quinta-feira, 19 de maio de 2005

Amor, o sujeito de mil faces

Segundo apreciadores de rima ruim, ele é “uma flor roxa que nasce no coração do trouxa”. Felizmente, o amor já suscitou versinhos bem mais ricos e otimistas do que esse – e também infinitas canções. Se olharmos para o setor musical tentando definir o sentimento, aliás, dá para ficar louco. São tantas as possibilidades que nem sabemos se quem está certo é Paul McCartney ou Nando Reis. Quem será, afinal, esse tal de amor?

Para mim, Huey Lewis e seus parceiros de banda é que resumiram bem tudo o que pode fazer o sujeito traiçoeiro. Em “Power of Love”, o rapaz de voz gutural bem cantou “Make one man weep, make another man sing/ Change heart in a little white dove”. É duro para alguns admitir, porém é isso mesmo: ele pode fazer um homem chorar e outro cantar. E transforma o coração em uma pombinha branca. Faz de nós todos uns maricas, esse tal de amor.

Já os Beatles, na pérola “I'm Looking Through You”, disseram foi uma grande verdade. “Love has the nasty habit of disappering overnight”. Às vezes basta mesmo uma única noite para fazer o amor sumir, por maior que seja. É um péssimo hábito que o sentimento tem, o de dizer adeus de hora para outra. Então, até agora, já sabemos que ele provoca reações exageradas e é volúvel. Sigamos.

Para o obscuro grupo J. Geils Band, o amor fede. É uma danação só. Eles entoam um rock pesado chamado “Love stinks” e garantem que o amor vai te encontrar, não adianta se esconder. E quando você ouvi-lo chamar, vai deixar o coração se apaixonar. Daí o sentimento vai voar e tudo vai acabar. O arremate é triste: “I don't care what any Casanova thinks/ All I can say is love stinks”. Sabemos mais essa então. O amor é sádico.

Mas também não se pode pintar um rosto malvado no pobre sentimento. Há que diga: ele é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente, é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer. Dá para suspirar apenas por escrever isso, impressionante.

Alguns adolescentes desavisados podem pensar que foram Renato Russo e sua Legião Urbana os criadores do trecho acima. Mas foi Luis de Camões. Sim, aquele de “Os Lusíadas”. Renatão adaptou, virou, mexeu, e se valeu das palavras do poeta para contar o que ele achava: o amor capaz de promover o maior arrebatamento possível. Sádico e vadio, mas muito forte é o tal.

Há quem aposte, contudo, em uma resposta mais simplista. “Love is love”, para Boy George e o finado Culture Club. Só isso, modesto assim. Amor é amor e não é nada se eu não tiver você, diziam eles lá nos anos 80. Em uma década tão cheia de purpurina, era até pecado ser cético desse modo, não? Mas eles foram. Cada um com sua opinião, ora.

O Sonychome, por exemplo, não tem medo de dizer que “Love is a cancer, love ain’t benign”. O amor é um câncer e não é benigno?! Se minha mãe me ouvisse cantar isso, daria logo um tapa na boca. Onde já se viu, dizer que sentimento tão nobre é como doença? O bom é que eles arrematam informando que amor é para gente livre e uma jornada inocente – daí o nome da canção, “Innocent Journey”. Inocente ou canceroso? Bom ou mau? Difícil resolver...

Vamos então ao que profetiza o barbudo Nando Reis. “O amor é o calor que aquece a alma/ O amor tem sabor pra quem bebe a sua água”. Não bastasse parecer com uma redação “Minhas férias” feita na segunda série, ainda tinha que ser interpretada pelo Jota Quest... Mas pulemos esse fato. Ao que parece, Nando acredita que o amor é uma espécie de pinga com limão. Vadio, sádico, simples e forte – e agora também inebriante. Tomara que não deixe bafo no dia seguinte.

Vai ver é tão difícil explicar o amor, mas tão difícil, que cada um pinta ali o rosto que bem entende. Quem já sofreu com ele, vê um sujeito de temperamento ruim e pronto a dar tombo no primeiro desavisado que cruzar seu caminho. Quem tem boas recordações, define a face do amor como um tipo legal, divertido, sapequinha.

Bom mesmo é esquecer de formar teorias e amar apenas – usando, aí, a canção que melhor couber ao momento. De todas as músicas que evocam o amor, eu fico com os Beatles mais uma vez. Diriam os quatro mocinhos que “All you need is love”. Tenha ele que cara for.

Fla Wonka às 10:07 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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