terça-feira, 5 de julho de 2005

O captain! My captain!

Em 27 anos de vida, passei 18 circulando por corredores escolares, da pré-escola à universidade. É bem mais que a metade do que já vivi. Nesse tempo todo, tive a companhia das mais sensacionais figuras – algumas como colegas, que viraram amigos ainda presentes; outras, como mestres. Com tanta rodagem, não é de se espantar que a gente conheça professores a rodo no caminho. E, sendo tamanha a oferta, alguns inesquecíveis vêm no pacote.

Gente a quem eu respondia “presente” na chamada e de quem eu me escondia quando estava devendo trabalhos. Gente que adentrava a sala de aula enlouquecida, depois de ter encarado punhados de adolescentes chatolas no período anterior, e ainda assim tentava fazer com que aderisse à nossa cabeça algo inextricável (como, por exemplo, logaritmos). Gente que me fez pensar diferente e, naturalmente, me deu algo do que sou hoje.

Sou grata a todos eles, da paciente tia Helena (que me acolheu na EMEI José de Alencar quando eu tinha cinco verões e me agüentou chorando por semanas, de saudades da minha mãe) ao Jorge Carvalho (que fumava feito um camelo e me deixou de exame em Política quase todo semestre na faculdade de Jornalismo).

Mas há alguns dos quais é particularmente impossível esquecer. Para esses eu subiria na carteira, arrancaria algumas páginas do livro e recitaria os versos emprestados de “Leaves of Grass”, obra de Walt Whitman que ficou pop ao aparecer em “Sociedade dos Poetas Mortos”.

No ginásio e colégio, tive muitos bons professores – como o Chiquinho, de Geografia, com sua retórica peculiaríssima e seu claro amor pela política; o Leonardo, de Física, gentilmente apelidado de Harry devido ao tamanho de seu pé (lembra do Pé Grande de “Um Hóspede do Barulho”?) e a Sônia, de Literatura, que me fez ler “A Missa do Galo” com 13 anos e boiar total, só para depois me levar a entender que se tratava de um jogo de sedução. O legal é que ela teve a delicadeza de me deixar compreender sozinha, de modo a não roubar o sabor da minha epifania literária.

No entanto, é de um jovem professor do ginásio e colégio que mais recordo. O Marcelo estudava Direito quando entrou na minha sala de 6a série pela primeira vez, com a missão de nos ensinar História. Ele parecia um gato aos olhos pré-adolescentes da minha e das outras classes ginasiais. As meninas da 8a, sempre mais sabidas e experientes, desenhavam esboços do Super-Homem, recortavam fora a cabeça e ficavam mirando o bonitão pelo buraco.

Fora isso, o novo mestre tinha uma visão bem diferente a respeito de sua disciplina. Mostrava como a História não é, de modo algum, uma desinteressante e empoeirada seqüência de fatos, datas e nomes. Mal usava o livro herdado da quadradíssima professora anterior. Promovia debates na classe. Falava com calorosa convicção, absoluta clareza e indiscutível amor sobre temas como a queda do Império Romano ou a chegada da corte portuguesa ao Brasil. E tinha uma letra hor-ro-ro-sa. Devo a ele boa parte da minha visão política de hoje e o desenvolvimento da habilidade em interpretar garranchos.

Ele é um grande e inesquecível capitão, mas divide espaço no panteão com a tia Valéria e a tia Marilda. Esta última foi a responsável por liderar a fila da 1a série “C”. Lembro-me com clareza das suas mãos secas pelo pó do giz e de sua presença marcante e determinada. Devo a ela meu domínio em separação de sílabas e algo da acentuação. Além da sensação de segurança para enfrentar o desconhecido mundo do primário.

Já a tia Valéria era a professora mais bacana da escola. Ela andava de moto e tinha o cabelo bem curtinho. Cantava “Material Girl” da Madonna quando chegava a hora de guardar o material e ensinava Comunicação e Expressão e Estudos Sociais na 4a série. Bem-humorada, me dava folhas de papel almaço em vez da miserenta folha de linguagem para fazer as composições. Já tinha sacado que eu gostava mesmo era de escrever. Graças a ela, sei de cor as preposições até hoje. Quer ver? A-ante-até-após, com-contra, de-desde, em-entre, para-per-perante-por, sem-sob-sobre.

Uma pena ter perdido contato com todos eles. Mas pelo menos ainda vejo com freqüência minha primeira professora. Além de ter me alfabetizado, talvez motivada por se ver livre da interminável sabatina diária do “o-que-está-escrito-aqui-e-ali-e-acolá?”, ela ainda me ensinou a ter senso de humor e imaginação: na hora de preparar o jantar, botava uma cadeira à beira da pia para eu subir, passava a me chamar de “assistente” e cozinhava como se estivesse num programa de televisão – “igual ao da Ofélia”, dizia. A tal professora devo essa e muitas outras. Valeu, mãe!

Clara McFly às 10:23 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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