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Abracadabra? Só se for agora Em mais algumas semanas estreará nas telonas um filme bacaninha. É a versão cinematográfica de “A Feiticeira”, série de sucesso nos anos 60 que levava Elizabeth Montgomery, atriz adorável, no papel-título. Lembram das aventuras de Samantha? A moça era bruxa, mas queria viver como mortal e se ocupar de todas as tarefas como uma pessoa comum. Podia fazer as melhores mágicas, porém escolhia operar o aspirador de pó como qualquer outra. Aquela palerma! Numa boa? Sam me deixava nervosa com a mania de não querer usar seus poderes. Seria tudo mais fácil se ela fizesse logo um truque. Mas a mulher não queria. Tinha por meta ser uma dona de casa americana padrão, a cuidar dos filhos e servir o marido proletariamente. O destino, no entanto, era claro: todas as situações acabavam ficando complicadas e a feiticeira terminava por resolver os impasses com um trimilique de nariz. Se fosse eu a dona do poder, o nariz precisaria de manutenção permanente, tamanho o uso. Não venceria de sacudi-lo para organizar minhas pendências! Desde o básico até o mais complexo assunto, tudo entraria nos eixos como em um passe de mágica. Já pensaram, que sonho?! Louça acumulada na pia há quatro dias. Colheres com Toddy grudado, pratos marcados por molho de tomate, aqueles malditos restinhos entupindo o ralo da cuba. Em vez de passar minutos intermináveis areando panelas e me livrando da meleca, bastaria focar o olhar, mentalizar a limpeza e dar a tal mexidinha de nariz. Voilá! Pia limpa, tempo de sobra para ler uma revista. Tarefas prosaicas, nunca mais. Isso estaria em acordo fechado. Ter cama arrumada, roupas guardadas e comida feita sem esforço seria a resolução inicial desta bruxa aqui. E como esses poderes fazem falta... Passar camisa, a atividade criada pelo demônio, já não seria mais problema. A mágica viria a calhar, ainda, naquela hora em que a bebê chora. É batata: quando as mãos estão ocupadas nanando a pequena, o telefone sempre toca. Normalmente preciso equilibrar a criança com uma só mão, apanhar o gancho com a outra, usar o ombro como escora e rezar para não deixar tudo ir pelos ares – inclusive e especialmente a minha filha. Já com a poder de Samantha, faria o aparelho levitar até meu ouvido. Ou parar de tocar de uma vez. Como maga poderosa, eu saberia quem era do outro lado da linha sem necessitar secretária eletrônica. Retorno depois. E na hora da pressa, então? Convenhamos: circular aboletada no cabo de uma vassoura não deve ser lá muito confortável, mas é mais ligeiro do que escolher o automóvel em São Paulo. Ou posso ir de carro mesmo, apenas retirando os barbeiros da frente com o poder da mente! E, de quebra, ainda lançaria raios na testa de quem guiasse falando ao telefone. Bruxa e justiceira, essa é minha meta. Samantha ainda tinha aquela bobeira de não pedir ajuda à família e aos amigos mais tarimbados do mundo da magia. Eu amo minha mãe mas, sinceramente, se ela fosse a Endora eu estaria feita. Além de transformar um homem em tartaruga como ninguém, ela ainda era linda e estilosa. Podia rogar pragas divertidas e atazanar o dia de uns e outros. Algumas pessoas bem que mereciam passar uma semana com a língua presa, não? Ademais, Sam recusava-se a apelar pela ajuda de Tia Clara como babá de Tábata e Adam. Mas tem alguém melhor para distrair petizes do que uma mulher que some apenas da cintura para cima? E como ignorar os remédios tiro-e-queda do Doutor Bombay, o médico malucão? Ele curava tudo, desde gripe até bolotas azuis que apareciam no rosto da nossa feiticeira. Eu queria o curandeiro doido aqui em casa quando vem aquela dor de cabeça atômica. Tudo bem: eu não seria uma bruxa maluca que se mete em encrencas e depois precisa ouvir uma vizinha pentelha como a Senhora Kravitz dizer “Abner, tem um elefante no quintal ao lado!”. Podia ser mais discreta, só usar a magia no recesso do meu lar. Ou nas lojas de departamentos, quando o preço parece alto demais... Seria permitido? Ou isso dá cana lá no plano dos bruxos? Ok, trocar etiquetas de mercadorias não deve ser boa idéia. Mas abrir vaga para estacionar, atrair o controle remoto ou jogar 500 mangos na mão de um sem-teto com um simples gesto, isso seria bom, vai? Por que Samantha preferia não usar a magia, não compreendo. Era mesmo uma palerma ou apenas uma moça tentando se encaixar? Vai ver a melhor pergunta é: você conseguiria ter poderes e não usar? Eu não!
Sam, mexa logo esse nariz! Fla Wonka às 10:09 AM |
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