sexta-feira, 10 de junho de 2005

Só tomando uma

Calma. Antes que o caro leitor aí do outro lado me recomende ao AA, explico que não tomo um porre há anos. Tive, claro, minha parcela de histórias com a água que passarinho não bebe – mas nada além de, digamos, experiências adolescentes. Na primeira vez em que entornei mais álcool do que meus míseros 43 quilos suportariam, logo aprendi que uma das conseqüências mais salientes da bebedeira é deixar você... saliente. E sua língua também.

O indispensável Drummond dizia, no Poema de Sete Faces, que “mas essa lua/ mas esse conhaque/ botam a gente comovido como o diabo”. Digo mais: o etanol bota a gente mais aberto que mala velha. E nos faz dizer e fazer uma porção de besteiras – que, embora pequenas, jamais serão esquecidas pelo seu grupo de amigos, que aproveitarão toda e qualquer oportunidade dali em diante para relembrar seus momentos embaraçosos.

Não podemos culpá-los. Não há nada mais chato do que agüentar bêbado quando você está sóbrio. Então, tudo que esse pessoal tem são os causos para contar depois – afinal, eles são os únicos que se lembrarão daquela noite. Claro que essa vantagem dá a eles a chance de exagerar um cadinho na narrativa. Como dizem, c* de bêbado não tem dono. E memória também não.

Eu fui vítima desse “incremento” narrativo. Acontece que fizemos uma viagem, há quase dez anos, para a casa de praia de uma amiga. Aquela coisa adolescente e tal. Tomei umas. Quando bateu o sono – típico do meu procedimento bêbado – fui para o quarto e ia tomar banho. Mas depois de me ver como vim ao mundo, não agüentei e cai na cama. Lógico que tive o cuidado de me enrolar num lençol antes.

Eis que o tal amigo me encontra no quarto e me acorda. Já um pouco melhor, levantei e segui para o chuveiro. A polêmica está entre o momento em que saí da cama e o que fechei-me no banheiro. Diz ele que, nesse ínterim, banquei a Cicciolina e revelei “as meninas” para o público presente – no caso, ele.

Ou que eu subi numa mesinha, deixei cair o lençol e dancei um cha-cha-cha perguntando “te gusta?”. Enfim, a cada oportunidade ele conta uma história diferente. Mas tenho certeza de que, se algo que não devia apareceu, foi num relance totalmente acidental. Ao contrário dele, que foi tomar banho logo depois e apareceu na porta de cueca, deliberada e gratuitamente, perguntando se alguém tinha xampu. Humpf!

Ainda bem que o tal amigo é amigo mesmo. Até hoje. Aliás, através dele conheci outros rapazes muito divertidos – e bem chegados à marvada. Um deles (vamos chamá-lo de Bochecha), numa de suas piores noites, chegou numa garota para se apresentar. Na hora de dizer seu próprio nome, Bochecha encheu o peito e lascou, à la “Bond-James-Bond”:

- Meu nome é Alê. (Pausa dramática). Alê Assunção.

Nunca soubemos de onde ele tirou essa. Até porque o nome dele não é Alê, muito menos Assunção. Nem descobrimos de onde saiu a pérola etílica de outro rapaz da mesma turma. Há não muito tempo, ele também foi tentar a sorte com uma moçoila numa festa. Quando ela perguntou qual era a profissão do conquistador – que é jornalista – ele saiu-se com essa:

- Eu trabalho com uma empilhadeira. Eu empilho caixas.

Dizer que você é médico, advogado ou CEO de uma grande corporação pode impressionar alguns brotinhos. Contar que você luta boxe, narra trailers de cinema ou faz parte de um coro de risadas decerto me interessaria. Mas, se é para mentir, empilhar caixas não me parece uma boa opção. A não ser que você esteja com a cara cheia e tenha um senso de humor peculiar. Era o caso dessas duas criaturas.

Além de proferir umas incongruências, uma das últimas drogas legalizadas também é uma beleza para provocar performances cretinas. Uma grande amiga, que hoje nem sequer molha o bico, foi a estrela de pequenos espetáculos inesquecíveis. Ela tem paúra de cachorro, mas beijou um na boca. Pediu uma cerveja grátis para um tiozinho desconhecido num bar. Salpicou a boca com fondue de chocolate para exemplificar que um outro convidado da festa estava com herpes.

E, por fim, pegou uma flor de papel crepom, botou o artigo na boca e saiu cantando e dançando pela casa cheia de amigos. Mas não qualquer música: o tema de seu número foi aquele jingle comercial meio cigano, ao melhor estilo Gipsy Kings, que repetia “djobe, djobe, lere lere lê”. Se não me falha a memória, era de uma propaganda... de uísque.

Clara McFly às 10:26 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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