sábado, 14 de maio de 2005

Criança é bicho estranho

Era uma vez um garotinho que não entendia de onde as palavras vinham. Curioso, ele começou a se perguntar por que a colher se chamava colher, e não "mexedor" - na cabecinha dele, fazia muito mais sentido. O menino então ficou com a mania de falar naquele novo idioma auto-explicativo (aterrorizando os pais, que precisavam fazer força para entender as sentenças do filho rebelde à língua portuguesa).

Essa história saiu da brilhante chachola da escritora Ruth Rocha em "Marcelo, Marmelo, Martelo", mas ninguém estranharia se o personagem do livro fosse alguém de carne e osso: um primo, um irmão ou um colega da escola. Pois mesmo a mais fértil das imaginações não consegue ser tão mirabolante quanto a realidade infantil, e fatos como o do garotinho que inventou seu próprio jeito de falar podem acontecer diariamente na vida de quem convive com os pequenos.

Parece mesmo que a idade é inversamente proporcional à criatividade. Quanto menos anos somados na hora de apagar as velas do bolo, maior o talento para inventar brincadeiras malucas, amigos imaginários, hábitos absurdos e constatações hilárias. E eu adoro lembrar de alguns infantes que conheci e dar risada com as coisas que eles faziam.

Afinal, criança pode até ser bicho estranho pra dedéu - mas é um bicho muito, muito divertido.

O perseguidor implacável
Ele somava uma dezena de primaveras e uma mania engraçada: correr atrás dos carros como fazem aqueles cachorros de rua bem invocados. Quando era almoço na casa de sua avó, com a família toda reunida, o garoto refestelava-se com a quantidade de automóveis que poderia perseguir. E lá ia ele, correndo atrás de um por um, até o final da rua.

O culinarista bizarro
Ele possuía o pior paladar de que se tem notícia. Odiava qualquer tipo de tempero na comida: a salsicha do seu cachorro-quente era passada na água para tirar o molho, o arroz era totalmente branco e imaculado. Porém, ele adorava comer caramujo de jardim. Os dedinhos gorduchos eram ágeis pra pegar o quitute e colocá-lo na boca, com terra e tudo.

A "scream queen"
Ela não gostava de chorar - apenas de gritar. Se fosse contrariada, se machucasse o joelho, se sua boneca quebrasse... Em todas as circunstâncias que pedem um bom berreiro infantil, a menina punha-se a dar gritos de horror como se estivesse sendo perseguida por um assassino sanguinário. A mãe não sabia se chorava ou se a inscrevia em um concurso.

O bebê enceradeira
Ele tinha uma música favorita, apesar de seu único ano de vida. Bastava colocar a dita cuja para tocar que o bebê "dançava" - isto é, ficava girando, girando, girando, com a maior cara de louco, durante os quatro ou cinco minutos que durava a canção. Pior é que nem se importava de fazer isso na frente da família inteira e das visitas, que não seguravam o riso.

A dupla personalidade
Ela tinha um nome lindo escolhido a dedo pela irmã mais velha. A um dado momento de sua infância, contudo, algo aconteceu: e a guria informou aos parentes que, a partir daquele momento, eles deveriam se referir a ela como... Chica. Segura de sua decisão, apenas atendia aos chamados daqueles que obedeciam a nova regra - que, ainda bem, durou pouco.

O tarado das etiquetas
Quando batia aquele soninho, logo após a mamadeira, ele colocava o dedo na boca e abraçava o urso. Até aí, normal. O estranho é que ele não gostava do urso em si, mas da etiqueta - e ficava passando o pedacinho de pano dos infernos no nariz até dormir. Sua paixão por etiquetas era tanta que a mãe, benevolente, costurou várias em uma fralda e o presenteou.

O mestre-cuca
Ele tinha carrinhos, aviões, baldes de Lego, bola de futebol, caixa de lápis de cor... Tudo o que um moleque de cinco anos adoraria ter. Porém, deixava todo esse arsenal de lado quando via as panelas da cozinha. A de pressão era sua favorita. Também adorava as de tampa, as frigideiras e as colheres de pau. Pena que, quando cresceu, não aprendeu nem a fritar ovo.

A beijoqueira tresloucada
Ela perseguia estranhos na praça. Não podia ver um menininho de seu (pouco) tamanho que já se punha em disparada atrás dele. O pobre petiz também corria, mas sempre na direção oposta a ela, obviamente. Mas a garota não sossegava até conseguir agarrar a vítima e tascar-lhe um beijo na bochecha. Era carinho puro - um tanto violento, é verdade.

O menino stripper
Não importava se era um simples cocozinho. Se a vontade de fazer "número dois" batia, ele ia para o banheiro e arrancava a roupa toda antes de sentar no vaso. Tudo ia para o chão: os sapatos, as meias, a bermuda, a cueca, a camiseta. E depois de fazer o que precisava, vestia tudo de novo e continuava suas atividades como se aquilo fosse uma mania normal.


* * * * * *


Nota da autora: Fui ameaçada de morte por muitas dessas crianças crescidas para não revelar suas identidades. Parece que elas têm vergonha, sabe? Não entendo...

Vivi Griswold às 10:21 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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