sábado, 2 de julho de 2005

Do subúrbio à passarela

Interrompemos a programação normal do Garotas que Dizem Ni para a cobertura dos desfiles da São Paulo Fashion Week. Porém, na semana que passou o trio de autoras estava ocupadíssimo pedindo coquetéis coloridos em um bangalô nas Bahamas e a produção do site foi obrigada a escalar uma repórter especial para o evento. É com você, Mirtes!

... E então eu falei pra Janete, “Janete minha filha, cê tem que pegar um fiapo de lã vermelha e colar com cuspe na testa do Armandinho! É tiro-e-queda contra soluço!”. Hein? Tá no ar? Ai, Jesus! Irene, depois eu te ligo pra gente prosear mais, agora tenho que trabalhar! (Som de pigarro).

Bom dia, colegas! E não é que me arrumaram a missão de contar como se sucedeu a tal da Féxion Uíque? O telefone tocou e eu pensei “Quem será uma hora dessas?”. Era de um site me convidando para falar sobre moda. Pensei “Vixe, vai me atrasar a vida! Vou ter que botar o feijão de molho antes de sair de casa e avisar a faxineira para recolher a gaiola do periquito!”, mas não pude negar. As mocinhas pediram com tanta educação...

Eu entendo dessas coisas de moda. Vivo falando pro Válti parar de usar as camisetas de político, porque sei que isso não é muito bonito, né? Já eu, até que me visto bem. Conheço uma loja aqui no bairro que vende uns conjuntos de viscose em conta. Na loja vizinha, o sêo Geraldo também vende umas alpargatas confortáveis, boas mesmo pra bater perna, sabe? E para a reportagem de hoje, dei uma ajeitada na permanente, peguei a bolsa de lacre de latinha que aprendi a fazer lá na Ana Maria e fui.

Eita lugar danado de longe! Peguei quatro conduções e ainda tive que andar um teco. Quando finalmente cheguei, gritei “Minha Santa Isildinha!”. Aquele Féxion Uíque enche as vistas, viu. Até parece que tem mais gente ali do que na missa do Padre Marcelo! Todo mundo aprumado. Se bem que vi uns tipos que sei não... Deviam mexer com tóchico, sabe? Um par de olhos pintado de preto que parecia tudo morto-vivo. Uns cabelos desgrenhados que nem ninho de ratazana. Um moço tava com as calças rasgadas, imagina? Será que brigou com gato brabo, foi? Esse mundo de hoje tá perdido. Ah, seu eu saísse de casa assim com essa idade, meu pai me esquentava o traseiro!

Apertei o passo e segurei a bolsa bem forte quando passei perto de um sujeito com cara de louco. Ele usava óculos escuros dentro ali do lugar, sendo que nem sol batia! Com casaco de couro e botinão. Já viu uma estranheza como essa? Devia estar com os parafusos frouxos. Eu, hein, depois sou roubada e como é que fica para eu voltar para casa? Toca de ligar pro Válti tirar o Passat da garagem e vir me buscar nessa lonjura. Válti é homem bom, mas é preguiçoso que só ele. Quando senta no sofá de courino nem o Papa faz o traste levantar. É mais fácil ele pedir desquite do que ir me socorrer!

A hora do primeiro desfile tava chegando e fui buscar o convite. Precisei mostrar o crachá que as mocinhas do site fizeram, coisa fina. Escrito M-I-R-T-E-S. Elas pediram uma foto e eu mandei a que tirei com o Válti lá na Praia do Gonzaga, em Santos. A paisagem tava tão bonita, mas cortaram só a minha cabeça para colocar no crachá. O convite é um cartãozinho, parece o bilhete único da Marta. Tem até catraca para entrar na sala! Esse povo acha que é chique, mas fica imitando os ônibus...

Sentei no meu lugar e adivinha quem eu vejo do outro lado da passarela? A moça da novela! Justo ela, a malvadona! Como judiava da pobre da mãe! Gritei lá do meu assento “Maria de Fátima, sua lazarenta!”. Bem feito, assim ela aprende. Se não estivesse tão longe, ia lá dar uma bolsada nela. Mais pra frente tava a moça que faz “Esmeralda”. Botei os óculos de grau para ver melhor, mas daí ficou tudo escuro, tocou uma música que quase me estoura os ouvidos e o desfile começou.

Primeiro, entrou uma menina com cara lavada. O cabelo mais liso que osso, parecia que a vaca tinha lambido! E a magreza? Vixe, se batesse um vento encarnado, ela era capaz de sair voando! Coitada, a mãe dela não sabe fazer arroz e feijão com sustança. E pra piorar tava com as partes querendo pular fora do biquíni. Bem, biquíni é modo de dizer, porque aquilo tava mais pra tampa-sexo. Que horror. Se tivessem me falado que seria um desfile de roupas de banho escandalosas, teria preferido ficar em casa treinando minha técnica de biscuit, fazendo meus imãs de geladeira... Muito mais proveitoso!

Daí veio um moço com cara de faminto. Esse povo não come, meu Jesus? Ou então é tóchico demais. Vi dizer que tóchico acaba com o apetite. O Vagner, filho mais velho da Juraci, mexe com essas coisas. O menino tá que é só pele e osso. A Juraci fica falando que é anemia, mas sei... Tá é cheirando maconha por aí. O menino da passarela era igualzinho. E tava de sunga estampada e uma camisa cor-de-rosa por cima. Cristo, a gente vive anos e anos e ainda não viu de tudo nessa vida! Homem usando rosa? Barbaridade!

Ainda bem que o desfile acabou logo. Peço desculpas pras mocinhas do site, mas valha-me Deus, essa coisa não é pra mim não. Peguei a sacola que veio de brinde e tratei logo de sair dali. No meu terceiro ônibus de volta para casa, resolvi abrir a sacola e vi que dentro tinha uma camiseta até que ajeitada. Vou dar pro Válti, quem sabe ele não troca essa por aquelas de político? Assim, pelo menos a tal de Féxion Uíque vai me servir pra alguma coisa! Vixe!

Vivi Griswold às 10:25 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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