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Que bela produção! Trata-se, praticamente, de uma entidade. Um grupo de pessoas sem rosto e sem nome definidos, mas com uma lista de utilidades que não possui fim. São “mão para toda obra”, como se diz, e devem trabalhar de sol a sol para conseguir dar conta de tarefas que vão desde arrumar roupa para a tiazinha da Vila Matilde até comprar um buquê de flores do campo para o analista de sistemas perdoar a atendente de telemarketing infiel. Não podem vacilar. Também, com um patrão daquele... Eu sempre imaginei que a Produção do SBT (assim mesmo, com letra maiúscula, pois estamos falando de um patrimônio da televisão brasileira) fosse um bando de Umpa Lumpas – centenas de anões idênticos, usando suspensórios e cabelo verde. Ok, talvez sem o cabelo verde. Todos, é claro, liderados pelo sapientíssimo Roque e conduzidos sob os olhares atentos de seu Silvio Santos. Minha curiosidade nas criaturas é constantemente atiçada. Basta assistir a qualquer programa do Homem do Baú para notar a presença desses trabalhadores braçais ocultos. Afinal, o próprio apresentador faz questão de checar a eficácia de sua equipe no ar a todo o momento. No “Show do Milhão”, por exemplo. Quando ele formulava aquela mini-entrevista com o participante antes de jogar nele dezenas de perguntas inúteis e de respostas engraçadíssimas. Silvio: “Foi a primeira vez que você andou de avião?” Ou seja: a Produção era responsável por arrumar passagens aéreas para o casal e providenciar um hotel decente para os dois ficarem. E ainda era botada na berlinda diversas vezes por noite. Já pensou o que aconteceria se o participante respondesse “Não, seu Síuvo, tua produção cuspiu no meu sapato novo e ainda chamou a minha véia de bruaca”? Iam todos parar no pelourinho do gabinete do chefe. Toda a malemolência, o ziriguidum e o telecoteco da Produção do SBT eram colocados em prova mesmo na atração “Topa Tudo Por Dinheiro”. Ali, precisavam não apenas arranjar ovos cozidos e crus para a prova do “Xampu de Ovo”, ou fazer dobraduras de aviões em notas de 10 reais, ou distribuir pompons coloridos para as 6.927 senhoras presentes no auditório. A missão maior dos trabalhadores era arranjar objetos de cenas inusitados e fantasias para as tiazinhas. Vestir uma “colega” sexagenária de índia Iracema não é nada fácil: mas a Produção conseguia. Também arrumava todos os detalhes daquele quadro em que o pobre marido era chamado ao programa sem saber de nada e ficava tomando chá de cadeira no camarim. Enquanto isso, sua mulher, no palco, precisava dizer para o Silvio se o homem iria ou não olhar dentro da carteira esquecida em cima do sofá. Parece tudo muito difícil e trabalhoso – mas eu tenho a mais absoluta certeza de que a Produção se divertia à beça e que suas missões eram feitas sob o som de gargalhadas. Basta pegarmos o programa “Em Nome do Amor” (ou qualquer uma de suas versões) para vermos que os trabalhadores jamais perdiam o senso de humor. Assim que a convidada ou convidado adentrava o palco em forma de coração, Silvio Santos perguntava “Essa roupa é sua ou foi a produção quem arrumou?”. A moça ou o rapaz respondia, envergonhada(o), que havia sido a Produção. E que maestria para montar figurino! Nas jovens, tratavam de enfiar um tailleur de vilã de novela mexicana, sem mencionar a maquiagem e o penteado que envelheciam as coitadas em uns 15 anos. Nas senhoras, trajes de freqüentar o culto aos domingos – saias batendo no calcanhar e blusas com botões dourados. Nos homens, terno de defunto. De preferência cinza claro, com gravata salmão. É por tudo isso que eu tiro o meu chapéu invisível para os funcionários que compõem a entidade chamada Produção. E quando seu Silvio Santos bater as botas (isola!), eu vou ficar 17 horas na fila do velório na Câmara Municipal não apenas para me despedir do grande brasileiro que ele foi, mas para tentar identificar, entre as expressões chorosas, alguns componentes desse ilustre grupo. Se eles estiverem de peruca verde, ficará bem mais fácil.
Será que a Produção também lustrava o microfone do Silvio? Vivi Griswold às 10:21 AM |
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