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Adictos Vício é que nem bunda: todo mundo tem, mas acha melhor esconder – e não é bonito ficar falando do formato alheio. Sim, porque ninguém, ninguém em todo o mundo, está livre dos vícios. Todas as pessoas que conheço possuem sua versão. Uns conseguem pegar leve, outros são maníacos que chegam a dar medo. Eu não gosto de ficar falando dos vícios alheios, sabe... Mas que todos guardam um quê de obsessão no fundo do armário, lá isso guardam. Posso exemplificar com facilidade, mas os nomes e graus de parentesco serão suprimidos e/ou modificados para evitar embaraço. Afinal de contas, não quero virar a vizinha Mirtes e ficar por aí dizendo que “o filho da Eneida tá cheirando maconha, ó que descarado!”. Deus me livre fofocar esse tanto e contar em público os podres dos conhecidos. O assunto morre aqui, hein? Você tem que ser um túmulo! Mas, se alguém perguntar, não fui eu quem contou. Acontece que os vícios não giram apenas em torno de químicas, álcoois, fumos. Eles existem em várias formas, que é para abranger o maior número possível de doidos. E abrange até quem a gente não imagina. Um senhor muito chegado a mim, ultimamente, se apaixonou por aquelas máquinas caça-níqueis de padaria. Quem diria? Homem correto, sério, até meio bravo. Anda sempre na estica, faz questão de parecer e se portar como um lorde inglês. Passa seus dias, contudo, enchendo maquininhas de moedas de modo enlouquecido. Ele garante que não está perdendo o dinheiro da aposentadoria – e que, há um mês, levou a bolada de R$ 400. Se não perdeu R$ 1.500 nisso, até foi bom negócio. Já a mãe de um amigo é doida por bingo. Isso mesmo, bingo. Aquele jogo que antigamente reunia velhotas, cartelas e feijões hoje ganhou, por aqui, estilão Las Vegas. As casas do gênero compraram todo o estoque mundial de néon roxo e tapete vermelho e, após fazer a decoração discutível, passaram a render. Render bancarota e CPIs, claro. Se bem que a supracitada mulher jura pelos filhotes: a irmã da vizinha de sua cunhada ganhou 15 mil pilas no bingo! Suspeito. Uma garotinha que conheço deixa de comer comida séria para esmerilhar um chocolate. Todo almoço é a mesma história: coloca meia colher de arroz no prato, pincela duas gotas de feijão, finge comer a carne e abocanha duas rodelas de tomate-cereja. Depois, despede-se com jeito furtivo e vai, de fininho, assaltar o armário da cozinha em busca de cacau do bom. É magrela feito o mapa do Chile, a pequena. Por isso ninguém dá muita bola para o vício no doce. Feia mesmo está a situação de uma outra moça, conhecida de longa data. Fundamentalista culinária, ela não admite o uso de enlatados. Nem de caixinhas. Nem produtos light. Nem nada que não seja fresco como o orvalho da manhã. Basta ver alguém usando margarina para fazer bolo, tem chilique. Seu negócio é uma boa de uma manteiga. Então descobriu ser portadora de intolerância à lactose. Ó que mundo cruel?! Pois o vício já estava instalado e, agora, ela levanta de noite para comer pão francês com manteiga salgadinha escondido de todos. Espero não ter que visitá-la na clínica de reabilitação de manteigólatras logo mais. Mas nem só de comida e jogo vivem os adictos. A tecnologia, ao que parece, anda fazendo muitas vítimas. O cunhado de uma amiga (não é o meu não, juro) troca de celular de seis em seis meses. Primeiro queria o que tocava musiquinha. Depois, o que tirava fotos. Mais tarde, o que tocava musiquinha enquanto tirava fotos. E agora possui um que, se não me engano, toca musiquinha, tira fotos, passa fax, faz escova progressiva e conta glóbulos brancos no sangue. Ficou dominado, o sujeito. Não admite perder sequer uma novidade de mercado. É como o garoto que compra DVDs compulsivamente. Estava tudo perfeito enquanto ele adquiria clássicos, comédias oitentistas e grandes épicos. Duro foi notar o investimento em coisas como “Rocky 5”, “Nell” e, pasmem, “As Aventuras de Alceu e Dentinho”. “Mas o Robert De Niro faz parte do elenco!”, ele justificava. Nem a família do De Niro cairia nessa conversa de viciado. Soube, recentemente, que uma antiga colega de trabalho estava precisando se explicar ao gerente do banco por conta dos dinheiros negativos na conta. Muitos e muitos dinheiros, parece. Ela tentava amolecer o coração do burocrata dizendo que necessitou pagar a operação de hérnia da mãe. A não ser que hérnia agora se chame “C&A” e mãe também seja conhecida como “Renner”, mentiu feio, a moça. Compradora compulsiva de roupas, ela conseguiu se safar do prejuízo. Pagou o vicio em deliciosas 36 vezes com juros e aprendeu a lição. Mas já fiquei sabendo sobre a nova obsessão da cidadã: um negocinho chamado MSN. A garota fez centenas de amigos virtuais – porque os reais deram no pé durante a fase “preciso ter todas as roupas do planeta”, com medo de precisarem emprestar dinheiro. Agora, “conhece” gente da Mongólia, Alemanha, Turks e Caicos e até de Shangri-la. Liga o comunicador ao adentrar o escritório, às 9h00, e só se desconecta às 21h00, quando dá bom dia ao parceiro japonês. Semana passada, ganhou licença de duas semanas do trabalho para cuidar dos nervos. O chefe de RH achou melhor fazer isso depois que a menina ameaçou assassiná-lo e picar seu cérebro em cubinhos caso ele cumprisse a norma da empresa e tirasse o MSN do computador dela... Não digo que os viciados dão medo? E nem é só o filho da Eneida, aquele descarado cheirador de maconha. |
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