sexta-feira, 8 de julho de 2005

Pegue, reze e pague

Recentemente, fui obrigada a empurrar meu carrinho de compras em outra freguesia. Pode parecer uma mudança pequena, mas, acredite-me, não é. Trocar de supermercado resulta numa mão-de-obra tremenda, especialmente se você já está tão habituada a fazer compras no mercado anterior que até cumprimenta o guardinha do estacionamento pelo nome e sabe os horários da troca de turno dos caixas.

Por isso, quando o Pão de Açúcar do Largo de Rudge Ramos fechou as portinholas, fiquei duas semanas me lamentando e sonhando que o danado reabriria. Já imaginava o trabalho que seria me adaptar a novos corredores, descobrir onde afinal fica o papel-toalha e abrir mão de marcas que só se vendiam lá.

Passada a quinzena, a despensa, como eu previa, se esvaziou. Minha última esperança era que, de alguma forma mística, ela parasse com esse comportamento teimoso de se esvair a cada 15 dias. Quando abri o armário e me deparei apenas com temperos – saquinhos de orégano costumam durar anos, já notou? –, respirei fundo e resolvi encarar o inevitável: fazer compras em outro super.

No meio da lista, descobri que não sabia ao certo se me sentava no chão, entre o tomate e o toicinho, e chorava... ou se tinha um ataque de riso. No corredor central do novo mercado eleito para suprir minha casa, eis que surge uma fogueira-santa-do-monte-sinai. Juro. Era uma daquelas lareiras elétricas com um paninho iluminado esvoaçante, sob um monte de bandeirinhas e rodeada de produtos de festa junina. Será um sinal? E, se fosse, queria dizer exatamente o quê? Era para correr daquele mercado ou jamais deixá-lo? Difícil dizer.

Ok. Passei pela fogueira. E logo vi que aquilo não era nada. Refletindo diante da gôndola de latarias (“será que tudo bem comprar uma ervilha chamada Twist? Hum. Pensando bem, é legal comprar uma ervilha chamada Twist!”), ouço uma voz. “Meu Deus, é o Gugu!”, me espantei. “Mas que diacho aquele loiro sem-noção tá fazendo aqui no mercado?”.

Foi só afinar o ouvido para obter a resposta: ele estava anunciando produtos em oferta! Ao mesmo tempo, claro, percebi que não podia ser o Gugu, mas apenas uma criatura de voz e dicção parecidíssimas com as do apresentador mais “valenduuu” do Brasil. Só faltava encompridar as sílabas finais, porque até a estampa do sujeito era similar – cabelinho loiro muito ajeitado, camisa por dentro da calça e gravata, olho claro.

Pronto. O Gugu cover anuncia produtos no meu supermercado. E a narrativa é demais: “que frio, não? Que tal, então, levar para casa um danette fondue? Já vem pronto, é só esquentar em banho-maria. E sai por apenas sete e noventa e nove, aqui na seção de danones. Corre que tá acabando! Depois, aproveita e pega uma caixinha de morango na seção de hortifruti, por apenas dois e quarenta e nove! Olha aí, que delícia: fondue de chocolate com morango!”

Só me faltava essa. Agora o Gugu me faz sugestões de menu ou sobremesa para o jantar. E não é tudo. Quando ele para de falar, sobe o som ambiente da loja. Ou melhor, os três, dependendo do corredor em que você está. É que tem a rádio local (inclusive com horóscopo) por todo o super; o forró, executado na parte de festa junina e, por fim, o show do Bruno e Marrone em looping, na seção de DVDs, bem perto da feira.

Já tentou escolher maçãs com o insistente refrão de “Dormi na Praça” martelando na orelha? Foi difícil. Tanto quanto, minutos mais tarde, topar com um palmito da marca Doidão. Olhei para os lados. Peguei o vidro, incrédula: “palmito Doidão?”. Era isso mesmo. Tava lá, no rótulo. Ganhou da ervilha Twist. Só podia ser nesse mercado...

Depois de tudo isso, me diga, caro leitor ou estimada leitora: onde raios eu vim parar?! Devo me resignar, gargalhar com tais peculiaridades e continuar neste mercado muito louco da pesada – junto ao Gugu, à fogueira-santa e ao palmito Doidão – ou encomendo um despacho forte em frente à casa do sêo Abílio para fazer o Pão de Açúcar daqui reabrir?

Clara McFly às 10:48 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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