|
||||||||||
|
||||||||||
Anel, só se for de papel Segundo o estereótipo do sexo feminino, mulheres costumam ter ataques quando passam em frente a uma joalheria. Algo meio Audrey Hepburn babando na vitrine da Tiffany’s de Nova York e dizendo que ali dentro nada de ruim pode acontecer, pois ela estaria cercada por ouro e diamantes. Moças param para olhar aquele mundaréu de anéis, pulseiras e brincos com preços que mais parecem códigos (de tanto número que tem) – algumas, mais audaciosas ou mais ricas, entram e experimentam todos os brilhos, emocionadas. Engraçado que eu não cultivo essa fissura. Pelo menos, com joalherias. Não apenas porque eu não tenho dinheiro para adquirir peça alguma, mas principalmente porque eu prefiro fuçar no atacadão de bijuteria da 25 de Março, que é mais barato, mais descartável e bem mais divertido. Porém, entendo as mulheres que passam mal em lojas de jóias: pois eu também passo mal. Mas em papelarias! Assim como os olhos das dondocas cobiçam uma pulseira de ouro branco incrustada de ametistas, os meus olhos cobiçam a última novidade em caneta esferográfica. Enquanto elas salivam por um diamante, eu salivo pela variedade de cores de cartolina. Do mesmo modo que o coração delas bate mais forte por um colar que não podem usar na rua, o meu coração bate por um caderno de anotações que eu posso sacar da bolsa quando bem entender. E tem sido assim desde que eu me conheço por gente. Talvez tudo tenha começado com as saudosas listas de material escolar que mamãe recebia a cada começo de ano. Pelo menos quando a gente está nas fases estudantis mais básicas, aquele papel era mais apetitoso do que um catálogo da H. Stern. Tudo bem: significava que as férias estavam acabando e isso nunca é agradável. Mas quem ligava para o lado negativo se o lado positivo era passar na grande papelaria e voltar com sacolas e mais sacolas dos mais coloridos e cheirosos materiais artísticos? Guardo em um cantinho especial da memória aqueles minutos preciosos quando, uma vez em casa, abria tudo e espalhava no chão. Eram aquarelas (daquelas que vinham em paletas de papelão e com um pincel de plástico), massinhas de modelar, tintura a dedo, guache, papel crepom, papel espelho, papel laminado, folhas de almaço, folhas de papel cartão, borracha nova (sempre gostei das brancas com capinha verde), canetinhas, giz de cera e, claro, as amadas caixas de lápis de cor. Parecia que eu tinha encontrado o pote de ouro no final do arco-íris. Quando recebi a minha primeira mesada – já não me lembro do valor ou da moeda vigente na época –, fui correndo para a papelaria. Para minha delícia e desespero, havia uma na rua de casa. Pior: a moça ainda botava a compra “na pendura”. E eis que aos 10 anos de idade eu acumulei dívidas de papel de carta. Sem falar nas borrachas cheirosas com formatos diversos, de estrelas a hambúrgueres. Assim, todo dinheiro que sobrava do lanche na cantina, já tinha destino certo. Hoje, moça crescida que sou, ainda consigo vibrar quando a impressora acusa falta de papel. É a deixa para visitar o templo intitulado Kalunga, uma papelaria em formato de supermercado que possui de um tudo, e em grande quantidade. Toda vez eu me pego pensando se realmente preciso de uma embalagem com 20 bastões de cola Prit. Ou de um conjunto de canetas marca-texto. Ou de um pacote de envelopes amarelo canário. Tão bonitos, tão brilhantes como ouro! Talvez eu não precise. Talvez a madame também não precise de outro anel para sua coleção. Contudo, só nós duas sabemos a empolgação de experimentar o objeto de desejo pela primeira vez. E quando ela estiver colocando a jóia no dedo, eu estarei escrevendo meu nome em um papel com um delicioso – e novo! – lápis 6B. Vivi Griswold às 10:17 AM |
![]() |
|||||||||
![]() |
||||||||||