terça-feira, 28 de junho de 2005

Meu passado me condena

“Agenda: caderninho feito para facilitar sua vida que, no entanto, muitas vezes acaba complicando-a”. Claro que essa definição para a palavra acabou de ser inventada por mim, mas, convenhamos, podia mesmo existir para valer. A agenda tem múltiplas funções na vida de uma simples mortal como eu – tudo dependendo da faixa etária e da (in)capacidade de organização da criatura proprietária da brochura.

Quando eu tinha aí uns quatro anos, as agendas promocionais que meu pai trazia para casa (aquelas com capa de couro e os dias da semana escritos em várias línguas – graças a elas aprendi que Lunedi é segunda-feira em italiano) serviam pura e simplesmente para as minhas garatujas. Eu também gostava de arrancar aquele triângulo picotado que ficava no cantinho da página, só para ouvir o barulhinho do picote rasgando.

Quando ingressei nas fileiras do primário, a agenda ganhou a função de me lembrar das tarefas a fazer. Isso durou até mais ou menos meus 11 anos, quando percebi outra função desse afamado objeto: abrigar minhas confidências. E olha que confidências são o que garotas nessa idade mais têm. Claro que, à luz da passagem do tempo, elas se tornam particularmente ridículas. Lendo minhas agendas antigas hoje, poderia muito bem encontrar registros do tipo “hoje eu espirrei e o Fábio falou ‘saúde’. Ai, ai...”, ao lado de uma penca de coraçõezinhos desenhados em dez cores diferentes.

Nesse tempo, a agenda começa mais a atrapalhar do que ajudar se seu irmão a surrupia da sua gaveta. Ou, anos depois, por ter mantido o registro firme, forte e juramentado, durante todo esse tempo, das besteiras que a afligiam. Lê-las uma década mais tarde nos faz querer enfiar a cabeça debaixo da terra, de tanta vergonha. Mesmo quando fazemos isso sozinhas, sem nenhum irmão cretino cantando versinhos idiotas como “Dois namoradinhos, só falta dar beijinhos...”, em voz pastosa e bem pausadamente.

No auge da adolescência, minha agenda servia para lembrar os trabalhos escolares – já no colegial – e, aparentemente, para copiar versos soltos de músicas. Outro dia peguei uma e tinha de tudo, de Bob Marley a Radiohead. Acho que uma das características mais intrínsecas a essa fase é o ímpeto de mostrar quem somos. Daí a miscelânea musical: era preciso deixar bem claro que tipo de música eu ouvia.

Mas não só o recheio do dito caderno era usado para dizer a que eu vinha (e olha que eu não vinha lááá para muita coisa nessa época). O que pegava era cobrir a capa da agenda com recortes de toda espécie, tirados de revistas que eu lia; no caso, a Bizz, a Set e a... Capricho (não riam, lembrem-se que eu tinha 15 anos). Os ídolos também entravam na colagem, o que era uma boa: todo mundo podia saber, através da minha querida agenda, que eu adorava Red Hot Chili Peppers.

O problema, nessa fase, é que não é nada incomum mudar de idéia no segundo semestre. E, depois que a transadíssima colagem era coberta com contact transparente (o que aliás dava um trabalho enorme, com a minha parca coordenação motora), era melhor você a-do-rar Red Hot até o final do ano. (Nesse caso, funcionou: eu gosto até hoje). Caso contrário, sua querida agenda passa a ser razão de constrangimento e tem de ser enfiada lá embaixo dos livros, para cobrir a foto enorme do Milli Vanilli que você colou ao lado de um coração.

Mais tarde, liberta dos corredores e das carteiras escolares, minhas agendas passaram a conter frases mais, digamos, adultas, como “passar na lavanderia” e “otorrino às 14:30” (não seria de todo errado substituir “adultas” por “chatolas” na frase anterior). Meu irmão não surrupia mais minha agenda – nem minhas amigas, para devolvê-la com versinhos e mensagens do tipo “te adoro muitão”.

Mas ela me ajuda bastante. Comporta idéias de textos surgidas em momentos indevidos, como sentada ao balcão de uma pastelaria ou parada no trânsito. Ajuda esta pobre cabeça atormentada e confusa a não se esquecer da lavanderia e do otorrino. E, acima de tudo, guarda todos os telefones necessários para o bom desenrolar da minha vida, como o da comida chinesa delivery e o do moço da assistência técnica que conserta o aquecedor do chuveiro.

Aliás, aí é que mora o problema com minhas agendas atuais. Trocar de agenda no final do ano letivo era praticamente indolor. Havia uma capa limpinha para ser coberta de recortes com suas novas bandas e filmes favoritos e um calhamaço de deliciosas folhas (sempre adorei o cheiro de brochuras novas) esperando pela ponta da sua esferográfica. A parte destinada aos telefones era passada para a nova agenda num tapa; afinal, quem tinha tantos contatos assim aos 17?

Porém, com o passar dos anos, a coisa se inverte. A parte mais cheia de minhas agendas atuais é mesmo o índice telefônico. Não tenho mais trabalhos de Gramática ou Química para entregar todo dia, nem preciso mais ler “Iracema” para o fim do semestre. Tampouco fico copiando trechos de músicas nas páginas diárias. Por outro lado, o finalzinho, destinado aos números de telefones, é lotado. E haja disposição caligráfica para passá-lo a limpo...

Resultado? Este ano, comprei uma agenda 2005 em maio e ainda não a estreei, por pura preguiça de copiar os telefones. Isso me deixa um tanto aflita, pois o ano já está pelo meio. Estou pensando em arrancar o índice de números e colá-lo na contracapa de minha nova brochura. Talvez fique porco, mas é melhor que manter tudo no celular – e se ver no mato sem cachorro caso seu aparelho seja roubado ou perdido – ou comprar um palmtop – com o dinheiro do brinquedinho, compro toneladas de bala 7Belo ou dezenas de entradas de cinema. Ou, ainda, uma caixa de novas agendas.

Clara McFly às 10:21 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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