segunda-feira, 13 de junho de 2005

Mamãe, tradutora e intérprete

Bebês são tão fofos, lindos, cheirosos e macios! Tão doces, tão perfeitos, tão divertidos de se observar por toda a tarde. Olhando para minha filhinha de quatro tenros meses, eu fico pensando... Ô fase maldita deve ser essa de neném! Não se pode fazer nada, nada. Você depende dos outros para comer, beber, vestir, banhar, limpar seu traseiro. É como ser um lutador de sumô, mas sem a glória. E o pior de tudo: nunca se sabe se os demais irão interpretar seus gritinhos com precisão.

Como ficamos só eu e Sabrina em casa praticamente todos os dias, conversamos bastante. Quer dizer... Eu falo muito, ela solta lá seu balbuciar engraçadinho. Que está me entendendo, não tenho a mínima dúvida. Se eu entendo o que ela responde? Aí já é coisa mais complexa.

Podemos traduzir algumas partes rapidamente. Está deitada no carrinho e começa a chorar? Pode estar com sono. Ou sujou a fralda e cansou de sentar na meleca. Ou prefere brincar em vez de fitar o teto branco. Existem poucas possibilidades para cada ação, então fica até fácil. Mais fácil ainda seria a Sabrina ter poder de comunicação além dos sons guturais e me dizer, com clareza, o que diabos ela quer.

Não vai acontecer. Troca de informações com palavras inteiras, só daqui um ano. No momento, eu preciso encarnar uma maga da adivinhação e supor o que fazer – rezando para acertar logo e acabar com o incômodo da garota em dois tempos. E não posso me demorar no socorro, querendo terminar o banho ou um telefonema enquanto a pequena chora. Senão, logo ela se chateia muito e, imagino, começa a dizer para os brinquedos “vai, boneca idiota, deixa de rir pra mim e busca a mamãe!!!”.

Sempre se pode exercitar a imaginação assim. Enquanto tento decifrar os choramingos, chamados, sorrisos, esperneios e berros possuídos de Sasá, me pego pensando em que está passando naquela cacholinha miúda. Agora, eu sei o que os bebês querem responder quando dizemos...

“Cadê o nenê?”
Cada vez que recebemos visitas, eu vejo gente brincar com a neném e perguntar a frase acima bem na fuça dela. De tanto que essa menina já se mostrou esperta, passei a acreditar no que ela responde mentalmente a todos: “Diabos, mulher, não consegue me ver aqui? Eu tenho 63 centímetros!”. Meio mal-criada, por sinal, mas só com perguntas de resposta óbvia.

“Onde você vai?”
Desde que começou a fazer tentativas na área do rolamento corporal, Sabrina parece ter ganhado o mundo. Quer sair correndo para todo lado – apesar de conseguir apenas se torcer em círculos feito uma minhoca bêbada. E lá vem o pessoal sacar da frase acima... Ao que ela, eu imagino, responda “Para Paris. E, nesse meu ritmo atual, devo chegar lá em novembro de 2034. Agora deixa de se fazer de bobo e alcança aquele leãozinho pra mim, tio?”.

“Tá com soninho?”
“Não, mamãe. Estou berrando feito um porco no abate porque gosto de atormentar seus ouvidos”. Eu sei que ela se aborrece quando está cansada e o barulho não a deixa relaxar. Pergunto mais por perguntar mesmo – e daí já simulo a resposta azeda. Acho que vou fazer isso até ela completar uns 12 anos, só pra encher a paciência.

“Nossa, que fralda suja!”
Ouvir isso quando você não tem coordenação para usar o papel higiênico sozinho deve ser, no mínimo, um insulto. Não basta estar... er... atolada em caquinha, e ainda precisa escutar comentários bobocas sobre a situação? Se ela pudesse me dizer algo, certamente seria “Fala mais alto, mamãe, o pessoal da rua de baixo ainda não sabe que eu fiz nas calças...”.

“Você gosta da mamy?”
Quem não questiona os filhos sobre o amor deles, tem sangue frio. Eu pergunto, sempre que temos um tempinho, se Sabrina adora a sua velha mãe. Ela apenas sorri – provavelmente imaginando “Você recheia minha barriga, é claro que eu te amo, mãezinha! Mas quando crescer, vou amar o Ronald McDonald também, pode?”.

“Onde você escondeu a chupeta?”
Quando os pestinhas ficam a sós, reinando no edredom, acontece toda sorte de esquisitice. Os brinquedos parecem rasgados por dentadas, a fralda de boca vai parar debaixo do sofá. A chupeta, aliás, já foi encontrada há metros de distância e até debaixo do próprio bebê. Então me resta questionar a dona do negócio. E ela deve pensar “Nem te conto, estou conseguindo arremessá-la cada vez mais longe! Acho que serei malabarista quando crescer”.

“Dorme um pouco, vai, Sabrina...”
Entre as 18h00 e as 19h30, é o horário de ranhetação máxima para a menininha aqui residente. Estafada depois de um dia todo de aventuras e bate-papos, ela finalmente se irrita com tudo. Os brinquedinhos não têm mais graça, o colo ganha espinhos imaginários, nada fica bom. Então o cansaço chega também para mim, e peço para a filhota dar um tempo e ir se aninhar. Quando ela me encara com aqueles olhões e diz “nhããã!”, sei o que significa: “Me dá banho, põe aquela roupa do ursinho, dá o líquido branco gostoso e me nana meio minuto que eu juro entregar os pontos por 10 horas seguidas”. Esses bebês sabem o que querem. E até tentam nos dizer.

IMG_2994.JPG
Ei! Quem são vocês?
Estão olhando o quê??

Fla Wonka às 10:13 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
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