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Crossover E então ela surgiu na porta, apoiou os dois braços nos batentes e disse para todos ouvirem: “o Bira matou a Yasmin!”. Essa era minha irmã. O ano era 1992. Estava no ar, no horário das 20h00, a novela “De Corpo e Alma”. E quando estas variáveis se unem, eu sei que nada é o que parece. Porque, na minha família, todo mundo tem mania de misturar ficção e realidade – e os nomes dos artistas com seus respectivos personagens. Aposto que muitos de vocês já usaram desta artimanha para se expressar, criando um cruzamento de fatos para chegar à conclusão. Assim: a idéia é comentar algo sobre o Keanu Reeves, mas o nome desgraçado teima em fugir da memória como peixe ensaboado. Então, o jeito é cortar caminho: “Eu vi o filme novo daquele cara, o... aquele que fez... o Neo da Matrix, sabe?”. Lá em casa isso sempre foi costume. Nem há discussão quando a conversa tem início por um “a Heleninha Roitman tá ótima nessa novela nova, né?”. Já sei que não é um remake de “Vale Tudo”. Nem que a mamãe pirou ou entornou mais uísque que a própria filha de Odete. Ela pretende dizer que o atual desempenho da atriz Renata Sorrah está excelente. Quando o nome dos dito cujos desaparece da mente, improviso é o que conta. Também ajuda muito ter um bom banco de dados cine-televisivo na cabeça. Quem vai fazer o Homem-Morcego em “Batman Begins”? O moleque de “O Império do Sol”. Ou o “Psicopata Americano”, você escolhe. Ele se chama Christian Bale, mas quem é capaz de lembrar isso de bate-pronto? Na verdade, peguei a mania familiar para mim por pura vontade de diversão. Minha cachola é até bem azeitada para recordar nomes e trabalhos das celebridades, porém ainda acho muito mais engraçado dizer que a Natasha não fez nada bom depois de “Vamp” (ignorando que a moça tem nome, e é Claudia Ohana). Ou que o Edson Celulari é casado com a “bailarina da coxa grossa” – como bem era conhecida Claudia Raia nos tempos de “Rainha da Sucata”. Até porque, fazer o crossover artista-personagem é muito útil nas conversas com gente como meu namorido. Ele simplesmente desconhece o nome de 80% dos famosos. E com aquele parco poder de marcar fisionomias, também esquece que o Qui-Gon Jinn de “Star Wars” já ajudou a salvar centenas de judeus como Oskar Schindler. Por causa dele, treino constantemente a brincadeira. Quando perguntada sobre a presença de brasileiros no corpo eleitor do Oscar, já digo logo que, pelo que sei, a Tieta vota. Ele sabe, obviamente, que a cabrita-quenga de Santana do Agreste não pode eleger ninguém para a estatueta. Mas, lá no setor de referências do cérebro, saca logo a face de Sônia Braga. E está resolvida a questão. Muito mais simples do que explicar quem a Sônia é aquela do “Beijo da Mulher Aranha”, e não outra. Só espero que ele não misture com a Lili Carabina. Ops, a Betty Faria. Alguns artistas, por sinal, já ganharam há tempos um nome postiço para serem designados. Outro dia, assistindo ao seriado “Lost”, tivemos a impressão de ver um rosto conhecido fazendo ponta. Evidente que nenhum dos espectadores residentes nesta casa diria “veja só se não é o grande Robert Patrick... Que interpretação!”. A reação exata foi dizer “esse cara não é o T-1000?”. Chamar a máquina assassina de “Exterminador do Futuro 2” pelo nome de batismo é impossível. Para mim, ele sempre será o T-1000. Mesmo que interprete Jesus Cristo ou Adolf Hitler. Ou o cara chatola de “Arquivo X”. Bom é saber que muitos conhecem essa modalidade de misturar estações. No ótimo “Meu Tio Matou um Cara”, por exemplo, os meninos conversam sobre um filme que assistiram. E então, para lembrar o tema da produção, assimilam que “era aquele onde o 007 faz um monge”. Tradução: Sean Connery, que um dia já foi James Bond, recria um religioso em... “O Nome da Rosa”! Viu como é fácil? Por isso mesmo é que, quando minha afobada irmã paralisou na porta e proferiu o acontecimento citado no primeiro parágrafo, saquei logo toda a história. Guilherme de Pádua acabava de ser preso por ter assassinado a colega de trabalho Daniela Perez. Eles faziam o casal romântico na novela, mas a tragédia aconteceu entre o ator e a atriz na vida real. Isso, porém, já é um crossover muito do sem graça.
Belo terno, T-1000! Manda um abraço ao Duchovny e outro pra... pra... pra Dana Scully lá Fla Wonka às 10:29 AM |
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