segunda-feira, 23 de maio de 2005

Amigo do bom

Há quem possa contá-los apenas nos dedos da mão direita. Há quem encha uma boa bacia com seus nomes. Há quem conheça hoje e, amanhã, já se sente íntimo. Há quem leve dois anos para concretizar uma amizade. Ter amigos é tão necessário quanto ter água para beber, comida para comer e o CD dos Saltimbancos para ouvir em uma manhã ensolarada de domingo. Somar conhecidos é fácil. Difícil, porém, é ter um comparsa perfeito para chamar de seu.

É complexo definir o amigo de fé, o irmão camarada. Tudo depende do quanto pretendemos nos lançar nessa parceria. Se você gosta apenas de ter alguém para papear de vez em quando, pelo telefone mesmo, pode arrumar amigos a granel. Mas complica um pouco se quiser ter uma alma gêmea, um grude total, aquela pessoa que iria te resgatar até na Sibéria. No inverno. Sem esquis. E carregando o Jô Soares nas costas.

O bom de pensar nos amigos mais chegados é que eles são, na realidade, uns gradecíssimos pentelhos. Folgados, salientes, intrometidos, caras-de-pau. Só eles usam da sinceridade plena, aquela que nem sua mãe tem coragem de exercer sobre ti. Tanta intimidade, às vezes, também nos faz querer dar um belo murro na cara do amigão. Não fazemos isso apenas porque, raios, eles nos conhecem tão bem que saberiam com antecedência de onde viria o golpe.

Para amigos assim não há regras ou limites. É amor puro – só não tem a parte do beijo na boca. Quer saber se achou uma metade não-romântica para sua laranja? Veja se ela encaixa em alguns itens aqui.

Empréstimo sem retorno
Sem perguntar se pode ou não, ele vai logo passando a mão nos seus DVDs, CDs, livros e gibis de coleção. Menciona somente “tô levando, falô?”. E é também só para ele que você informa os famigerados “quatro Vs”: “vai e volta, viu, viado?”. Não voltará tão cedo, claro.

Muro das lamentações
É um privilégio ter aquele ombro para chorar as mágoas quando o coração se desespera. Ele dá conselhos ótimos. E aponta seus erros sem dó, mas afaga logo depois. Em dois minutos, vai estar comparando o seu problema com uma história esdrúxula sobre a tia gorda dele. Então tudo fica bem.

Impertinência máxima
Não bastasse ser o maior folgado com você, ele ainda tem a manha de se referir ao seu amado pai como “o véio”. E sua mãe, evidente, passa a ser “tia”. Bom: o véio e a tia podem não agüentar mais ver o mala assaltando a geladeira deles, mas fazer o quê? Amigo de filho é como filho postiço.

Refrigerador, o alvo clássico
Por falar em geladeira... Abri-la, para simples conferência, é quase uma tarefa básica para o amigo fiel. No começo da relação, ele apenas apanha lá o que você pedir. Anos depois já está escancarando as gavetas e reclamando pela falta de polenghinho e suco de abacaxi coado.

Destrato com a mobília
Apóia os pés na mesa de centro, deixa copo molhando na estante de madeira, larga o corpanzil no sofá sem a menor cerimônia. E quando seu colchão já começa a ceder, de tanto que ele pulou ali, ainda acha por bem recomendar que você compre um novo, porque ele está com dor nas costas.

Discreto, pero no mucho
Amigo que é amigo não conta podres em público. Ele mantém os deslizes arquivados na memória em ordem cronológica, mas tem a decência de resguardar os fatos. Basta você bobear, no entanto, e vem ele perguntar “deixa eu contar pro pessoal o que você fez ontem, vai?”. Daí, já era.

Ataques de bobeira
Piada interna não pode faltar entre vocês. E nem aquela mania de se juntar em um banco de parque para criticar o vestuário alheio. Também acontece muito de, após qualquer situação banal, vir um riso compulsivo e infindável. Os demais acham que vocês estão chapados. Mas quem liga?

Intercâmbio sem frescura
Vai rolar a festa e não há um traje bacana no armário. Mas sempre é possível acessar a extensão: o guarda-roupas do amigo. Entre vocês não há sombra de avareza e pode-se emprestar blusas, sapatos, objetos de uso pessoal (menos escova de dente, irc) e até o carro. Estragou, pagou? Até parece...

O carinho mútuo
Não é pelos abraços ou beijos que se mede a amizade total. Com o amigo-irmão é muito mais a liberdade que importa. Quem mais você deixaria te chamar de “besta”, “cabeção” ou “debilóide”? Eu ainda ligo para quem amo de fato e pergunto “e aí, palhaço?” ou “fala, piolhenta”. Quanto maior a ofensa, maior o amor. Aliás, já ligou hoje para ofender seu amigo?


* * * * * *


E não se esqueça disso!


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Quando: 4 de junho, sábado
A que horas: das 14h às 18h
Local: Livraria Cultura - Loja de Artes
Onde: Av. Paulista, 2073 (Conjunto Nacional)



Fla Wonka às 10:42 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold