Se você me perguntar o que almocei ontem, talvez eu não seja capaz de lhe dar uma resposta de pronto. Também costumo me esquecer de onde deixei as chaves do carro e de se realmente fechei a janela da cozinha antes de sair. No entanto, misteriosa como ela só, minha memória gravou detalhes e fatos muito – mas muito mesmo – mais antigos do que os ocorridos há poucas horas.
O critério desse implacável mecanismo de lembranças eu desconheço. Não sei como a minha caixa de giz de cera dos Barbapapas, objeto de minha alegria e paixão aos quatro anos, ficou aqui, enquanto que o menu do almoço de ontem se foi. Talvez aí esteja uma dica: o valor que se dá às coisas. Eu aposto que ainda terei milhares de almoços com arroz, feijão, bife de panela e salada de alface americana. Já caixas de giz dos Barbapapas... como diria o corvo, nevermore.
Federico Fellini, cineasta e malucão, intitulou um de seus filmes de “Amarcord”. Ao que me consta, a palavra significa “eu me recordo” no dialeto italiano que o homem cresceu ouvindo. Pois eu também tenho cá minhas recordações.
Amarcord...
... de pensar que o céu estava indo embora
É minha mais antiga memória. Eu tinha uns três anos e estava comendo danoninho sentada no quintal da minha avó. Olhei para o céu e as nuvens passavam depressa, com o vento. Sem noção para fazer o julgamento correto, acreditei no que meus olhos viam e corri apavorada, a fim de alertar minha mãe do perigo iminente: “o céu tá indo embora!”. Entrou para os anais da família.
... do gosto de sangue deixado pela queda do dente
Também me lembro da sensação de ter um dente (de leite) mole. Ficava empurrando-o com a língua, para lá e para cá. Quando estava por uma pelinha, minha mãe arrancava o infeliz, com a mão embrulhada numa toalha. Dava ânsia aquele monte de pano na minha boca. Quando ela tirava, sobrava só o gosto do sangue. E aquele buraco molenga onde outrora vivera o dente.
... de uma certa blusa de lã colorida
Ela era minha peça de roupa favorita no mundo quando eu tinha 10 anos. Eram grandes faixas tricotadas, uma de cada cor. Tinha vermelho, amarelo, cor-de-rosa, azul escuro e clarinho. Lembro até que eu usava exatamente esta roupa quando minha prima Mariana nasceu lá no sobrado, em 3 de junho de 1988. Mas isso é por assistir tantas vezes a fita de vídeo do dia do nascimento...
... de um bueiro enorme que tinha na rua do sobrado
Ficava diante de um portão, três casas para baixo da minha. Bem em frente à casa da Vanessa, minha amiguinha, cujo irmão – o Rodrigo – era meu par oficial nas festas juninas da rua. O maldito bueiro engolia todas as minhas bolinhas de taco, barquinhos de papel, pedras de amarelinha e brinquedos de rolar em geral. Parecia um buraco negro. Ainda o vejo em sonhos.
... do cheiro da merenda no pré
Meu dia favorito era quinta, quando se servia para a petizada pão com carne moída. Até hoje tenho vontade de comer tal sanduíche e, por mais que tente, nunca consegui repetir a receita. Em compensação, na segunda-feira eu queria morrer. Era dia de pão com manteiga – o que nem seria tão ruim, não fosse um detalhe: a manteiga era com sal. E eu sempre detestei manteiga com sal.
... de ouvir o “Jornal da Manhã” na Jovem Pan AM
Isso porque às vezes meu pai me levava à pré-escola de carro, antes de ir trabalhar. Na carona, eu tinha de escutar o que ele escutava – ou seja, a Pan AM. Os versos “a cidade não desperta, apenas acerta a sua posição... vam’bora, vam’bora, olha a hora, vam’bora” e os locutores dando o horário com aquele timing bizarro (“7 e 15”; “Rrrrepita!”; “7 e 15”) ficaram grudados para sempre.
... de pegar onda nas costas do meu pai
Durante toda a infância, passei sagradas férias de verão na praia. Pirralha, não apreciava muito a areia melequenta, mas gostava do mar. Porém, só podia ficar no rasinho. Daí, era a glória quando meu pai me levava até o “fundão” e a gente voltava de jacaré – eu presa com todas as minhas forças nas costas dele, apavorada e excitada, intercalando a garganta entre risos e o gosto de sal.