Era uma árdua tarefa separar as minhas mãos roliças de cinco anos do livro de fábulas. Encadernado em um grande calhamaço de desenhos bonitos e texto cativante, a obra ficava no armário da sala – e recebia minha visita semanal. Passava os olhos por Branca de Neve e seus amiguinhos de estatura reduzida, por Bela Adormecida e a roca, pelo Lobo, o Prático e aqueles dois outros porcos idiotas. A predileta, porém, era Cinderela. Li essa história tantas e tantas vezes que o roteiro deve ter entranhado nos meus genes.
Daquele tempo, quando aprendi a ler, até hoje somam-se 25 anos de paixão pela historinha conturbada da Cindy. Com aqueles cabelos dourados e ondulados e o corpinho mignon – pelo menos era o que informava a ilustração do meu livro – ela bem podia ser modelo e capa de revista. Mas caiu nas mãos da malvada, a pobre.
Pobre mesmo, porque teve toda a fortuna do pai surrupiada pela segunda mulher dele. E pensa que a maquiavélica apenas embolsou o espólio e se mandou fazer compras na Daslu? Que nada! Ficou lá no castelo, obrigando a Cinderela a ser sua empregada. Tadinha... Ainda bem que fadas-madrinhas têm um possante radar para encontrar moçoilas desfavorecidas. E que os príncipes sempre curtem uma serviçal bem-apanhada e de pés miúdos.
Não que eu tenha uma mãe postiça perversa até os ossos ou costume fazer amizade com ratos, mas me vejo muito como a Cin-Cin. Ou minha vida é muito parecida com a dela ou... ando precisando consultar um doutor de doidos.
Mas sou mesmo como a Cinderela, juro! Isso porque...
... gosto de fazer um drama
A garota podia dar um pé no balde de sabão e arremessar a escova na cachola da madrasta. Mas não. Ficava ali, passivamente varrendo e cozinhando e se ralando toda. Ainda acho que a Cinderela não fugia, simplesmente, porque gostava de se fazer de vítima. Aposto que ela também entoava canções tristes enquanto contava os calos e chorava. Sei disso porque uma drama queen reconhece outra.
... deixo muita gente folgar
Minha irmã é linda e gentil e não se chama Griselda ou Anastácia. Mas mesmo não tendo dividido quarto com duas morféticas fingidas feiosas e azedas, eu assumo: permito que folguem um bom tanto comigo. Muitas vezes faço o que não quero só para não entrar em briga ou criar clima ruim. Preciso dar um jeito nisso antes de ser mandada a dar milho aos patos ou limpar chaminé. Credo.
... acredito em príncipes
Sempre acreditei. Exceto pelos quesitos “cavalo branco” e “roupinha afeminada”, eu soube desde cedo que eles existiam. Alguns se mostraram sapos depois de um tempo, é verdade. Esperar pelo intrépido rapaz, porém, vale a pena. Ainda que ele use tênis, camiseta, óculos e não seja exatamente filho de um rei. Ou prefira ver jogo de futebol a declamar poemas para sua amada. É a vida (real).
... sou perita em perder os sapatos
Se meus calçados fossem de cristal, talvez ficasse mais fácil localizá-los na casa. Cinderela perdeu o dela em uma desabalada carreira depois da meia-noite. Os meus somem em qualquer horário, se escondendo atrás das portas ou debaixo do sofá. Quando estou atrasada, já fico imaginando que as roupas virarão trapos e o carro se transformará em abóbora antes que eu consiga encontrar os pisantes.
... sou chegada numa limpeza pesada
Quer dizer que apenas uma mocinha conseguia dar conta de todo o serviço do castelo? A não ser que Cindy conhecesse o poderio do Omo Dupla Ação e a eficácia do Veja Desengordurante, acho difícil acreditar que ela, sozinha, limpava aquela mansão inteira. Mas temos algo em comum: dê uma flanela, balde, rodo e artigos de limpeza para essa nobre pessoa aqui e você não há de se decepcionar. Eu e Cinderela podíamos abrir a “Limpa-Limo Serviços Domésticos Ltda.”. O slogan da firma seria “Sumimos com a sujeira como que por encanto!”.
... me faço de princesa
Esta deve ser a característica que mais me aproxima da gata-borralheira. Aconteça o que acontecer... Lá no fundo, sempre vou achar que sou uma doce princesa prestes a receber a justiça mágica que merece. Mesmo que hoje eu lave um monte de louça, troque pneu do carro, grite palavrões ou use mais botinas do que salto alto, quero acreditar ser uma princesinha doce, sonhadora e recatada. E, 25 anos depois, ainda muito crente dos contos de fada.
Esta será a Cinderela correndo de encontro ao príncipe
ou eu, atrasada para ir ao supermercado?