Tudo o que acontece pela primeira vez é inesquecível. Tudo bem, nem tanto assim... Eu já detelei há tempos da memória coisas como o meu primeiro Miojo ou a estréia no quesito andar de ônibus. Mas outras ficaram guardadas em um cantinho especial da cabeça. São coisas que jamais deixaram a mente – mesmo sendo ainda muito jovem para entender a dimensão do caso. Se a primeira vez a gente nunca esquece, eu sempre contabilizarei um monte de lembranças.
Acredito piamente: nossas memórias mais recônditas formam aquilo que chamamos personalidade. Lembrar o dia em que me mandaram para a pré-escola sem o shorts, por exemplo, só me fez passar a vida sendo muito envergonhada. Nunca esqueci esse lapso da família e acho que nunca vou esquecer. Porque a cachola é capaz de nos pregar peças e sedimentar, para a eternidade, alguns acontecimentos.
Paciência, o jeito é conviver com isso e tentar extrair o máximo de aprendizado. Eu me lembro sempre das coisas que seguem abaixo. Não sei bem por quê. Devem ter sido marcantes o suficiente para virar ensinamentos. É assim que funciona a memória humana, não? Registramos certos momentos para, desse modo, aprender sempre com eles. Estão aí meus arquivos eternos.
A primeira vez que vi meu pai chorar
Ele deve ter ficado triste muitas vezes na vida, mas eu nunca cheguei a notar. Então, há dez anos, nosso cachorro morreu. Era um cão bem histérico, mas divertido e esperto. Ainda acho que ele adoeceu e faleceu em tão poucos dias porque soube que o pessoal do prédio novo não o queria ali... Companheiro-grude do papai, ele deixou saudade e muitas lágrimas nos olhos do velhinho. Aprendi, naquele dia, que até gente forte tem fraquezas.
A primeira vez que vi um cara bater em uma moça
Foi quando trabalhava no centro de São Paulo. Vinha apressada pela rua, pensando nos afazeres, quando ouvi berros vindos de um cortiço. Parei. Olhei. E vi o sujeito dar uns tapas na garota e jogá-la escada abaixo. Meu coração disparou tanto que quase saiu pela goela. Aprendi, naquele dia, que homem nenhum jamais ia relar a mão em mim com violência – e que cortiços nem sempre são locais de gente divertida, como na novela.
A primeira vez que vi serpentes
Visita ao zoológico era meu passeio predileto lá pelos seis anos. Até o dia em que alguém resolveu levar meu bando até a Casa dos Répteis. Entrei no recinto escuro sem entender bem o que seriam “ré... ré-o-quê mesmo?”. Bom, logo descobri que era cobras visguentas se entortando por galhos secos. Bem ali, há 20 cm do meu nariz. O sangue sumiu do rosto, mas me agüentei sobre as pernas até à saída. Aprendi, naquele dia, o que são répteis. E que não sou chegada neles.
A primeira vez que vi minha filha
Quatro meses atrás, estava eu deitada de camisolão sobre uma maca desconfortável. Aconteceu em um clique: levei uma picadinha nas costas, deixei de sentir as pernas, comentei com o anestesista sobre como meu time é ótimo e, em meia hora, colocaram perto do meu ombro uma menininha ainda cinza, de olhos grandes, boquinha de coração. Ela nem chorava, só se aninhava. Aprendi, naquele exato momento, que estava lascada para toda a vida. Era o tal amor infinito.
A primeira vez que vi uma matéria minha publicada
Ao prestar vestibular, escolhi ser advogada. Ou arquiteta. Ou engenheira. Ou jornalista. O que desse positivo, era nessa que eu iria. Pois o jornalismo me escolheu. Mas, meses depois, ainda não sabia se gostava dele. Fui ao jornal da faculdade e pedi para estagiar, fazer reportagens, saber se eu dava para a coisa. Quando vi a manchete sobre a nova adutora local (e meu nome abaixo, em letrinhas miúdas), aprendi que minha profissão estava decidida para sempre.
A primeira vez que vi jogo no estádio
Sábado ameno, dia 9 de setembro de 1984. Sem medo de torcidas ensandecidas ou meliantes uniformizados, papai resolveu me levar para ver o Tricolor Paulista pela primeira vez. Seria um embate contra o Palmeiras. Morumbi lotado, os porcos nos venceram por 2 a 1. Fui chamada de “pé frio”. Magoei profundamente. Tanto que passei o domingo emburrada. Não é que, na segunda-feira, divulgaram o doping de um jogador verdinho? Vibrei. O São Paulo levou os pontos e eu aprendi a nunca mais ligar para quem me considerar um amuleto de mau-agouro.
A primeira vez que vi o cinema
Eu era pequena demais. Não sei por que me mantiveram naquela fila enorme por duas horas. Nem o cheiro da pipoca com provolone pôde manter o ânimo. Finalmente a porta se abriu e fomos nos aboletar nas poltronas. Eu fiquei no colo da mamãe, para dar lugar a alguém que sentava no corredor (naquele tempo, overbooking de cinema era comum). Perdi o começo por causa do sono, mas quando o Superman apareceu voando, tudo fez sentido. Aprendi, na cadeira do Cine Vitória, que a sétima arte seria a maior paixão desta garota.
A primeira vez que vi meu nome em um livro
Clarissa e Viviana chegavam aqui em casa para a indefectível reunião semanal. Traziam, porém, um brilho diferente nos olhos... Mãozinhas escondidas para trás, notei Vivi disfarçando. Era o filhote, nosso livro, o projeto que consumiu quase um ano de suor, lágrimas e tendões. Quando vi os nomes das autoras, deu um branco. “Eu? Escrevi tudo isso? Sério? Ah, vá, vá...”. Pois era verdade. O pior foi não ter parado de emocionar ali. No último sábado veio uma tarde de autógrafos plena, divertida, surreal. Acho que nenhum escritor jamais sentiu tanta felicidade. Ou vai ver que sim, na primeira vez. Porque a primeira, a gente nunca, nunca esquece.
Foto do meu primeiro bebezinho literário