sábado, 21 de maio de 2005

Manifesto do PP

Venho por meio deste manifesto exprimir minha indignação de consumidora quanto à nova modelagem de roupas atualmente em voga nas lojas da cidade. Creio eu, nos estabelecimentos de todo o país. Pois se a tal prática abusiva estiver acontecendo apenas onde resido, vou ficar ainda mais irritada do que já estou. Seria o estopim de minha fúria assassina.

Mas por enquanto não usarei de violência. Não atacarei vendedoras, não açoitarei gerentes e não destruirei vitrines a marretadas. No momento, estou aberta ao diálogo – e peço, para isso, a compreensão de todos os cidadãos de bem quanto a este assunto de suma importância.

Antes de mais nada, permita que eu me apresente. Meu nome é Viviana, sou brasileira, paulistana, casada, jornalista, estou às vésperas de completar 28 anos, pago minhas contas e impostos (quase) em dia e... Bem, eis um dado que pode parecer fútil à primeira vista, mas que é imprescindível a esta discussão: meu número de manequim é 36. O famigerado PP.

Para esclarecer as coisas de antemão, saiba que não faço uso de tal tamanho para contar vantagem. Tampouco passo vaselina para vestir o jeans, forçando a entrada do mesmo, com a finalidade específica de sair espalhando por aí o grande feito de haver cabido nele. Acontece que com pouca altura e poucos quilos na balança, não há outra escapatória para mim além de adquirir peças dessa categoria. Infelizmente.

E cito o termo “infelizmente” por dois fatores.

O primeiro diz respeito ao aumento de centímetros das roupas de número 36. Outro dia, por exemplo, saí em busca de uma saia. Após haver me certificado do tamanho na etiqueta, segui a uma cabine do provador feminino. Bastou fechar o zíper da peça para eu notar que, se soltasse a cintura, ela escorregaria pelos meus joelhos, deixando à mostra, veja você, minhas roupas íntimas. Um despautério.

Agora eu pergunto: se o 36 é o manequim mais baixo que existe, o que eu faço em situações como a relatada logo acima? Poderia levar até um alfaiate para reformar o traje – mas não gostaria de pagar a mais por isso. Poderia tentar um modelo da seção infantil – mas lá só existem minissaias com desenhos das Meninas Superpoderosas para garotinhas de 10 anos. Poderia simplesmente não comprar. E foi o que fiz. Mas até quando?

O segundo versa sobre o completo desaparecimento de trajes tamanho P. Que encontrar um PP na arara é tarefa das mais difíceis, eu já sei. Estou conformada quanto a isso. Mas o P também está entrando em extinção. E tenho testemunhas: há algumas semanas, estava olhando a coleção de uma famosa loja quando notei a completa falta de peças pequenas. Questionei a vendedora quanto ao fato, e ela me respondeu que agora a rede não trabalha mais com P. Só a partir de M.

Ou seja, não encontro vestimentas do meu tamanho. Quando encontro, elas não me servem.

Aí você pode indagar “Ah, mas são realmente poucas as mulheres que usam PP”. Eu poderia até concordar, se não fosse por outro detalhe: existem, aos montes, peças GG. E até Extra-GG – uma quantidade de pano que não acaba mais. A população brasileira (talvez, mundial) anda em um enlouquecido sistema de engorda, é isso?

Talvez uma consumidora cheinha esteja festejando, neste exato momento, a entrada triunfante em uma calça 36. Ela deve estar pensando que a dieta e as horas de caminhada têm dado resultados, apesar do espelho não mostrá-los. Mal sabe a coitada que está sendo ludibriada pela máfia do PP gigante.

Mas, paciência. A comemoração de alguns é a ruína de outros. Sei que enfrentarei mares bravios para atualizar meu guarda-roupa. Sei que posso não obter sucesso na empreitada, e sei que provavelmente precisarei usar as mesmas peças velhas e desbotadas ano após ano, até o dia em que elas mesmas virarão trapos.

Então, a partir desse dia, não poderei mais sair às ruas. E, quando o fim chegar, alguma alma caridosa terá de cobrir meu corpo inerte e nu com uma camiseta de político ou uma toalha de piquenique para eu descansar com dignidade.

Ciente de que meu futuro é incerto e frio, despeço-me.

Vivi Griswold às 10:01 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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