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Eles é que estão descontrolados Algumas meninas odeiam jogos de futebol. Outras adoram. Eu tenho uma opinião nem tanto ao mar, tampouco à terra. No fundo, acho esses embates ludopédicos um sarro. Mas atenção: é preciso considerar como um “jogo de futebol” completo não só o que acontece entre as quatro linhas, mas também – e especialmente – o circo armado em volta, pela imprensa, pelos espectadores e pela atuação dos jogadores em campo. E, por atuação, entenda-se o teatro, não os chutes, passes e defesas. Para quem gosta de futebol, os 90 minutos de toma lá, dá cá são sagrados. Vejo pelo namorido e pelo irmão, fãs incondicionais da brincadeira, e pelos muitos amigos empolgados que me cercam. No último jogo Palmeiras x São Paulo, descobri que também tenho vizinhos muito comprometidos com o 11 contra 11. Soltaram rojões à meia-noite. Na minha janela. Depois dizem que as mulheres é que ficam irracionais quando vêem um sapato irresistível ou quando choram sem razão aparente. Os peludos que me desculpem, mas não há demonstração maior de descontrole do que homens assistindo a (ou jogando) uma partida do seu time. Não entendo, por exemplo, porque um punhado de jogadores se amontoa em volta do juiz quando este tira o cartão do bolso, na intenção de mostrá-lo a um infeliz que confundiu os joelhos do adversário com a bola. Uma vez retirado do bolso, o cartão não volta para lá até ser erguido, gente. Eu, que nem acompanho o esporte, sei disso. Não vai adiantar cercar o juiz. Ele não costuma mudar de idéia, especialmente se tem alguém sangrando em campo. Não faz sentido embolar o pobre homem de preto. Mas eles embolam. Outra coisa: como os integrantes do “elenco” têm coragem de fazer cena e rolar três metros adiante quando são delicadamente tocados por um adversário? Pelamordedeus, o juiz pode não ter visto que não foi nada, mas sua mãe deve estar assistindo em casa, meu filho! Não tem vergonha de pagar de mentiroso em rede nacional, não? Parece que não. Adentrar o “tapete” faz os homens perderem as estribeiras. O pessoal do sofá não fica atrás. Douglas, o namorido, é Curíntia até morrer. Fica com os olhos vidrados na tela quando assiste a um jogo. Fala com o juiz: “ah, assim não, juizão!”, como se o homem pudesse ouvi-lo. Xinga os jogadores, ao mesmo tempo em que orienta o jogo: “filhadap*%*&! Toca ali, toca ali!”. As palmas da mão geladas, o rosto contrito. Fico olhando e pensando: “como uma pessoa racional e objetiva como ele pode falar com gente que está do outro lado da tela?”. É impressionante. E a emoção na arquibancada? Fico passada. Meu irmão me disse que quando sai um gol todo mundo se abraça. Inclusive desconhecidos. Duvidei. Até saber que o Dener, amigo de década, certa feita abraçou um PM. Isso mesmo, um policial militar. Quando percebeu o que tinha feito, foi quase um filme: soltou o homem, deu uma limpadinha nele e um sorriso amarelo. Virou as costas e procurou outro incauto para agarrar. O pessoal que cobre tais eventos não fica atrás. Convenhamos: deve ser mesmo difícil arrumar perguntas variadas para um negócio que é mais ou menos igual – entram vinte e dois, passam noventa minutos tocam a bola, onze saem vitoriosos, onze derrotados (ou menos, dependendo do juiz e do controle da testosterona). Aí vêm os repórteres no intervalo, pegam um pobre cuja esquadra perde de três a zero e tascam: - E aí, o que você está achando do resultado até agora? Se sou eu, digo: - Maravilhoso! É que na verdade eu sou um espião infiltrado e entreguei todos os gols. Vou receber a maior grana do pessoal de lá. Olha aqui minha tatuagem! (Levanta a camisa e mostra, impresso no peito, o escudo do time adversário, sob o olhar atônito do jornalista). Não contente em cobrir o jogo durante o embate em si, a imprensa ainda curte passar umas duas horas falando dos resultados depois. Aí, junta um monte de mané em volta de uma mesa. Quando há notícias de contratação, brigas, inovações técnicas, muito que bem. Fica um programa quase sério, salvo por eventuais momentos de destempero verbal de alguns participantes. Quando não há é que são elas. É preciso preencher o tempo regulamentar do programa com alguma coisa. Então, passa um lance polêmico no videotape (classificado muito sabiamente de “burro” pelo Nelson Rodrigues). Metade do pessoal no ar diz: “foi pênalti”. Outra metade diz: “não foi, não”. O que se segue é um festival de subjetividades, até que eles mesmos se irritam entre si e começam a falar um por cima do outro. Pronto! Virou aquela discussão de tios semi-briacos sobre qualquer nota, depois do almoço de domingo na casa da sua avó. Se seu sobrinho menor passasse diante da tela, diria: “olha, os titios estão na TV!”. E como convencê-lo do contrário? Não tem jeito. Como não há maneira de convencer os torcedores de que tudo aquilo é só um jogo. Vai ver não é mesmo. E só eu ainda não percebi.
Quando: 4 de junho, sábado Clara McFly às 10:10 AM |
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