terça-feira, 17 de maio de 2005

Hollywood quer dizer azevedo

Uma das coisas que mais me atraiu em “Matrix”, além do Keanu Reeves vestido de preto, foi a idéia de “baixar” programas direto no cérebro. Imagina que bacana plugar uma mídia intitulada “Kung Fu – Do Básico ao Avançado” em um buraco na nuca, esperar uns minutos e sair dando golpes de encher os olhos e deixar Bruce Lee nas chinelas! Mas minha ambição maior, caso eu tivesse o tal do buraco, seria baixar um disco do tipo “Todas as Línguas do Mundo”.

Quando a gente começa a aprender outro idioma, além de expandir as possibilidades de expressão e pensamento, o bom é perceber as particularidades da sua própria língua mater. Já dizia Caetano Veloso, antes de virar um velho chatola: “a língua é minha pátria”. Pois eu também “gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões”. E de notar as diferenças.

Aprendendo espanhol como estou, notei uma curiosidade. Em português, temos um ou uma e dois ou duas – o número não muda de gênero só a partir do três. Enquanto isso, no idioma de Cervantes, tiveram mais preguiça: do dois para a frente, já é a mesma coisa. Eu peno para dizer, por exemplo, “dos mujeres”. Parece que estou falando igual ao doutor Hans Chucrutes, “dois mulherrres”.

Aliás, alemães têm uma séria dificuldade com os artigos. Da língua em que Kafka concebeu sua “Metamorfose” nada sei, exceto que, aparentemente, os artigos são todos trocados. Em espanhol, isso acontece. Pouco, mas acontece. “Viagem”, para nós, é “a viagem”, enquanto que para os hermanos é “el viaje”. Também quebrei a cara proferindo uma porção de “la viaje”, “la mensaje”, “la pasaje”.

Isso sem falar nos malditos verbos irregulares. Eu nunca havia tido bronca de tais anomalias lingüísticas, e elas acontecem um bocado em português. Mas, nesse caso, peguei as manhas de maneira natural. Como as crianças, que passam naturalmente do “eu dí” para o “eu dei” depois de um tempo. Já os irregulares em espanhol estão me pondo doida. É um tal de hice, hizo, salgo – e a isso eu não me refiro a botar sal em nada, mas a sair de algum lugar. Pode?

Voltando à Alemanha – cujo nome, aliás, me desperta várias dúvidas: para os próprios, é Deutschland; para os ingleses, Germany, para nós, Alemanha. Bem diferentes uns dos outros, hã? Sei mais uma coisinha da língua que a nós, falantes cheios de vogais, parece tão travada: alemães inventam palavras. Ou quase isso. É permitido juntar dois ou mais conceitos para sintetizar uma idéia. Por isso que, na mesma "Língua", Caetano dizia que só é possível filosofar em alemão.

Inagaki listou outro dia algumas dessas pérolas germânicas. Drachenfutter, por exemplo, significa “comida de dragão” literalmente. Mas se refere àqueles presentes que esposos em falta compram para suas mulheres. Engrosso o coro do moço responsável pelo “Pensar Enlouquece”: isso é que é poder de síntese!

Mas também temos nossas particularidades. A mais conhecida é a tradicional “saudade”. Como as línguas são feitas a partir das realidades, parece que só os portugueses, cheios de aventureiros que se lançavam ao além-mar, sentiam “saudades”. A palavra existe apenas na língua portuguesa. Já “golpe de estado” não existe em inglês. Parece que nunca aconteceu por lá. E, para referir-se a tal manobra política, eles não se deram ao trabalho de inventar uma palavra. Emprestaram “coup d’État” dos franceses.

Também acontece de termos expressões completamente diferentes para uma mesma situação. Para os falantes de português, “Inês é morta” significa “agora é tarde”. Para um falante de inglês, significa que certa mulher deve ter batido as botas por aí, so what? Claro; a Inês da expressão é Inês de Castro, figura da história de Portugal assassinada e coroada rainha depois de falecida. Os colegas de língua de Shakespeare, no entanto, têm lá suas maneiras de dizer quando algo aconteceu tarde demais. Ou sacam mesmo do “too late”.

Por outro lado, se alguém me disser que vai largar o cigarro no “peru frio”, vou imaginar o sujeito encomendando um despacho na esquina ou algo similar. Para quem fala inglês, “cold turkey” significa largar um vício de uma vez só, abruptamente. A lista é interminável: “mamão com açúcar” não deve fazer o menor sentido para quem vive num lugar sem a ocorrência dessa fruta. “Tirar o cavalinho da chuva” provavelmente não existe no Atacama. E, se existe, deve adquirir outro sentido. Tipo “coisa muito rara, que só acontece uma vez por ano”.

Para o fim, deixo meu caso de idiossincrasia lingüística favorito: um certo dialeto esquimó (isso explica tudo) possui nove substantivos diferentes para neve. Cada qual a define de acordo com a textura, consistência, cor e... e... ah, sei lá que outras variações neve pode ter! Claro, sou brasileira. Tudo que herdei foi a saudade.

Clara McFly às 10:35 AM

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Fatos bizarros, comentários
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No passado
Brinquedos, escola, casa
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No som
Verso, vinil, vitrola, voz
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Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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