sexta-feira, 27 de maio de 2005

Ela estava certa

Detesto admitir, mas minha mãe tinha razão. Um ano e oito meses depois de assinar uns papéis na frente do juiz de paz, “contrair matrimônio” (isso é lá jeito que se fale? Parece doença!) e me mandar para debaixo do meu próprio teto, tenho de dar o braço a torcer: uma porção de coisas que ela dizia (e que eu insistia em ignorar solenemente) fazem todo sentido agora.

Não entendia, por exemplo, porque ela ficava irritadíssima com uns tiozinhos que queimavam folhas nos terrenos baldios adjacentes. Pensando bem, tampouco entendia porque esse bando de piromaníacos gostava de atear um fogaréu em vez de simplesmente recolher o lixo e botar num saco. Mas enfim.

Minha mãe, emputecida, corria para fechar as janelas todas e passava a mão na piaçava para varrer o quintal. Tudo isso xingando os pobres. Eu pensava como Rosalita nos “Goonies”: “Deus, vim parar numa casa de loucos”. Por que tanto ódio contra uns poucos cristãos que gostam de ver o lixo pegar fogo?

Mas foi só me mudar – e passar a tentar manter limpa a minha própria casa – para perceber que uma semana de queimadas promovidas nas adjacências, aliadas a um insistente vento, eram mesmo razão para soltar os maiores impropérios. Quando vi, o banheiro branquinho estava coberto de fuligem preta. As partículas se desmanchavam ao menor toque e aderiam aos azulejos e peças feito “Festa no Apê” gruda na cabeça.

Duas opções: limpar tudo, o que daria o maior trabalhão, ou ignorar o ocorrido e, da próxima vez que usasse o vaso, levantar com um círculo preto pintado nas pernas e no derriére. Fui na primeira. Quando me vi xingando os filisteus que levaram a fogueira a cabo, pensei: “Droga. Ela tinha razão”.

Eu também achava frescura a insistência da mãe para que, depois do jantar, a gente deixasse a louça raspada e cheia d’água com detergente dentro da pia. Era detalhe demais para minha cabeça: raspar os restinhos de macarrão, empilhar tudo direitinho, ligar a torneira e jogar sabão por cima? Ah, acho que não, hein.

Pois foi só me ver com a incumbência de lavar a louça do jantar no dia seguinte para que de novo eu pagasse a língua (e a má-vontade). Restos de molho, na manhã seguinte, estão secos e amalgamados aos pratos que nem aquele mosquito no âmbar em “Jurassic Park”. A água com detergente impede o processo maldito. Não tive outra opção senão murmurar para mim mesma: “Droga. Ela tinha razão”.

A lista é interminável: panos de chão deixados ao relento, embolados, realmente emboloram. E fica chato – e muito mais difícil – lavá-los depois. Se a gente não regar as plantas, elas de fato morrem. Deixar a vassoura de pelo virada para baixo deforma a “pelagem”. Depois, ao varrer, fica uma faixa de sujeira para trás. Existem panos de prato (os mais bonitinhos e ajeitados) cujo destino não deve ser a desglamurizada secagem de louça. Eles servem para botar em cima do fogão, só para... para... ah, sei lá para quê. Minha mãe fazia e eu faço também, puxa.

De repente, me peguei ralhando com o namorido para que ele, ora bolas, pegasse os panos de prato mais velhos para secar os copos. E, depois do jantar, raspasse o prato, empilhasse tudo dentro da pia, ligasse a torneira e despejasse sabão ali dentro. Até o arremate dramático era igual ao da dona Sandra: “Não vai cair sua mão, vai?”

Comecei a ficar preocupada. Veio o estalo: viximaria, estou virando a minha mãe! Mas logo me acalmei. Ficar parecida com minha mãe não é nada mau, porque ela é uma das pessoas mais legais que eu conheço. Claro que também tenho meus limites. Encher a casa de paninhos decorativos ou correr com um rodo para enxugar o quintal a cada fim de chuva não é comigo.

Se bem que estou achando aquele galão de água tão nuzinho... Fica um pó em cima, menina, que só vendo. É ruim deixar o negócio assim, pelado. Acho que vou comprar uma daquelas capinhas de galão, com um bordado de vaq... Opa! Alerta vermelho, Clara. Assim já é demais. Minha mãe sempre me disse para ser eu mesma. Mais uma vez, me ocorreu: “Droga. Ela tinha razão”.

* * * * * *

E não se esqueça disso!

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Quando: 4 de junho, sábado
A que horas: das 14h às 18h
Local: Livraria Cultura - Loja de Artes
Onde: Av. Paulista, 2073 (Conjunto Nacional)




Clara McFly às 10:41 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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