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O TRÂNSITO Se lá pelos idos de 1900 um sujeito achasse bola de cristal dando sopa e conseguisse sintonizar a coisa no canal “século 21”, não ia acreditar na aparição. O rapaz observaria chocado que o automóvel, aquela fantástica criação para poucos e ricos, tomou a humanidade de assalto. De meio de transporte, ele passou a circular pelo sangue de alguns. Alguns não: muitos! Milhares! E todos saem na rua ao mesmo tempo, dando vida a uma entidade chamada “O TRÂNSITO”. Assim, em letras garrafais mesmo. Porque O TRÂNSITO é como um ser vivente, um monstro mais poderoso que Frankenstein e mais temido que o Abominável Homem das Neves. Falamos dele como de uma pessoa. O TRÂNSITO! Só falta usar voz gutural e erguer as sobrancelhas ao proferir seu nome maldito: O TRÂÂÂÂNSITO! Cuidado, ele come criancinhas! Tudo bem, ele não come, não. Mas atropela. Atropela petizes, separa família, faz as pessoas perderem empregos e oportunidades românticas. Fomenta crises de stress, provoca tragédias a bala, instaura a inimizade e o pavor onde quer que passe. E olha que ele passa, hoje, por todo canto. Basta sair na rua aqui da frente de casa e dobrar a primeira à direita. Pronto. Eu acho O TRÂNSITO. Ele se estende daqui até onde a gasolina alcança. Está na avenida mais próxima, na Marginal, na outra Marginal, na estrada, na vicinal, no bairro suburbano da minha mãe e, se bobear, na zona rural. Aprendemos a viver assim, travados, esperando a boa-vontade d’O TRÂNSITO. Mas cadê que ele tem boa-vontade? Para marcar compromissos com amigos, é bom combinar um lugar mas, acima de tudo, a hora. Depois que O TRÂNSITO passar, aí sim. Ou antes de começar O TRÂNSITO. É importante saber, porque senão a birita das 19h00 começará, de fato, às 21h30, quando o último conviva conseguir chegar. Ficar parado no congestionamento não é uma variável. É constante. Ele é bom somente para os atrasados, que sempre podem se valer desta desculpa. O despertador tocou, porém o condenado acionou o botão “Dorminhoco”, desligou o bip incômodo, virou para o lado e nanou de novo. Chegou no escritório às 10h30 e perdeu a reunião? “Desculpa, chefe, peguei o MAIOR TRÂNSITO” – sim, porque ele também tem o irmão mais velho, o MAIOR TRÂNSITO. Qual patrão há de desconfiar? Afinal, basta abrir a janela da sala e olhar lá para baixo. Há de ter ao menos uns vinte carros tentando ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. Normalmente, eles estarão usando de um poder mágico que O TRÂNSITO inventou: o escândalo com a buzina. Todos podem reconhecer o nosso vilão urbano por essa característica básica. Ao contrário dos bandidos do gibi, ele não usa colan negro, máscara, raios laser ou escudo de força. Ele usa buzina. Loucamente. Não há mais jeito de escapar dessa praga. Para ir ao banco, localizado a 2 km de distância, é necessário sair com uma hora de antecedência. Seria mais rápido fazer o percurso a pé, mas isso não vem ao caso. Quem tem carro quer fazer uso do motor, claro! Então é entrar na cabine e encarar O TRÂNSITO – acelerando a esfusiantes 30 km por hora. E xingar bastante a mãe de quem guia o veículo ao lado é contingência. Culpa d’O TRÂNSITO, que nos oprime e animaliza. O curioso é que... quem faz O TRÂNSITO somos nós! Frankenstein era o nome do doutor, não do monstro! Atrás de cada pára-brisas coberto por aquele infeliz e funesto insulfilm existe um cidadão – eu acho, porque às vezes parece que a máquina é conduzida por controle-remoto. Não devíamos, por isso, ficar com tanto medo dele. Se a entidade nos ameaça, devíamos sair nas ruas com estacas (para cravar nos pneus), foices (para destroçar a lataria) e réstias de alho (para... refogar alguma coisa mais tarde, durante o jantar comemorativo pelo fim do tráfego). O TRÂNSITO não sobreviveria após nosso ataque coordenado! Duro é que, para coordenar o ataque, precisaríamos no encontrar em algum lugar... E vai ter muito trânsito para chegar lá. Seríamos derrotados por W.O.. Esperto, O TRÂNSITO.
Ó deus das pistas de rodagem, tende piedade de nós! Fla Wonka às 10:09 AM |
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