sexta-feira, 3 de junho de 2005

Tinha que ser mulher

Outro dia fui deixar um amigo em casa depois da nossa caminhada noturna. Ele mora nessas típicas vizinhanças de subúrbio onde crianças tomam a rua para jogar bola até altas horas da noite, demarcando os golzinhos do sagrado futebol com tijolos baianão, pedregulhos, chinelas de tiras estouradas – o que estiver mais à mão. Pois mais adiante da casa do meu amigo estava um animado grupo de ludopédio de asfalto, disputado por infantes de não mais que dez anos.

Quando fui passar com o carro, eles mal e mal se afastaram. Ostentavam aquele ar de dono da rua típico das crianças urbanas, que só têm mesmo a via pública para brincar. Ao mesmo tempo, outro veículo encostou diante de uma casa. Tive que desviar com cuidado e atenção, para evitar que o pobre El Comandante tivesse suas partes baixas atingidas pelos tijolos largados à guisa de traves ou que eu desse manchete do tipo “motorista ensandecida atropela criancinhas brincando na rua”.

Quando havia cumprido a tortuosa manobra, eis que ouço um petiz ao longe: “tinha que ser mulher mesmo!”. Parei o carro. Ia dar ré, descer, largar a chave na mão do moleque e dizer em alto e bom som, no meio da ruidosa turma e das comadres que papeavam no portão: “tira o carro daqui. Vai, tira!”. Quando ele negasse, saísse correndo ou tentasse me chutar, diria: “você só diga isso de novo se um dia souber dirigir melhor que eu”.

Mas, infelizmente, não sei dar ré. Claro que não exatamente por ser mulher – a Flávia, por exemplo, é um verdadeiro ás do volante. E partilha do mesmo sexo que eu. Por outro lado, conheço gente que não consegue estacionar nem a 45o. E que joga no time dos rapazes. Mas, ao fim, o fato de eu não conseguir levar o carro de ré por dez metros sem entortar toda a trajetória acabou reforçando o preconceito do garoto.

Preconceito, aliás, é o que não falta sobre o universo feminino. Dizem que as meninas não sabem dirigir. Que choram por qualquer coisa. Que não podem ver um par de sapatos sem surtar. Que são traiçoeiras e fofoqueiras. Como toda leva de generalizações, há uma porção de verdades (óbvio que não motivadas pura e simplesmente pelo sexo com o qual você nasceu) e outra de puras besteiras, tudo misturado no mesmo saco.

Depois de anos me negando a usar cor-de-rosa ou pintar as unhas na tentativa de ser levada mais a sério, percebi que agir forçosamente ao contrário dos estereótipos era, no fundo, concordar com os preconceitos. Ultimamente tenho assumido certas “coisinhas de menina” sem medo de ser feliz ou de me sentir frágil, fútil ou idiota por isso. E hoje empresto um verso de Chico Buarque para dizer que, “se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que”...

Não sabem mesmo estacionar
Às vezes, deixo o possante quadras e quadras distantes do meu destino, por não encontrar uma vaga que se encaixe não só ao tamanho do carro, mas especialmente às minhas (parcas) habilidades de baliza. Claro que, toda vez que sou obrigada a manobrar, o espaço é ao lado de um ponto de táxi ou de um boteco. E claro que eu noto os olhares mistos de compaixão e sarro dos taxistas e botequeiros, a acompanhar minha epopéia com o canto dos olhos.

Adoram fazer compras
Estou longe de ser uma fashion victim ou uma compradora compulsiva de roupas. Na verdade, gosto de fazer todo tipo de compras, de supermercado a objetos para a casa. E quando nada parece dar certo – seu despertador pifou, sua torrada queimou, seu carro quebrou e aquele texto prometido para ontem não sai de jeito nenhum – nada como largar um pouco a vida e se distrair numa grande loja de departamentos. Uma blusinha pode salvar o seu dia.

Tomam bebidinhas “de mulher”
Juro que eu adoraria gostar de cerveja. Parece tão borbulhante, cremosa e cintilante nos comerciais! Mas não tem jeito. Toda vez que dou uma bicadinha, faço careta. E o gosto leva dias para sair da minha boca. Uma pena – até porque, além de tudo, é uma bebida barata. Vai ver o preço das batidas, taças de vinhos e smirnoffs-ice nos bares por aí? Como se não bastasse, custa caro ser mulher. Baita injustiça, já que costumamos ganhar menos pelos mesmos trabalhos...

Sustentam a indústria de comédias românticas
Basta ter um casal a se desencontrar o filme todo, com alguns toques de comédia (pode ser o protagonista se esborrachando no chão ou a mocinha pagando um mico), e um longo, apaixonado, suspirante beijo final: pronto, já pago para ver. E ainda bato palmas na hora do ósculo. Baixinho, para não passar vergonha. Aliás, fico emocionada com qualquer beijo na tela. Exceto aquele da Liza Minelli e do David Gest quando do estranho matrimônio da dupla.

Adoram jogar conversa fora
Ao me pilhar com tempo de sobra e na companhia de um interlocutor disponível, pimba! Um dos meus passatempos prediletos é mesmo conversar. De preferência, o papo deve ser regado a uma bebidinha (chá, café ou outras descritas dois itens acima). Os temas são os mais variados: nossa vida, a vida alheia, teorias bizarras sobre o universo, a sociedade, os móveis da Tok & Stok, o último episódio de “Desperate Housewives”. Há quem chame de fofoca. Eu chamo de diversão.

E, como dizia Cyndi, as garotas só querem se divertir.

* * * * * *


Corra! É só amanhã!

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Quando: 4 de junho, sábado
A que horas: das 14h às 18h
Local: Livraria Cultura - Loja de Artes
Onde: Av. Paulista, 2073 (Conjunto Nacional)




Clara McFly às 10:20 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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· Flá Wonka
· Vivi Griswold