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Fachada renovada, riso garantido Ah, a beleza... Bem afortunados os que nascem com ela, ostentando cabelos sedosos, rosto esculpido a cinzel, pele de neném e “tudo no lugar”, como diria a vizinha Mirtes. Já outros precisam conseguir essas coisas na base da funilaria e pintura mesmo, apelando para cremes, químicas, tintas, escova, alicate, chave-inglesa, serrote e o que mais for necessário. Esse segundo grupo costuma ter um ponto de encontro. Chama-se salão de beleza. O lugar mais divertido, inusitado e malucão que existe. Por menos que goste, sou obrigada a fazer parte desse clube surreal de vez em quando. Não existe outro local onde aparar o cabelo, por exemplo (fazer isso em casa não é uma opção desde que tentei sozinha e fiquei com a franja do Palhaço Arrelia). Só ali, também, é possível fazer penteado e maquiagem para uma festa. Ou encarar a depilação. Ou, em caso de desespero máximo, me lançar na manicure. Detesto gente me futucando com pinças como a um camundongo de laboratório, mas fazer o quê? O jeito é ir ao abate. Curioso é que reluto em marcar hora, mas uma vez no recinto, tudo parece horrivelmente engraçado. Onde mais eu posso ler revistas de fofoca de meses atrás – sabendo, assim, que algum mané da alta roda “casou a filha” e que o bebê da Angélica com o Huck, graças aos céus, não puxou o nariz do pai? Bom é chegar 15 minutos antes do compromisso agendado e ficar ali, folheando aquelas páginas gastas, equilibrando a capa semi-destroçada, e me informando sobre a nova namorada do cantor Daniel. Eu não dou a mínima para quem rala-e-rola com o sertanejo – só de pensar, deusmelivre, já tenho engulhos –, mas é sempre bom ter assunto para conversar, mais tarde, com a atendente. Em uma maca de depilação ou poltrona de fazer mãos, restam poucos assuntos a discutir. Depois de comentar sobre a chuva/sol que não pára mais, sobram as fofocas. E toca ouvir aquele monte de mulher desocupada palpitar sobre o romance mal-sucedido da modelo ou a última manobra feita pela mocinha da novela. Já ouvi cada coisa... Certa feita, curiosa como só, estava escutando o papo de duas clientes. A frase pescada: “... e aquela cara-de-pau casou com o homem por dinheiro, depois deu fim no coitado e ainda maltratou a filha dele pelo resto da vida! Lambisgóia! Se morasse no meu bairro, já tinha levado uns tabefes”. Pasmei. Quem seria aquela figura hedionda?? Não demorou a descobrir que o nome dela era Nazaré. E que ela não era de verdade, mas a salafrária fictícia da novela das oito. Podia ter ficado brava pela confusão, mas saber que alguém ainda usa as palavras “lambisgóia” e “tabefe” me anima. Entre uma cutícula extirpada e outra, a vida alheia é dissecada nos salão de beleza. Há que se ter uma certa paciência e ativar o escudo anti-bobagem às vezes, porque a dose de maluquices ouvidas ali é grande. Já escutei, por exemplo, uma senhora dizer que precisava sair logo porque o filho ia chegar da Europa. Perguntada pela mocinha se ele foi a passeio, ela responder que não, “ele foi só buscar umas encomenda (sic) em Miami”. Hein? Apertar os lábios e pressionar a língua contra o céu da boca ajuda a conter o riso, sabiam? Eu uso muito nos salões. Por que, me desculpem, mas é quase impossível não cair do banquinho gargalhando ao ouvir coisas como “a minha sobrinha tá em estado de goma, acredita, Solange?”. E a Solange, pobre profissional dos esmaltes que trabalha o dia todo arrancando bifes e estuda administração à noite, apenas balança a cabeça – possivelmente fingindo escutar enquanto matuta sobre os exames finais. E ignorando que “goma”, no caso”, devia ser “coma”. Só sendo rápida de ouvido e de reflexos para trocar a mão da cumbuquinha cheia d’água e, ao mesmo tempo, participar do conversê ao redor. Minha habilidade não chega a tanto. Costumo derrubar o recipiente nojentamente cheio de aparas de mim no colo ou no chão. A cara feia da manicure passa rápido, assim que elogio a cor roxo-beliscão que ela escolheu para as próprias unhas. Sim, porque as moças de salão se tornam verdadeiras especialistas em pesquisa de produto. Além de envergar o esmalte laranja da moda nas unhas de 20 cm, elas apóiam a utilização de qualquer coisa no cabelo. Juram de pés juntos que sua peruca ficará “ma-ra-vi-lho-sa” com a nova tintura X. Iniciada a aplicação, você pensa por que diabos deixou colocarem a química com cheiro de raticida no seu couro. Aparentemente, só eu tenho receio de mandar ver nos aditivos capilares. Na última vez em que penetrei no salão, existia uma verdadeira nuvem pairando. Era como se o fog de Londres ou o acidente de Chernobyl tivessem chegado até aquele modesto estabelecimento. Só o meu nariz entupiu? Só os meus olhos ardiam? Não, mas a mulherada é forte nesses momentos. Agora, eu soube, usam até formol! Isso mesmo, aquela substância empregada na conservação de corpos e tomada de golinho, toda manhã, pela Dercy Gonçalves! É forte, é fedido, é perigoso. Mas para manter as madeixas alinhadas, parece, vale tudo. Até embalsamar o cabelo. Só para ficar com a cara da modelo impressa no pôster enooooorme que cobre a parede do salão? Diabos, elas parecem sempre a mesma pessoa, seja no Oiapoque ou no Chuí! E ainda mostram penteados estranhos aparentemente feitos com um caco de vidro ou a faca de geléia. Vai ver os litros de química fazem o ar dos salões de beleza ficarem irrespiráveis mas, ao mesmo tempo, hilários. Inalar aquilo muito tempo nos faz dizer um monte de sandices, escolher cores bizarras para mãos e cabeça e apaixonar por notícias sem valor. Ah, claro... e querer voltar sempre para se embelezar e divertir.
Minina, nem ti conto como vai ficar lindo esse penteado! Fla Wonka às 10:54 AM |
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