segunda-feira, 20 de junho de 2005

Lava a boca com sabão!

Quando eu era criança, qualquer brincadeira em grupo só podia resultar em violência. Fosse uma partida de alerta, barra-manteiga ou corre-cotia, tudo sempre acabava em tapas, rasteiras, choro e, óbvio, xingamentos. O palavreado chulo permeou toda a minha infância – afinal eu sou de família italiana e praguejar é nossa atividade predileta depois de comer. Bom, eu sempre fui uma adepta dos palavrões. Com a idade chegando, porém, eles estão ficando mais amenos. Ou não?

Ah, estão sim. Porque era muito comum, na meninice, berrar um belo “féladaputa” na cara dos coleguinhas inimigos. Assim, de boca cheia (e suja). Hoje já não tenho a mesma desenvoltura com os palavrões. Fico com vergonha, tenho a impressão de que a língua vai secar e cair por causa da má educação. Coisas que a idade e a consciência trazem.

De pequena, isso não existia. Meu grilo falante mental nunca barrou os nomes feios – e lá ia eu disparar um “vá se f*...” por qualquer motivo. Depois de levar um empurrão no jogo de mãe-da-rua, esta gentil princesa aqui não conseguia se parecer menos com um estivador de beira de cais. E ao longe se escutava ecoar um bonito e suave “seu viadinho de merda!”. Perdoe, por favor, o meu francês...

Atualmente, percebi ter adaptado os xingamentos podres e vergonhosos por palavras mais, digamos, esculpidas. São horrendas do mesmo jeito, e eu costumo me arrepender de ter dito aquilo em 0,2 segundo. Mas ainda bem que, pelo menos, amenizei os termos. Agora é muito mais comum usar os seguintes.

10. Morfético
Muito utilizado para designar motoristas lerdos no trânsito e jogadores de futebol que ganham muito e correm pouco. Nem chega a ser palavrão, vá? Segundo o dicionário, é apenas algo relativo a Morfeu, o deus do sono, e ao indivíduo molengão. Mas chamar de morfético é mais forte.

9. Quadrúpede
Ainda acho que é mais uma ofensa aos pobres bichos do que às pessoas. Afinal, os bípedes conseguem ser, muitas vezes, bem estúpidos. Uso apenas porque, assim, o sujeito entende logo o que pretendo dizer: se o colocarmos de quatro num gramado, ele pasta tudinho, de tão burro.

8. Lazarento
Eu falo, mas baixinho. É horrível demais chamar alguém por esse outro sentido de “leproso”. Eu sei, eu sei, desculpe! Mas é que ainda não consegui me livrar dessa forma hedionda de xingar. E eu juro: só uso mesmo para políticos corruptos e gente que maltrata criança e velhinho. Juro.

7. Paquiderme
Quem faz corpo mole vive na minha mira. O estilo paquidérmico de levar as coisas é de deixar doente. Pela tradução literal, este é um gênero animal, como os hipopótamos e rinocerontes. Mas eu não utilizo como forma de enxovalhar os mais robustos, viu?! Sou malcriada, mas nem tanto.

6. Safardana
Ô, modo arcaico de falar... Xingar como a tia futriqueira de bairro é minha especialidade. Por isso, os malandros e espertinhos não fogem à essa antiga forma de designá-los. Também adoro usar “pulha”, mas tenho medo de não ser compreendida. Ou de acharem que tenho 74 anos.

5. Sirigaita
É parente daquela outra, a lambisgóia. Mocinhas atiradas, despachadas e desinibidas são isso mesmo, pronto. Detecto as sirigaitas há quilômetros de distância, sempre usando perfume demais e/ou aquele olhar de peixe morto. Xingo mesmo, essas merecem.

4. Vagabundo
Quando repito, lembro de um chefe que tive. Para ele, quase todo mundo era vagabundo – desde quem não fez seu trabalho até artistas, milionários, aposentados, adolescentes e mendigos. Tudo vagabundo. Não concordo, mas é engraçado dizer. De preferência, bem devagar: va-ga-buuuun-do.

3. Larápio
Chamar alguém de ladrão? Eu não! É muito ofensivo. Muito mais elegante é sacar um “larápio” ou “gatuno”. Até porque, quem rouba coisa pouca é apenas mão-leve, não precisa exagerar. Ladrão de verdade a gente chama de lazarento, conforme já comentado.

2. Cagüeta
Olhaí mais um modo ameno de alardear um traidor. Não gosto de levantar testemunho sem provas, então um traidorzinho mequetrefe costuma virar, para mim, um cagüeta. Chamar de “Judas!” também vale. Mas só se os demais tiverem conhecimento bíblico.

1. Xarope
Aí está meu xingamento mais utilizado desde os brincadeiras de corre-cotia. Por que? Simplesmente porque ele congrega tudo, todas as formas de desmoralizar o adversário. Malucos, bobalhões, chatos, contraventores, mal-educados, grosseiros... Tudo xarope! Preciso lavar a boca com sabão? Nem tanto, poxa.

Fla Wonka às 10:39 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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· Flá Wonka
· Vivi Griswold