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A música mais triste do mundo Naquela época, eu devia contar meus anos usando apenas uma mão. Foi quando ganhei a vitrolinha vermelha e vários vinis da coleção Disquinho – saudosas bolachas coloridas que narravam histórias das mais diversas. Minha favorita era, de longe, “O Patinho Feio”. Rejeição sempre me pareceu o pior sentimento que alguém pode sentir, e o pobre pato (na verdade, um cisne), experimentou a tal em cada peninha cinza de seu corpo franzino. Ele era tão zombado por ser estranho e diferente de seus irmãos que decide partir do terreiro. Então o Disquinho tocava uma música mais ou menos assim: “Vou me embora pra bem longe/ Esta é a triste verdade/ Talvez eu sozinho encontre/ A paz e a felicidade”. Mesmo sendo a qüinquagésima audição do mesmo raio de história, a emoção batia e eu chorava feito... hã... criança. Para mim, aquela era a música mais triste do mundo. Depois, com um pouquinho mais de idade, fui presenteada com o disco “Arca de Noé”, uma jóia composta apenas por poemas de Vinícius de Moraes musicados por artistas da MPB. Entre a maluca “A Casa”, a engraçada “A Foca” e a alegre “O Gato” estavam duas canções de cortar a alma. Em “A Corujinha”, Elis Regina cantava baixinho “Todo mundo que te vê/ Diz assim, ah, coitadinha/ Que feinha que é você”. Já em “São Francisco”, Ney Matogrosso narrava a história do santo que ia pelo caminho “de pé descalço, tão pobrezinho”. Pensava que essas sim eram músicas tristes. Hoje, acho “O Caderno”, do Toquinho, uma crueldade. A saga da brochura que acompanha a menina “do primeiro rabisco até o beabá” e que, no final da letra, pede a ela para que mesmo depois de crescida não o esqueça em um canto qualquer, me arranca lágrimas. Seria essa a mais triste? Talvez no quesito infantil. Porque para os crescidos, “Eu Te Amo”, do Chico Buarque, é pior: com um caso de amor rompido, o cara se pergunta como conseguirá seguir em frente “se na desordem do armário embutido” o paletó dele enlaça o vestido dela e os sapatos ainda pisam um no outro. Lindo e terrivelmente triste. Outro coração partido que Chico compôs foi em “Atrás da Porta”. Ali, a mulher está tão desesperada que diz “Dei pra maldizer o nosso lar/ Pra sujar teu nome, te humilhar/ E me vingar a qualquer preço/ Te adorando pelo avesso/ Pra mostrar que ainda sou tua”. Cruel? Sem dúvida! Mas o que é um ex-amor perto da morte de alguém que é carne da sua carne? Em “Pedaço de Mim”, o compositor escreve que “Saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”. Isso sim é triste que dói, hein? Já o Rei Roberto Carlos, na bela “Sentado à Beira do Caminho”, canta o verso “Vem a chuva molha o meu rosto e então eu choro tanto/ Minhas lágrimas e os pingos dessa chuva se confundem com meu pranto”. Pô, não agüento homem chorando. Quanto mais dois, como a dupla Tonico e Tinoco em “Chico Mineiro”. Na letra, o caboclo é baleado. “Mataram meu companheiro/ Acabou-se o som da viola/ Acabou-se o Chico Mineiro”. No quesito “sertanejo de raiz”, voto também em “Filho Adotivo”, entoada por Sérgio Reis. É a história de um pai que teve sete rebentos, sendo um adotivo. Todos se criaram, estudaram, casaram e venceram na vida, mas foi só o adotivo que o amparou na velhice. Chuinf. Sem dúvida é mais fácil emocionar-se em português do que em inglês. A criação internacional, porém, já machucou aqueles que entendem pelo menos um pouquinho do idioma estrangeiro. Os versos “But I'd trade all of my tomorrows for one single yesterday/ Holdin' Bobby's body next to mine” (Mas eu trocaria todos os meus amanhãs por um único ontem/ Abraçando o corpo de Bobby junto ao meu), imortalizados por Janis Joplin em “Me and Bobby McGee”, são emocionantes. Assim como “Eleanor Rigby died in the church/ And was buried along with her name/ Nobody came” (Eleanor Rigby morreu na igreja/ E foi enterrada com seu nome/ Ninguém compareceu). Morrer e ser enterrada sem ter ninguém por perto é triste demais. Ponto para os Beatles. Perito em letras melancólicas e perturbadas é o meu amado Morrissey, aquele que já escreveu que “Todo dia é como domingo/ Todo dia é silencioso e cinza” e já me acompanhou nas maiores fossas e crises da minha vida. Sua voz perfeita apresentou versos como “Noite passada eu sonhei que alguém me amava/ Outro alarme falso”. Mas a jóia tem de ser “I Know It’s Over”, na qual sente o solo desabando e pede pela mãe no meio da solidão. Não dá para escolher o verso mais triste. Talvez “And it never really began/ But in my heart it was so real” (“E nunca começou de verdade/ Mas em meu coração era tão real”). Ou “Love is natural and real/ But not for such as you and I, my love” (“O amor é natural e real, mas não para alguém como você e eu, meu amor”). Buááá. Tudo bem: vimos que amores perdidos, corações em frangalhos e partidas de seres amados fazem músicas comoventes. E se juntarmos tudo isso com crueldade animal e a seca do sertão, poderemos finalmente ter a mais triste do mundo, certo? Então “Assum Preto” o é. Luiz Gonzaga bota um nó doído na minha garganta só com a lembrança da canção sobre o passarinho que teve os olhos furados para cantar melhor. “Assum preto verve sorto/ Mas num pode avuá/ Mil vezes a sina de uma gaiola/ Desde que o céu, ai, pudesse oiá”. No final, o cantor se identifica com o sofrimento do bicho dizendo “Assum Preto, o meu cantar/ É tão triste como o teu/ Também roubaro o meu amor/ Que era a luz, ai, dos óios meu”. Pronto. Estou para ouvir tristeza maior. Enquanto isso não acontece, vou ali pegar um lencinho. Vivi Griswold às 10:51 AM |
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