terça-feira, 7 de junho de 2005

E viveram... a vida de casado

Quando eu era pequena, devorava livros que nem mariolas. Na verdade, mais do que mariolas. É que eu nunca fui muito chegada a esses doces tradicionais. Dentre os que marcaram território neste coraçãozinho vão e pueril estão quase todos da Ana Maria Machado; “A Bolsa Amarela”, da Lygia Bojunga Nunes, e “O Fantástico Mistério de Feiurinha”, do Pedro Bandeira. No livro, ele relatava a visita de um lacaio que procurava uma princesa de contos de fada desaparecida. No caso, a tal da Feiurinha, coitada.

Na verdade, de feia a princesinha não tinha nada. É que ela foi criada por três bruxas muito das horrendas, que invertiam as coisas e diziam para a menina que ela é que era um monstrengo. Mas o ponto aqui é outro: Feiurinha desaparecera do mapa dos contos porque ninguém havia escrito sua história.

O grande barato da brochura era, entre outras coisas, retratar as diáfanas princesas em sua vida de casada. Elas tinham um punhado de filhos e faziam parte da grande família Encantado, já que todas haviam se casado com o senhor Príncipe... Encantado. Ou você acha que os roteiristas de “Shrek 2” foram os primeiros a sacar isso?

Pois hoje acordei meio tonta, pensando em Feiurinha e na importância de registrar nossas histórias, mas principalmente imaginando como está a vida de casada das princesas. Será que Cinderela acertou a mão no ovo frito? E Bela Adormecida, paga as contas em dia? Rapunzel ainda mantém aquele cabelão? Branca de Neve espera pelo seu príncipe chegar do trabalho na porta, com o avental sujo? Irc. Vai ver o casamento das heroínas não tenha saído lá essas coisas. Acho que por isso nenhum autor ou tradição se debruçou sobre a vida marital das princesas.

Uma pena, porque casar pode ser muito, muito divertido. Só não deve ter sido para essas pobres almas abnegadas, que trocaram uma vida de aventuras sensacionais – como viver com sete anões mineiros, nadar livre pelos mares ou trançar madeixas quilométricas – pelo “sim” diante do juiz de paz ou de um padre. Isso se elas se casaram oficialmente, visto que nem o enlace é narrado nos contos. Talvez elas tenham apenas juntado os trapinhos. Quem sabe?

Ninguém. Então, como sempre, que tal preencher os espaços vagos da curiosidade com um pouco de imaginação? Eu aposto que...

Cinderela, acostumada ao serviço doméstico, preferiu dispensar os empregados do castelo Encantado, para onde se mudou com seu príncipe logo depois que o último convidado comeu o último croquete da festa. Duas semanas depois, percebeu que lavar, arrumar, limpar, cozinhar e passar para o senhor Encantado (“que bem poderia se chamar senhor Folgado”, repetia ela entre cuecas largadas na sala e pratos deixados na mesa) era bem mais difícil do que trabalhar para a Madrasta e suas enjoadas filhas. Fez as malas e ameaçou se mandar caso o marido não contratasse uma empresa terceirizada. Foi o que ele fez. Agora, ela apenas estala os dedos para que o mordomo lhe traga uma taça de Perrier fresquinha e prepare seus sais de banho. Mas a comida Cinder faz questão de preparar: Encantado adora seu bolo de carne com abobrinha.

Bela Adormecida passou a lua de mel em Embu das Artes, onde aproveitou para superar seu pavor por rocas. Comprou uma porção de badulaques com o dinheiro arrecadado pelo corte da gravata do noivo. Ao chegar ao castelo onde fariam residência, descobriu que o espaço era pouco para tanta coisa. Decidiu encarar uma reforma, apesar dos conselhos contrários da sogra: “dá trabalho, boba! Aproveita o clima de recém-casados, depois eu convenço o pai do Encantado a comprar alguma coisa maior para vocês. Quem sabe no Morumbi”. Quando as seis semanas prometidas pelo empreiteiro viraram dois anos e meio, não agüentou mais o pó e se mudou para a casa da sogra. Sua casa ficou pronta três meses depois, mas as crianças sofrem de rinite até hoje. Em julho, é um horror: ela não sai da fila do posto de saúde para fazer inalações.

Rapunzel tinha prometido secretamente a Santo Antônio que, se não terminasse seus dias encalhada – o que parecia bem provável de acontecer, visto que ela vivia isolada numa torre – cortaria o cabelão. Quando se viram sozinhos na suíte nupcial, a jovem “senhoura” entregou uma tesoura ao príncipe. Ele ficou branco feito cera e achou que sua doce esposa tinha estranhas preferências sexuais. Mas ela o tranqüilizou ao explicar tudo e pedir que ele lhe cortasse as madeixas – nada muito drástico, podia ser um fio reto básico mesmo. Na primeira mecha, ela notou o incrível talento do marido com as tesouras. O cabelo dela ganhou muito mais vida e movimento. Resolveram abrir um salão. Hoje, os dois atendem à mais seleta clientela dos Reinos no Encantado’s Coiffure & Beauté – ela faz mão e pé sem tirar um bife, ele arrasa nos penteados.

Ariel, a Pequena Sereia, passou nove meses planejando o casamento. Cuidou de tudo pessoalmente e escolheu a dedo cada música que deveria tocar na festa. “Are you Gonna Be My Girl”, do Jet, era a primeira. O Príncipe achou muito bom, já que ele não gostava muito dessas coisas envolvendo marzipan, tafetá ou flores, mas adorava um roque enrol. Tudo correu às mil maravilhas e, depois da tradicional execução de “Whisky a Go Go”, do Roupa Nova, Ariel achou que era hora de ir para casa. Ali, o Príncipe quis fazer bonito e pegou a sereia no colo para passar pela porta, mas acabou descamando parte do rabo da mocinha ao raspá-lo no batente. Foi um acidente infeliz, mas Ariel ainda dá boas risadas ao lembrar da história. Ainda mais quando participa das tardes de beleza, junto às colegas aqui citadas, promovidas no salão de Rapunzel.

Branca de Neve sofreu para enturmar o príncipe com seu grupo de amigos – formado, basicamente, pelos sete anões. Era difícil lidar com o ciúme que Encantado tinha dos rapazes. Mas não podemos culpar o Príncipe. Ninguém gostaria de chegar em casa com a esposa na hora do tradicional “enfim, sós” e topar com sete criaturinhas no sofá assistindo à Sala Especial e acabando com seu precioso estoque de Erdinger. Depois desse mau começo, Branca conseguiu unir os oito homens de sua vida na paixão pelo futebol: ao descobrir que todos torciam pelo Curíntia, comprou nove ingressos para uma partida contra o América de Rio Preto (“porque ir aos clássicos está muito perigoso”, dizia) e fez a alegria dos torcedores ao puxar o corinho de “Timão, eô”. Em casa, sorriu ao ver o marido perguntando se os anões viriam para o churrasco da semana seguinte – aliás, marcado para reunir todas as suas colegas que apareceram neste texto e seus respectivos Encantados.

Quem sabe?

Clara McFly às 09:55 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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