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Efetivação já! Só quem já foi, sabe: é dura a vida de um pobre estagiário – com o perdão desse pleonasmo “pobre estagiário”. Remuneração miúda, trabalho que ninguém mais quis e bronca sem sentido são apenas alguns dos sapos que os abnegados enfrentam. Ruim mesmo é lembrar que, a despeito disso, muitos deles salvam suas empresas diariamente, apesar de serem tratados como material de escritório, um objeto que se compra em papelaria. Apenas o Frodo, o maior estagiário que o cinema mostrou, recebeu algum crédito. E, mesmo assim, levou oito horas de fita e uns 1.500 km de Terra Média percorrida. O costume geral é fazer do trainee um chinelão velho: usa-se muito, não se dá valor ao conforto que ele oferece e, no fim do dia, atira-se o coitado para o canto mais próximo. É difícil aturar esse desdém sabendo da suma importância que os estagiários têm nos tempos de hoje. Por exemplo: se eu fosse o comandante da MTV, aumentava o salário do estagiário. O único período em que a emissora passa clipes de verdade é de manhã muito cedo. Duvido que exista um VJ ocupando este horário. Aquela é mesmo a hora em que somente o moleque contratado para ajudar a produção está acordado e trabalhando. Ou seja, é ele quem garante alguma “music” naquela “television”. Nas rádios é a mesma coisa. Todo mundo sabe: os programas da madrugada são comandados por estudantes que arrumaram um bico na difusora mais próxima de casa. Precisam de uns trocados para comprar o sonhado videogame e vão até lá descolar um empreguinho. Como os profissionais da área não são bobos nem nada, aceitam o garoto com dois tapinhas nas costas e dão a ele um copo de café frio e o horário da meia-noite às 4h00. É nesse momento que conseguimos, finalmente, ouvir boas canções – e não o desgraçado do jabá. Outro estagiário valente e merecedor de crédito é aquele das agências de turismo. Quem vocês acham que vai buscar figurão em aeroporto e fica lá, pagando mico com aquela plaquinha escrito “Mr. Jobilicapoulos”? O dono do estabelecimento é que não é. Nem a gerente. Na cadeia hereditária, sobra para o membro mais frágil o trabalho de esperar sete horas por um avião atrasado e um senhor grego que nunca saiu de seu país. Estagiário de jornal ou revista eu sei bem como é. Se sobrou uma pauta a respeito de buraco de rua, bicho recém-nascido no zoológico ou moradores reclamando do saneamento, é ele quem pega. Repórter novato não escolhe matéria – e nunca fica com o filé, mas sabe como é roer um osso magro. Há que se reconhecer esse sujeito pela eterna pressa, as olheiras e a barra da calça suja de lama. Até as bandas têm estagiários. No meio musical, levam o pomposo nome de roadie. Segundo consta, são eles que montam o equipamento, afinam instrumentos, repassam som. Se fazem tudo isso, podiam muito bem estar no grupo em definitivo, no lugar daquele baixista ou guitarrista estrelinha dos infernos... Mas que nada. Os estagiários de banda são relegados à obscuridade. Tomara que roubem umas baquetas e paletas de vez em quando, só por compensação. Mas talvez o estagiário que mais rala seja o da Polícia Federal. Imagino que ali, na maior parte do tempo, ele não passe de um ajudante de escritório, sempre levando papéis para cima e para baixo e administrando o almoxarifado. Basta aparecer um produto de contravenção, porém, que o cidadão tem seu momento de trabalhar até de madrugada. É ele, certamente, quem organiza a mesa onde se expõem as apreensões. São milhares de saquinhos de cocaína, blocos e blocos de maconha embrulhados em fita adesiva e quilos de munição. E lá vai o miserável estagiário passar a noite arrumando a coisa toda, enfileirando celulares, pentes de metralhadora e facas de rocambole confiscados na última rebelião da penitenciária. Tudo isso porque logo cedo, ao raiar do dia seguinte, os fotógrafos precisarão clicar a mesa arrumadinha, com as inicias “PF” ou “DEIC” escritas com balas de fuzil alinhadas. Ninguém se pergunta quem gastou tanto tempo ali, fazendo aquele bem cuidado cenário policial? Eu sei, foi o estagiário, o ser mais valoroso, competente e barato que há. Quando puder, vou comprar um só pra mim.
Adivinha quem passou a noite montando este belo cenário?
Fla Wonka às 09:59 AM |
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