sexta-feira, 20 de maio de 2005

Tirem isso da minha mente!

Um dos grandes mistérios da humanidade pode ter sido solucionado por uma pesquisa americana. Solucionado, não; na verdade, enunciado. A questão é por que certas músicas (geralmente classificadas como ruins) colam na nossa cabeça. A resposta é que algumas combinações melódicas, aliadas a repetições de versos, causam uma “coceira cognitiva” no cérebro. Como toda coceira, a sensação fica entre o irritante e o satisfatório. Mas, para alcançar a tal satisfação, não conseguimos evitar a cantoria repetida da infeliz canção.

Achou confuso? Então vamos a um exemplo prático: a famigerada “Festa no Apê”, de Latino, está na ordem do dia quando o assunto é “ohrwurm” (palavra alemã que significa, literalmente, “verme de ouvido” e se refere a tais músicas). A pérola do cantor chega assim, como quem não quer nada. E, uma vez ouvida, não sai mais do sistema. Você tenta se livrar, mas não é capaz. O danado do refrão, que convida para uma festa muito louca do barulho realizada num apartamento, adere ao cérebro feito piche fresco na sola do sapato.

O nobre colega Inagaki cantou a bola há algum tempo, mas não é de agora que vermes de ouvido estão à espreita para atacar os incautos. Eles não têm uma fórmula única, mas a métrica e a repetição de palavras contam bastante. Tanto que, nas canções-chiclé selecionadas abaixo, pode botar reparo: a parte mais grudenta quase sempre é o refrão e/ou título da música, acrescido, às vezes, de um lalaiá vagabundo.

Antes de começarmos, um aviso: o conteúdo a seguir é deveras autocolante e deve ser evitado por pessoas muito sensíveis. A autora não se responsabiliza por casos agudos, como manifestação de um desejo incontrolável de cantoria em momentos pouco convenientes, como reuniões de trabalho ou jantares na casa da sogra. Prepare-se.

Dança da Motinha
Responsáveis: Furacão 2000
Diz respeito a... uma ode às motocicletas, que fazem moças de bumbum avantajado perderem as estribeiras.
Ponto bonder: “Dança da motinha, dança da motinha, dança da motinha, as popozudas perde (sic) a linha”. Ei, peraí... Isso é toda a música!

Só Love
Responsáveis: Claudinho e Buchecha
Diz respeito a... aguardar a amada para a farra do final de semana, resvalando de leve no controle do onanismo.
Ponto bonder: “Só love, só love/ Só love, só love/ Só love, só love, só love, só love”. Virou até jingle de propaganda.

Melo do Tchaco
Responsável: Tonho Matéria
Diz respeito a... uma seqüência de versos de duplo sentido, coroados por um refrão que ainda não entendi.
Ponto bonder: “Tchacôôô, eu tô em cima, tô embaixo/ Tchacôôô, eu tô em cima, tô embaixo/ Ê, ma-mãe!”. Alguém se habilita?

Madagascar
Responsáveis: Olodum e Banda Reflexus – Filhos da Mãe África
Diz respeito à... história de uma rainha negra, que provavelmente veio parar no Brasil como escrava.
Ponto bonder: “I-lhá, i-lhá do amor, Madagascar/ I-lhá, i-lhá do amor, Madagascar”. Mas não é só: ainda tinha o “aiêêê, Madagascar Olodum/ Aiê, eu sou o arco-íris de Madagascar”. E eu disse aiê.

Xibom Bom Bom
Responsáveis: As Meninas
Diz respeito a... uma crítica de cunho sócio-político a respeito da situação nacional. E da cadeia hereditária.
Ponto bonder: “Bom, xibom, xibom bom bom (repete ad eternum)”. Tanta crítica para depois coroar com esse refrãozinho onomatopéico chinfrim.

Anna Julia
Responsáveis: Los Hermanos
Diz respeito à... paixão não-correspondida de um rapaz por uma garota. Uma pena. Se ele atingisse seu objetivo, provavelmente a música seria aposentada para sempre.
Ponto bonder: “Ô Anna Jú-liaaaaa, ô Anna Jú-liaaaaa, ô Anna Jú-liaaaaa, ô Anna Jú-liaaaaa”. Alguém faça ele parar!

Baba
Responsável: Kelly Key
Diz respeito a... uma bronca no professor que não quis trocar fluidos corporais com a protagonista quando ela contava onze anos.
Ponto bonder: “Baba, baba, baba, baaaaby/ Baba, baba, baba, baaaaby”. Vem cá: o cara não seria preso caso tivesse topado a proposta da infante Kelly Chave (de Cadeia)?

Carrinho de Mão
Responsáveis: Terrasamba
Diz respeito a... uma suspeita dança, explicada com detalhes pelo vocalista, envolvendo um rapaz e uma garota.
Ponto bonder: “Carrinho de mão, badá, badá, badá/ Carrinho de mão, badá, badá, badá”. Quando você pensa que acabou, o verso acima ressurge com “essa é a onda, essa é onda do... carrinho de mão!”. E segue o badá.

SNS (Só no Sapatinho)
Responsáveis: Só no Sapatinho
Diz respeito a... uma moça que parece uma “uva bem madura”, e as táticas do sujeito de comer quieto para ganhar a rapariga.
Ponto bonder: “Só no sapatinho, ô-ô, só no sapatinho, ô-ô, só no sapatinho”. Não bastava usar a expressão no título da música e da banda? Ainda tinha que repetir no refrão? Não é à toa que sumiu. A tática de copiar e colar não funciona nem no sapatinho.

Dança da Vassoura
Responsáveis: Molejo
Diz respeito a... uma suposta dança (da vassoura, claro), mas parece mais uma composição do meu irmão Gabriel, que tem dois anos. E, a propósito, ainda não sabe escrever.
Ponto bonder: “Diga onde você vai que eu vou varrendo (repete), vou varrendo, vou varrendo, vou varrendo, vou varrendo”. Irresistível.

molejao.jpg
Diga onde você vai, que eu vou...
correndo para o outro lado
Clara McFly às 10:49 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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