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O que foi que ele disse? O ano era 1989. Eu contava onze tímidos verões e adentrava a quinta série do Colégio São Bernardo, trajando um uniforme azul e branco com calças de helanca e aquele bolso-saco costurado por dentro do cós. Depois de quatro anos primários assistindo a aulas de Inglês que não passavam de palavras soltas, como pen, pencil e book, finalmente começaríamos a aprender algo decente na disciplina. E, ao mesmo tempo, eu despontava para o fabuloso mundo do rádio – era demais ouvir sua própria música, e não os discos da sua mãe e do seu pai. Pode parecer que as aulas de Inglês não teriam nada a ver com o início da formação de minha personalidade musical, mas não se engane. Esse dois elementos estavam intimamente ligados no caminho de pedras que era conseguir uma música na era pré-internet e antes de você diferenciar push de pull. Tudo começava com a parada de sucessos da rádio. Eu ouvia alguma coisa legal, diferente, interessante e inovadora. (É bom lembrar que, à época, Technotronic já era o suficiente para preencher tais requisitos. Não riam). Isto posto, era necessário ficar de ouvidos colados à caixa para tentar entender o nome da banda ou da música que acabara de ser executada. Era a primeira barreira: os locutores despejavam uma dúzia de palavras em um inglês de sotaque forçado e eu, armada em parva na frente do rádio, tentava anotar alguma coisa: “O que foi que ele disse? Tequinotról? Tequinotrong? Droga”. Aí, toca a esperar a próxima execução da música, desta vez com a fita virgem a postos e o dedo no botão do rec. Depois que a gente finalmente conseguia gravar a danada, desviando dos jingles das estações e dos apresentadores que insistiam em dizer as horas por cima dos últimos acordes, o passo seguinte, claro, era querer cantá-la. Pronto! Vinha novo round de dificuldades. Aí entram as aulas de inglês – ou a falta de domínio do idioma. Se hoje basta pegar poucas palavras do refrão de alguma música e digitá-las no Google para obter o nome da canção, seu intérprete e sua letra – às vezes traduzida –, naqueles duros anos não tínhamos recurso algum. Quer dizer, tínhamos. Mas eles eram um tanto ridículos. Minha primeira tábua de salvação eram os folhetos das escolas de inglês. Eu tinha uma prima estudava em uma delas e trazia aquele monte de papel com letras coloridas, estampados com os versos das canções do momento e suas traduções. Depois dos folhetos de escolas de idiomas, vinham as edições da Bizz Letras Traduzidas. O problema é que, quando você é estudante, não fala inglês e ainda por cima grava músicas da rádio, dá para presumir que seus proventos não são lá muito grandes. E a revista custava umas boas pratas para alguém como eu. A solução era arrumar mais duas ou três amigas interessadas no empolgante mundo das FMs, fazer uma vaquinha para comprar a edição e, depois, dividir as páginas. As letras que não me cabiam na divisão eu copiava num caderno. Mesmo assim, a gente dependia da boa vontade do editor em incluir na revista a letra desejada. A última cartada era o processo chamado de “tirar a letra”. Eu reunia uns amigos que sabiam mais ou menos o idioma anglo-saxão, passava a mão no toca-fitas e lá ia a gente, verso a verso, tentar desbravar o que diabos os cantores estavam dizendo. Para quem ouvia de fora, devia ser um inferno. Os hits do momento (que, convenhamos, já não eram lá essas coisas) ficavam entremeado de “tlecs!” vindos dos botões pause, stop, rew, play... e lá vinha mais um trechinho, seguido de uma acalorada discussão: “Acho que é uátchior finquin”. O pior de tudo é que, muitas vezes, ao me deparar com a letra oficial, eu já tinha lançado mão do embromation – e decorado minha própria versão para “I’ll Be There For You”, do Bon Jovi, por exemplo. Foi duro trocar “fi-fái-fo ái suér tchu iú” por “these five words I swear to you” quando eu ia cantar essa dramática pérola de sêo Jon. Para falar bem a verdade, muitas das músicas que comecei a ouvir nesta época ainda preservam suas versões embromation no meu teimoso cérebro. Ainda bem que, creio eu, nenhuma das letras valeria a pena mesmo saber: era tudo Information Society, Snap, C+C Music Factory, Milli Vanilli e congêneres. É. Pensando bem, acho que escapei de umas boas. Viva o embromation!
* Para o registro: a letra é de “What’s on Your Mind”, do Information Society. Mas na versão da embromation society. Clara McFly às 10:23 AM |
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