sexta-feira, 1 de julho de 2005

Se não fosse, não era

Imagine só se o cultuado Ferris Bueller, em “Curtindo a Vida Adoidado”, não tivesse aquela carinha sapeca de Matthew Broderick. Ou se o confuso e tímido Benjamin Braddock, de “A Primeira Noite de um Homem”, exibisse uma lataria all american guy em vez da aparvalhada fachada de Dustin Hoffman. Pois tudo isso poderia ter acontecido, se Eric Stoltz houvesse faturado o papel central do clássico oitentista ou se Robert Redford não se recusasse a viver o personagem às voltas com a implacável Mrs. Robinson.

Uma vez impressos na telona, os filmes são capazes de associar de tal forma a imagem de um ator à de seu personagem que é impossível imaginar outrem no lugar. A não ser em casos terríveis, como ver Britney Spears na pele de Lucy Wagner em “Amigas para Sempre”. Mas peraí. Esse já é outro caso, o do filme que poderia nem ter existido.

No entanto, quando viramos o outro lado do bordado, pode crer que há um monte de fios soltos. Ao analisar os bastidores das produções, descobrimos que, para certos atores, Murphy vive. Eles recusaram papéis que tornaram seus substitutos famosos – seja nas bilheterias ou na Academia. Por outro lado, pouparam a massa de freqüentadores da saleta escura de vê-los num papel, no mínimo, bizarro. Ou vai dizer que dá para imaginar...

Gene Hackman como Hannibal Lecter?
Não há nada que desabone o intérprete de Lex Luthor, mas depois que Anthony Hopkins salivou daquele jeito por um chianti, como conceber que o papel do psicopata finérrimo de “O Silêncio dos Inocentes” poderia não ter ido parar em suas sábias mãos? Além do mais, duvido que Hackman ficaria tão bem por trás daquela focinheira.

Meg Ryan como Clarice Starling?
Ou a namoradinha da América ia surpreender a todos com sua interpretação ou o sensacional “O Silêncio dos Inocentes” ia ficar uma bela porcaria. Jodie Foster, que ganhou o papel da agente à caça de um maníaco, levou para casa seu segundo tiozinho-dourado-pelado. E a estrela de “Harry e Sally” foi fazer “The Doors”. A vida é mesmo injusta.

Ronald Reagan como Rick Blaine?
Pára o mundo que eu quero descer. Pense no ex-presidente estadunidense dizendo “Mr. Gorbachev, derrube este muro!”. Agora, substitua a frase por “De todos os bares em todas as cidades do mundo, ela tinha de entrar justo no meu?”. Funciona? Ainda bem que alguma boa alma percebeu a tempo que Humphrey Bogart era o cara para “Casablanca”.

Tom Selleck como Indiana Jones?
Analisemos friamente: alguém como o arqueólogo aventureiro e meio sujinho teria tempo de manter aquele bigodón aparado? Acho que não. Então, o Magnum teria de raspar o bigode se quisesse ocupar a posição que acabou ficando com Harrison Ford. Mas temos um problema aí: Selleck não existe sem sua pelagem supra-bucal. Uma pena...

Bette Midler como Oda Mae Brown?
Whoopi Goldberg se destaca em “Ghost” – não só porque faz um papel engraçado em meio ao dramalhão, mas também porque, a certa altura, usa aquele belo conjunto rosa-choque, acompanhado de um chapéu não menos berrante. Bette Midler tem história, mas jamais envergaria aquele modelão feito Whoopi.

Max von Sydow como Bond, James Bond?
Com a perspectiva que o tempo nos dá – e lançando mão do inevitável hábito retratado aqui –, poderíamos definir o caso acima como “depois de jogar xadrez contra a Morte, aquele cara que virou padre e exorcizou a menina (o velhinho, não o novo) quase largou a batina para ser o espião mais famoso do mundo!”. Vida de artista não é o máximo?

Frank Sinatra como Dirty Harry?
O policial duro feito adamantium, centro da série de filmes que começou com “Perseguidor Implacável”, marcou época no cinema e na carreira de Clint Eastwood. Até dá para imaginar Sinatra dizendo (ou, mais ainda, cantando) qualquer coisa – inclusive o famoso bordão “do ya, punk?”. Mas juro que prefiro A Voz cantando “Fly me to the Moon”.

O.J. Simpson como o Exterminador?
Pensando bem, talvez não seja tão difícil assim ver o atleta grandalhão e assassino interpretando um robô grandalhão e... assassino. Parte da experiência O.J. já tem. Só faltava aprender a viajar no tempo. Mas Schwarzzie chegou e estragou tudo... Valia a pena, vá? Desde que, naturalmente, O.J. não herdasse também a sina de virar governador.

Molly Ringwald como Vivian Ward?
Julia Roberts, tadinha, não era ninguém no jet set hollywoodiano. Mas eis que algum produtor/diretor/roteirista achou que ela tinha cara de “da vida” e a escalou para viver a prostituta-cinderela de “Uma Linda Mulher”. A atriz, hoje, está cheia de bala na agulha e grana em caixa. Mas, acima de tudo, deve estar cheia de gratidão por Molly, que recusou o papel.

Sylvester Stallone como Axl Foley?
“Diga a Victor que Ramón, o rapaz com quem ele estava saindo semana passada, está com herpes genital”. O dia em que Sly for capaz de pronunciar esta fala com a mesma desenvoltura – e o mesmo grau de desmunhecamento – mostrados por Eddie Murphy em “Um Tira da Pesada”, podemos voltar a conversar. Mas acho que demora.



sly.jpg
”Diga a ele que Ramón o quê?”


axelfoley.jpg
"Ah, esquece, cara. Xá comigo!"


Clara McFly às 10:41 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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