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Alô? Quando o escocês Alexander Graham Bell inventou o telefone, lá por volta de 1875, nem imaginava que, muito tempo depois, a engenhoca encontraria tanta serventia em nosso cotidiano: desde perguntar para a avó se ela melhorou da gripe até pedir uma pizza no sábado à noite – passando por dar um fora no(a) namorado(a), demitir funcionários, papear por horas com o melhor amigo, ser demitido, marcar dentista e combinar aquele arrasta-pé no fim-de-semana. Repare que, inclusive, o telefone é um excelente termômetro. Antes de mais nada, para mostrar seu crescimento. Se no começo de sua vida falante você recebia chamadas apenas de familiares, de repente passa a atender ligações de amigos. Tal passagem equivale, em importância, a ir pela primeira vez sozinho à padaria. Além disso – e, principalmente – a invenção do barbudo Bell é um termômetro de popularidade. Se ele toca demais, parabéns, você é popular. Se ele não toca... Xi, meu chapa, a coisa tá fraca. Ele pode ser a salvação da lavoura ou a bola de ferro no pé que nos faz afundar cada vez mais. Como todo mundo, eu também já perdi algum tempo da minha vida ao lado do aparelho esperando aquele triiiiiim específico; já chorei no bocal, já gargalhei, já fiz amizades e já as destruí. Já me afoguei ouvindo a música mais deprê dos Smiths quando ele teimava em ficar mudo a noite toda, e já tive ocasiões em que não conseguia deixá-lo no gancho por cinco segundos sequer. Passado esse período de inseguranças no qual o telefone é tanto um amigão quanto um inimigo cruel, eu comecei a encarar o aparelho cor de creme com teclas pretas como apenas mais uma facilidade da vida moderna, equivalente à televisão, computador e máquina de milk-shake. Já não tenho mais aquela relação de dependência, de amor e ódio. Hoje, se ele não toca, aproveito para botar a leitura em dia. É muito chato ser interrompida repentinamente no melhor da história, né? Agora que meu contato com ele é prático e beira a indiferença, comecei a notar algumas coisas. Por exemplo, que o maldito infantiliza ainda mais a minha voz – que já é bem infantil. Quantas vezes eu atendi a ligações de telemarketing e ouvi, do outro lado da linha, a simpática moça indagar “Posso falar com a sua mãe?”. Grrrr. Pelo menos, resolvi aproveitar a deixa a meu favor e escapar: “ah, desculpa, tia do banco, mas minha mãe tá trabalhando”... Costumo também mandar beijos para estranhos. É típico na hora de pedir comida delivery. Quando o rapaz fecha o meu pedido, me passa o valor e me informa quantos minutos levará o rango para chegar até a minha porta, eu preciso me segurar para não encerrar a conversa com um “Tá bom então. Um beijo!”. Se eu estiver distraída com a tevê, o risco de distribuir amor a completos desconhecidos é ainda maior. E quando eu termino com “Qualquer coisa, me dá um toque”? Sei lá, acho que esse hábito de pedir um toque assim, sem mais nem menos, pega um pouco mal. Tenho ainda uma facilidade absurda em me dispersar com a conversa. Sabe quando você liga para alguém com o propósito consciente de falar sobre um assunto x e, após meia hora de blábláblá inútil, já com o telefone no gancho, repara que esqueceu de mencionar exatamente o que motivou o contato? Faço isso com uma freqüência enlouquecedora. Já tentei confeccionar listas de prioridades antes de discar, mas por muitas vezes o papel e a caneta só servem para rabiscar desenhinhos enquanto amenidades saem da boca. Sempre receei estar atrapalhando. Não ligo para ninguém cedo demais, ou tarde da noite – nem mesmo para os amigos do peito. Só em caso de emergência extrema. E olhe lá. Quando a pessoa demora mais de quatro toques para atender, começo a matutar: será que ela está no chuveiro? No banheiro? Será que saiu? Ou está dormindo? E costumo dar uma de vidente, só pelo “alô”. Sério, dá para sacar se a pessoa está ocupada/ doente/ alegre/ brava/ assustada/ cansada/ triste apenas sabendo ouvir aquela palavrinha de três letras. Normalmente, eu acerto. É por tudo isso que acho uma pena Graham Bell não ter sobrevivido a todas essas décadas para ver que ele não inventou apenas um meio de comunicação – mas um aparelhinho do dia-a-dia capaz de ser o canal para coisas tão incríveis e tão mundanas ao mesmo tempo. ![]() “Alô? Menina, eu nem te conto!”
Quando: 4 de junho, sábado Vivi Griswold às 10:00 AM |
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