quinta-feira, 26 de maio de 2005

Garmice

É uma palavra tão nova que nem consta nos dicionários. Aliás, nem irá constar – a não ser que o poder de influência deste humilde sítio seja um bilhão de vezes maior do que presumo. O termo que nomina este texto foi uma corruptela criada incrivelmente sem querer e de modo bastante... er... bobo. O bom é que ela, hoje em dia, resume algumas situações de modo que nenhum outro vocábulo pode. Garmice. Anotem isso aí, pois cada um de nós tem vestígios dela.

O que é a tal da “garmice”? O que é ser “garminho”? Tentarei resumir. Certa feita, quando o trio de autoras deste sítio trabalhava em um site de entretenimento, conhecemos uma menina muito divertida e simpática, a Debbie. Fã de música e de seriados de TV, ela era parada em um filme chamado “Os Últimos Dias de Laura Palmer”. Sim, aquela que teve as botas batidas em “Twin Peaks”. Foi daí que inventou sua palavra.

Até onde descobri, o maior vilão podreira do filme, o “Homem de Outro Lugar”, se alimentava de uma certa Garmonbozia. A criatura terrível encerrava em seu espírito tudo o que havia de coisa-ruim, e o termo significava toda a dor e sofrimento do mundo. Isso fez com que Debbie, impressionada, usasse a palavra a toda hora, transformando em um substantivo. “Garmice” era a forma dela definir o que praticavam os chefes chatos e toda a sorte de atitudes maléficas e sem sentido. Quem o fazia era, portanto, um tremendo “garminho”.

Com o tempo, o sentido degringolou um pouco e passou a ser usado para aquela tendência à avareza, a fazer tudo de modo tosco, à mania de empurrar com a barriga. Incrível como passei a notar toda a garmice que eu mesma praticava! E os outros ao redor também.

Para dar mais a entender onde usar a palavra, posso definir as maiores garmices do universo. Aposto que algum de vocês já foi bem assim um dia.

Plástico no banco do carro
Tem coisa mais... mais... garminha?? O sujeito compra um automóvel novo, reluzente e cheiroso. Chega em casa para contar a novidade e toca a família toda dentro para uma voltinha inaugural. Pede para não encostarem em nada e muito menos tirar o plástico do banco, para não sujar. E nove meses depois, lá estão ainda as coberturas! Isso é viver pela metade. E na maior garmice.

Durex no controle-remoto
Quem pratica a garmice também adora deixar toda e qualquer tarefa para amanhã. Controles de TV e rádio são mesmo mal-feitos. Basta trocar a pilha uma vez para quebrar aquela maldita capinha do compartimento. Levar na loja e trocar? Comprar um controle universal novo? Que nada! Grude ali um durex. Ficará melequento em dois dias, mas garminhos não se importam.

Colherinha na garrafa
Ser muito “econômico” também faz parte desta definição. Sabe aquela única colher de feijão que sobrou do almoço? Armazena em um potinho, oras. Logo a geladeira fica parecida com um laboratório, com centenas de caixinhas com dejetos dentro, e refrigerantes com uma colher de chá aboletada no gargalo, a fim de preservar o gás. Vai tudo para o lixo no fim, claro.

Balde para conter goteira
O telhado já deu demonstrações óbvias de telhas quebradas. A infiltração domina uma parcela da parede tal qual uma pichação com spray negro. Mas o cidadão ainda teima em ignorar o caso. Prefere deixar a próxima chuva chegar e, aparecida a goteira, colocar um balde, uma vasilha ou o pote de sorvete embaixo, para conter a água. Conserta esse vazamento, vai, garmon?

Água no detergente
Garminhos como eu não são muito bons de conta. Achamos, por exemplo, que vale a pena diluir o sabão líquido da pia com um bocadinho de água “pra render”. Não se nota, evidente, que aquilo vai virar água semelhante àquela usada por lavadores de pára-brisas de semáforo. Para limpar um prato, lá se vai metade da mistura do tubo. Não compensa, mas dá conforto para a consciência...

Bombril na ponta da antena
Seria mais negócio chamar um especialista e adquirir, em suaves prestações, uma antena decente, que pega Globo, SBT e até a tal da MTV. Mas pra quê, se a palha de aço faz tão bem seu trabalho? Pegada ali nas varetas de metal, ela sintoniza alguma coisa entre chuvisco e trovoada. E até dá para ver, vez por outra, a cara do William Bonner. Ou será a Fátima? Os praticantes da garmice não saberão dizer.

* * * * * *

E não se esqueça disso!

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Quando: 4 de junho, sábado
A que horas: das 14h às 18h
Local: Livraria Cultura - Loja de Artes
Onde: Av. Paulista, 2073 (Conjunto Nacional)



Fla Wonka às 10:09 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold