Minha vó Ondina era uma senhora divertidíssima. Com ela, tudo era legal: fazer suspiros, pular corda, contar piada boba, ouvir Tonico e Tinoco. Mas nada, nada era mais bacana do que ver novela ao lado da vovó. A velhinha se embrenhava tanto na trama que, em poucos minutos, estava mandando a mocinha deixar de ser boba e classificando o vilão como “ó que bandido!”. Até mesmo ela, porém, sabia que os folhetins sempre forçavam a barra. E, nessa cena, lá vinha Dona Ondina balançar a cabeça, fazer um ar de desdém e dizer “só em novela mesmo...”.
Ela também emendava jurando que nunca mais ia “seguir” qualquer desses programas. Pura mentira, óbvio, visto que meses depois a senhorinha estava novamente aboletada no sofá para assistir à nova trama das seis. De tanto apreciar com ela, acabei foi concordando: novela é mesmo uma balela danada. Podem chamar de retrato da vida real, eu acho mesmo é que só acontecem coisas impossíveis e baseadas num belo clichê.
Não raro, me pego sacudindo a cachola do mesmo modo que minha saudosa vovó e proferindo frases como “até parece” ou “ah, me engana que eu gosto”. E eu gosto mesmo. Mas não deixo de reparar que, nas novelas...
... há sempre o joguinho da campainha
Você já deve ter visto também. A moça se despede de Fulaninho na porta e tranca a dita cuja. Cinco segundos depois, a campainha toca. Então ela vem pela sala dizendo sorridente “oh, deve ser o Fulaninho que esqueceu a chave!”. Claro que não... É o vilão terrível que chegou para apavorar. Incrível é eles acharem mesmo que só pode ser o Fulaninho retornando. E mais curioso ainda é Fulaninho não ter cruzado com o malvado no hall, no corredor, no portão. Ou o bandido sempre fica escondido atrás das plantas decorativas, ou eu não entendo.
... ninguém liga para segredo
Que ódio me dá! A moça está há 40 capítulos mantendo uma mentira cabeluda – dormiu com o irmão do noivo, fingiu ser ricaça quando na realidade limpa calhas ou algo assim. Pois na hora que a pobre finalmente toma tento e diz ao cara “preciso te contar uma coisa”, ele dá de ombros e emenda “depois, querida, agora vamos jogar squash”. Ahhh! Como assim? Se alguém de diz que precisa falar coisa importante, largo qualquer tarefa e ouço. Vai que sou filha de uma princesa da Bavária? Nas novelas, eles não são bons de ouvido.
... só existem escritórios iguais
Pode ser uma agência de publicidade, uma fábrica de aço ou uma indústria produtora de sagu: o cenário é composto por detalhes cromados, vidros fumê e muito, muito carpete verde-musgo. Não há individualidade visual nos escritórios, eles são os mesmos desde os tempos de “Pecado Capital”. Sem falar que ninguém abre firma comum nos folhetins. Os ricaços são donos de coisas estranhas como estaleiros. Numa boa, quantos estaleiros existem no Brasil? Meio?? Na novela “Vale Tudo”, eles se referiam à empresa apenas como “a holding”. Todos iam “à holding”, trabalhavam “na holding”, desfalcavam “a holding”. Que preguiça de escolher um ramo, hein?
... crianças adoram sexo
Nunca vi, na vida real, a molecada gostar tanto de falar sobre o rala-e-rola. Bobeou, lá estão os garotos e garotas da ficção discutindo sobre transar ou não com o namoradinho, comprar ou não camisinha, a desconfiança de gravidez desta semana. Quanto drama, são só uns pivetes de 15 anos, poxa. Do jeito que as novelas pintam, acabam é dando mais idéias sobre isso do que prevenindo o acontecimento. Vai ver é porque os atores que representam os adolescentes têm, na verdade, 35 anos e dois filhos.
... empregadas levam um vidão
No máximo você vai encontrar a moça picando cebolinha na pia ou atendendo ao telefone. Nunca vi uma doméstica de novela batendo tapetes, arrastando móveis ou fazendo aquele barulhão aspirando os cantinhos. Normalmente, elas gastam tempo mesmo é dando palpite na vida do patrão. Por isso mesmo, vai ver, até assalariados humildes contam com uma secretária do lar... Curioso: a mulher é professora do Estado mas mantém lá sua fiel escudeira diariamente. Só eu não consigo verba para isso?
... não se pega muito no batente
Não são apenas as faxineiras que passam a vida novelística na flauta. Aquela gente do escritório-padrão, citada acima, também enrola que é uma beleza. Andam de terno e pasta 007, mas nunca estão realmente trabalhando. Estão sempre passeando na areia da praia ou discutindo a relação no living por longas horas. O chefe não acha ruim? Sério? Seria mais realista se eles ao menos fossem filmados jogando Paciência no computador.
... carros explodem demais
É um jeito célebre de acabar com a vida do vilão ou dar fim em personagens incômodos. Gozado é que qualquer batida ou quedinha em barranco suscita uma mega-ultra-explosão de proporções hollywoodianas. Para atear fogo em um automóvel daquele jeito são necessárias umas 30 condições específicas – mas não na novela. Desceu a ribanceira, é hecatombe certa. Os carros deles devem ter pólvora no tanque e assentos embebidos em gasolina. Ou minha vó tinha razão de novo: é só em novela mesmo.
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E não se esqueça disso!

Quando: 4 de junho, sábado
A que horas: das 14h às 18h
Local: Livraria Cultura - Loja de Artes
Onde: Av. Paulista, 2073 (Conjunto Nacional)