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Quero ouvir a sua voz “O quê? Fala mais alto, Lurdinha, que eu não tô te ouvindo. Ah, melhorou. Vixi, parece que tinha uma jamanta na linha, mulher de Deus! Manda o menino abaixar a televisão, senão não ouço nada. O show? Ah, foi uma coisa linda de se ver, Lu! Falei que você devia ter ido? Ah, mas mandasse o Vágni se virar com a janta... esse traste! Hã? Ah, tá. Eu sei que é meu irmão, Lu, Deus que me perdoe, que a gente num gosta de ficar falando, sabe? Mas pelamordedeus, um hômi desse tamanho num sabe fritar um ovo? Ah, vá, vá, vá. Você mima muito ele. Ele e o menino também. Pronto, falei. Não, não vou falar nada do menino. Calma, Lu! Tá bom, desculpa. Num tá mais aqui quem falou. Então, o show. Ai, menina! Que coisa linda. Foi, assim, de encher as vista, sabe? Aquela luz, aquele homem no palco... Canta que é uma beleza, Lu! E num esquece da falecida, viu? É, todo de branco, sim. Vi dizer que ele tá se tratando das manias, mas ainda veste só branco, da cabeça aos pés. Coisa linda. Toda vez que aquelas luz apagava, eu gritava. Ô, se gritava! Bem assim: “Fofinhoooooooo!”. O Válti? Ah, o Válti ficava quieto, né? No começo ele me deu uns cutucão. Mas aí já fui logo cortando as asinha. É, porque hômi é folgado mesmo, né, colega? Tem que cortar. Ele se conformou e ficou ali. Cada berro que eu dava o Válti baixava a cabeça, sabe? Todo engruvinhado na poltrona, trincando de vergonha. Eu? Magina, que eu tive vergonha. Nada! Ô, colega, num é todo dia que você vê o Roberto assim, ao vivo, ali na frente!” São Paulo, sexto dia deste mês, dez e pouco da noite. No setor “cadeira superior ímpar” (também conhecido como “o mais barato”) do Credicard Hall, seis das poltronas eram ocupadas por uma mãe radiante, uma amiga contente, dois irmãos empolgados, uma cunhada que foi “para acompanhar” (e acabou responsável pelas fotos) e... eu. Foi a primeira vez que vi o rei. E entendi rapidinho porque Roberto Carlos merece o título. À guisa de presente do dia das mães, arrastei a minha e toda a trupe acima descrita para comemorar a data assistindo ao homem, ao mito, à lenda. Quase tão interessante quanto a apresentação de Robertão em si foi a observação da platéia. Era comum ver três gerações reunidas em torno da interpretação elegante, impecável (apesar do repertório discutível, o que também é compreensível: não dá para acertar todas quando se tem décadas de carreira) do monarca. Não faltaram também velhinhas empolgadíssimas ao lado de consternados maridos. Elas poderiam muito bem ter travado com a cunhada por telefone, no dia seguinte, o diálogo que inventei acima. Vários berros de “lin-dôôôô!” puderam ser ouvidos, para meu espanto. Ok, o cara é o rei. Mas lindo? Emendou minha sábia mãe, corroborando o dito popular: “a beleza está nos olhos de quem vê”. Outra respondia ao refrão de “Eu te Amo, Te Amo, Te Amo” com “Eu tambéééém, Roberto!”. De fato, havia uma que gritava “Roberto fofinhoooooo” a cada intervalo entre as canções, marcado pelo apagar das luzes. E eu me pergunto: que diabo de cantada é “fofinho”? Nos clássicos de Roberto, foi fácil se empolgar. Cantar diante de uma orquestra não é para qualquer um. Que “My Way”, que nada. “Emoções” diz tudo e mais um pouco, com verso e arranjo de encher os ouvidos. “Outra Vez” vira pérola na interpretação fabulosa do homem. “Detalhes” fez a visão longínqua do palco embaçar. Mas mesmo nas músicas de gosto mais duvidoso, como “Jesus Cristo”, é inevitável se pegar batendo palmas e acompanhando a letra com os olhinhos fechados. Eis a prova maior da majestade de um homem que já cantou sobre carros, gatinhas, florestas, mulheres de óculos, caminhoneiros, romances inacabados e o próprio filho de Deus – sempre com a mesma paixão e alma. O rei não está morto. Viva o rei.
Cartas já não adiantam mais “Eu Te Amo, Te Amo, Te Amo”, presente no repertório do espetáculo no Credicard Hall Clara McFly às 01:49 PM |
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