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Tinha que ser mulher Outro dia fui deixar um amigo em casa depois da nossa caminhada noturna. Ele mora nessas típicas vizinhanças de subúrbio onde crianças tomam a rua para jogar bola até altas horas da noite, demarcando os golzinhos do sagrado futebol com tijolos baianão, pedregulhos, chinelas de tiras estouradas – o que estiver mais à mão. Pois mais adiante da casa do meu amigo estava um animado grupo de ludopédio de asfalto, disputado por infantes de não mais que dez anos. Quando fui passar com o carro, eles mal e mal se afastaram. Ostentavam aquele ar de dono da rua típico das crianças urbanas, que só têm mesmo a via pública para brincar. Ao mesmo tempo, outro veículo encostou diante de uma casa. Tive que desviar com cuidado e atenção, para evitar que o pobre El Comandante tivesse suas partes baixas atingidas pelos tijolos largados à guisa de traves ou que eu desse manchete do tipo “motorista ensandecida atropela criancinhas brincando na rua”. Quando havia cumprido a tortuosa manobra, eis que ouço um petiz ao longe: “tinha que ser mulher mesmo!”. Parei o carro. Ia dar ré, descer, largar a chave na mão do moleque e dizer em alto e bom som, no meio da ruidosa turma e das comadres que papeavam no portão: “tira o carro daqui. Vai, tira!”. Quando ele negasse, saísse correndo ou tentasse me chutar, diria: “você só diga isso de novo se um dia souber dirigir melhor que eu”. Mas, infelizmente, não sei dar ré. Claro que não exatamente por ser mulher – a Flávia, por exemplo, é um verdadeiro ás do volante. E partilha do mesmo sexo que eu. Por outro lado, conheço gente que não consegue estacionar nem a 45o. E que joga no time dos rapazes. Mas, ao fim, o fato de eu não conseguir levar o carro de ré por dez metros sem entortar toda a trajetória acabou reforçando o preconceito do garoto. Preconceito, aliás, é o que não falta sobre o universo feminino. Dizem que as meninas não sabem dirigir. Que choram por qualquer coisa. Que não podem ver um par de sapatos sem surtar. Que são traiçoeiras e fofoqueiras. Como toda leva de generalizações, há uma porção de verdades (óbvio que não motivadas pura e simplesmente pelo sexo com o qual você nasceu) e outra de puras besteiras, tudo misturado no mesmo saco. Depois de anos me negando a usar cor-de-rosa ou pintar as unhas na tentativa de ser levada mais a sério, percebi que agir forçosamente ao contrário dos estereótipos era, no fundo, concordar com os preconceitos. Ultimamente tenho assumido certas “coisinhas de menina” sem medo de ser feliz ou de me sentir frágil, fútil ou idiota por isso. E hoje empresto um verso de Chico Buarque para dizer que, “se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que”... Não sabem mesmo estacionar Adoram fazer compras Tomam bebidinhas “de mulher” Sustentam a indústria de comédias românticas Adoram jogar conversa fora E, como dizia Cyndi, as garotas só querem se divertir.
Clara McFly às 10:20 AM |
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