minha cabeça ginasial). Portanto, irmão em língua, conjuguemos. Eu conjugo, tu conjugas, ele conjuga. Nós conjugamos, vós conjugais, eles conjugam. Fácil, pois trata-se de um verbo regular de primeira conjugação. É só trocar por qualquer outra ação terminada em –ar e copiar os finais: eu copio, tu copias, ele copia. Nós copiamos, vós copiais, eles copiam. A não ser que o verbo em questão seja irregular. Alguns nem chegam a mudar tanto, mas outros só podem estar de sacanagem. Como o verbo ir. Tão pequeno e tão feroz, o danado é uma anomalia. Literalmente: ir é um verbo anômalo, ou seja, tem mais de um radical quando conjugado. Vejamos, em rápido passeio pelos tempos: eu vou, eu ia, eu fui, eu fora, eu irei, eu iria. Que vá você. Se eu fosse. Quando eu for. Não vás. Ou vá, você é quem sabe! Já podia ter ido. Eu tô indo. E pensar que chegamos à escola já intuindo boa parte disso. Por isso que eu digo: Português é para os fortes. |
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