segunda-feira, 27 de junho de 2005

Samba do italiano doido

Como tanta gente boa, ele nasceu e morreu pobre. Pobre mesmo, de pedir ajuda aos parentes e amigos. O caso é que todo o dinheiro ganho com a música foi diluído nas beberagens do botequim. Pudera: se suas incríveis canções nasceram mesmo foi do bate-papo com amigos, entre uma birita e um torresmo, porque haveria de se afastar deles? Foi em meio às pinguinhas e os sambinhas que viveu o grande Adoniran Barbosa.

Como meus avós, ele foi um homem muito simples. Vai ver por isso ficou tão marcado que, nas palavras cantadas de Adoniran, estavam as histórias e a lembranças dos velhinhos da minha família. Desde pequena me acostumei a ficar na roda de conversas deles – que, em geral, versavam sobre bobagens do dia-a-dia e a memória dos tempos antigos.

Meu pai dividiu seu quarto de criança com dois irmãos e um primo até casar. Isso porque meu avô, apesar de pedreiro de mão cheia, não tinha tostão no bolso para aumentar sua própria casa. Se há alguém que cantou como nenhum outro essa face dos imigrantes no Brasil, foi o seo Adoniran Barbosa.

Daí acontece de ouvir “Saudosa Maloca” e, em instantes, pensar em como devia ser essa história de se ver como estrangeiro neste país novo. A letra, um primor de descrição, conta como se sentiu a gente do cortiço quando a polícia botou abaixo seus barracos. “Cada tauba que caía, doía no coração”. O Matogrosso quis gritar, mas em cima ele falou “os hôme tá com a razão, nóis arranja outro lugar”. Triste e sofrido – mas com aquele toque cômico que só os carmacamos sabem dar.

Adorinan, na verdade, se chamava João Rubinato. Mas ele considerava o óbvio: isso não era lá nome para um cantor de samba. Filho de italianos, bem cedo largou a escola e foi trabalhar com tecelagem, de garçom, de balconista. E como gostava de compor suas histórias em forma de música, na década de 30 passou a arriscar a pele nos programas de calouros. Foi desclassificado inúmeras vezes, porque era meio fanho, meio rouco. Mas essa era a graça. E, felizmente, alguém notou rápido.

Também era muito divertido o modo dele escrever as letras. Os erros de português propositais fizeram Vinicius de Moraes criticar o malandro Adoniran, mas cadê que ele se importou? Em resposta, o pirracento musicou um poema do adversário e o transformou em valsa.

Os vacilos verbais, segundo o próprio, aproximavam a música do povo, que falava errado mesmo. Minha avó, até hoje, ainda diz “parteleira”, poxa. Ela adorava cantar uma modinha em que o sujeito dizia “seu olhar mata mais que atropelamento de artomóvel/ Mata mais que bala de revórver”. Apesar de prezar muito a língua-mãe, me animo à beça de cantarolar algo chamado “Tiro ao Álvaro”!

Ainda mais porque as canções de Adoniran Barbosa são o que há de mais inocente. Na obra citada acima, ele diz: “De tanto levar frechada do seu olhar/ Meu peito até parece sabe o que?/ Táuba de tiro ao Álvaro/ Não tem mais onde furar”. As boy bands devia aprender como esse senhor como é que se faz baladinha de amor.

É assim também com “Trem das Onze”, famosa por mostrar como se sente o pobre rapaz que precisa deixar a guria para trás porque, proletário que só ele, necessita de apanhar o último transporte público. E ainda conta que a mãe não dorme enquanto ele não chegar. Coisa de filho único mesmo... Filho único de mãe italiana, por sinal. Se Adoniram fosse francês, a mãe ia se lascar sozinha lá no Jaçanã.

O público se identificava com ele por isso. Nos anos 50 e 60, quando as músicas foram gravadas, o comportamento familiar de bairro era só o que se conhecia. Globalização, que nada. O negócio era marcar uma roda de samba com os colegas. Menos com o Ernesto – o “Arnesto”, no caso. Porque bem cantou Adoniran: ele convidou pra um programa, mas não estava em casa quando o pessoal chegou.

“O Arnesto nos convidou/ Prum samba, ele mora no Brás/ Nóis fumo e num encontremo ninguém/ Nóis vortemo com uma baita de uma reiva/ Da outra vez nóis não vai mais”. Esse era o comecinho do imortal “Samba do Arnesto”. Entendi a mágoa do Adoniran, mas não o que ele diz depois: “nós não semo tatu”? Como assim, homem? Deve ser uma gíria, porém ignoro o sentido.

“As Mariposa” sempre me fez rir da burrice dos insetos que se auto-fritam na lâmpada. “Torresmo à Milanesa” é o clássico da marmita – e me dá a maior fome quando o Dito diz “truxe ovo frito”. Mas talvez a melhor letra de Adoniran seja “Iracema”. Inspirada em uma notícia de jornal, ele conta sobre a moça que não olhava para atravessar a rua. Morreu de atropelamento, a desavisada Iracema.

Já Adoniran Barbosa faleceu foi no hospital mesmo. Esquecido por todos, inclusive pelos amigos do bar onde ele tinha mesa cativa, no centro de São Paulo. Um fim triste para o cidadão que mais faz lembrar as engraçadas mazelas dos meus parentes e suas malocas. “Dim dim donde nóis passemo dias feliz de nossas vida”.

Ad_Barbosa.jpg
Era um véio aprumado, hein, Iracema?

Fla Wonka às 10:17 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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