sábado, 4 de junho de 2005

Presente para mim

Toda vez que alguém me dá um embrulho com laço de fita eu já começo a entrar em pânico. E se eu não gostar? E se não servir? E se eu tiver de fazer cara de paisagem e disfarçar? Os minutos que se sucedem – é que não gosto de rasgar papel, embora a crendice popular pregue que isso traz sorte – são decisivos, e a expectativa estampada no rosto da pessoa à minha frente só piora a minha ansiedade. Sim, eu amo distribuir presentes, mas recebê-los me coloca em alerta.

Como muitos de vocês sabem (santo Orkut!), quinta-feira passada foi o meu aniversário. Como vem acontecendo em todos os dias 2 de junho, eu escuto sempre a mesma ladainha dos familiares e amigos: “eu nunca sei o que lhe dar...” e “ah, é tão difícil encontrar algo para você!” são frases proferidas ano após ano.

Então, para eu não passar saia-justa e para meus conhecidos não passarem aperto, aí vão algumas diretrizes para facilitar a nossa convivência nas primaveras (ou melhor, outonos) vindouras. Povo, anote aí e pare com o discurso!

Não dê: Agenda
Uma pessoa que, como eu, nunca sabe o dia da semana vigente e até costuma errar o ano quando preenche cheque pode estar precisada de uma agenda, certo? Errado! Isso só demonstra que é possível sobreviver sem a brochura que só tem 365 dias de validade.
Dê: Caderno de anotações. Principalmente aqueles pequeninos e de capa dura, que cabem na bolsa e não se desmancharão dentro dela.

Não dê: Jóias
Dizem que diamantes são os melhores amigos da garota – mas não desta aqui! Acho um desperdício gastar dinheiro com brincos, anéis e pulseiras caros que, desculpe, eu nunca vou usar. E o risco de ser assaltada? Jamais me compre penduricalhos na cor dourada.
Dê: Bijuterias coloridas. Pulseiras de plástico, colares que lembrem balinhas e anéis que parecem ter vindo de brinde em doce de mocotó.

Não dê: Bibelôs
Não é que eu não goste de bibelôs (uma caixinha, uma garrafinha, uma estatueta). Mas é que minha pequenina casa já está atulhada deles e não há espaço para outros. Por mais que eu tenha adorado o presente, vou ser obrigada a me desfazer dele – ou de outra coisa para ele caber.
Dê: Vaso de flores. Sempre há espaço para flores, certo? E sempre há um teco de terra na varanda esperando receber uma planta nova.

Não dê: Bombons chiques
Eu até gosto de chocolate, mas não sou tarada por aqueles pedacinhos marrons e enjoativos não. Além disso, meu paladar é pouquíssimo apurado para a iguaria: então, se me derem um bombom belga e um guarda-chuvinha de chocolate, é capaz que eu goste mais do segundo.
Dê: Um punhado de bala-chiclete. Isso sim é uma perdição para mim, mesmo com a proibição sumária de minha ortodontista. Shhhhhh!

Não dê: Vale-esteticista
São cupons que a pessoa compra valendo um valor X para o aniversariante gastar como bem entender dentro do salão. Mas como eu sou totalmente “do-it-yourself” nesse quesito – e só apareço no cabeleireiro para aparar as madeixas de vez em quando – não é uma boa idéia.
Dê: Esmaltes de cores malucas para eu brincar de manicure e maquiagem cheia de brilho (mas sem batom!) para eu brincar na frente do espelho.

Não dê: Copos finos de cristal
Se eu já sou desastrada normalmente, imagine com as mãos molhadas e ensaboadas! Por esse motivo, dificilmente copos de cristal sobreviveriam muito tempo aqui em casa. Então poupe seu dinheiro para comprar sorvete extra e me arrume algo menos delicadinho, ok?
Dê: Xícaras grandes, resistentes e baratas onde eu possa tomar sopa, comer bolo e mastigar cereais na frente da tevê. Quebrou, compro outra.

Não dê: Telegramas animados
Pelo amor dos meus filhinhos que ainda não tive e não sei se virei a ter: telegrama animado, só se você quiser cortar relações comigo. Daí é tiro-e-queda. Do contrário, me mantenha longe de serenatas, carros de som, faixas na rua, mensagens animadinhas e outras coisitas estranhas.
Dê: Um bilhetinho escrito com caneta Bic em uma folha arrancada do caderno com as melhores das intenções – e sem a rua inteira saber que é meu aniversário.

Não dê: Livros-cabeça
Sou tão chatinha para literatura quanto sou para música, e confesso que, nesse quesito, é realmente difícil dar uma bola dento. Então, para não correr riscos, mantenham-se longe de qualquer obra de filosofia, sociologia, política. Ficção, prefira brochuras de contos.
Dê: Guias de viagem. Se você quiser acertar em cheio sempre, opte por volumes turísticos. Gosto tanto que eles podem ser até sobre Carapicuíba.

Não dê: Arte
Também um quesito perigoso, uma vez que gostar ou não de uma peça de arte é algo estritamente pessoal. E é outro caso em que o espaço conta muito: não há mais um centímetro quadrado de minhas paredes que esteja sobrando para pendurar algo novo.
Dê: Massinha de modelar, giz de cera e pintura a dedo. Deixe eu mesma fazer a minha própria arte. E mais: se ficar feia ou sem espaço, vai pro lixo sem remorsos!


* * * * * *


Quer dar um presentão para mim?

Então compareça! É daqui a pouco...

convite_impossivelroda.jpg


Quando: 4 de junho, sábado
A que horas: das 14h às 18h
Local: Livraria Cultura - Loja de Artes
Onde: Av. Paulista, 2073 (Conjunto Nacional)



Vivi Griswold às 10:06 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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