Meses se passaram desde a publicação de Contos da catraca, texto narrando alguns diálogos impagáveis que escutei de pessoas que embarcaram nas mesmas viagens cotidianas que eu embarcara, a bordo de um ônibus. Acompanhada do meu inseparável caderninho, passei a anotar as conversas que pego começadas e largo antes de terminadas. Às vezes, são frases soltas que não fazem o menor sentido (daí toda a graça da atividade); às vezes, acompanho histórias inteiras contadas no banco de trás (e então torço, silenciosamente, para chegar logo o ponto do sujeito - só assim posso juntar um rosto ao "causo").
Aprendi, em todos esses anos sem um carro para chamar de meu, que a verdadeira paisagem do coletivo não está do lado de fora, através da janela marcada pela poluição e por nomes escritos com a ponta afiada do compasso. Afinal, são sempre as mesmas casas, as mesmas ruas, os mesmos outdoors, a mesma falta de verde e o mesmo céu acinzentado. O quadro muda de figura quando viro minha antena para dentro daquele espaço pouco ventilado e sempre muito cheio. Ali há toda uma fauna pronta para ser vasculhada. Basta saber ouvi-la.
Passageiros, cobradores e motoristas podem até mudar de nome, endereço, raça e credo: mas a mania de prestar atenção neles sempre renderá um baita divertimento!
Passageiro 1: Olha a loira lá fora...
Passageiro 2: Você conhece?
Passageiro 1: Ainda não!
(E eu que me achava um ser otimista... Depois de trombar com o rapaz, precisei rever minhas opiniões. Ele havia vislumbrado uma moça bonita na calçada e comentou com o amigo como se a loira, indiferente àquele diálogo, já estivesse no papo. Fico só pensando se o casal teve a oportunidade de se conhecer depois disso!).
Cobrador: Aquele cobrador é novo. Tá todo sorridente. No começo é assim. Daqui cinco anos, ele já vai estar injuriado.
(O ônibus em que eu estava parou ao lado de outro no semáforo vermelho. Nisso, o cobrador velho de guerra olhou para o colega no coletivo vizinho, fez um sinal de "jóia" e, voltando-se para o nosso motorista, saiu-se com essa previsão sobre o plano de carreira do jovem profissional. Pensei com meus botões que deve ser um emprego difícil).
Adolescente: Ninguém acredita que você é minha mãe!
Mãe da adolescente: Pô, será que a gente é tão diferente?
(Mãe e filha discutiam sobre essa coisa de nenhuma pessoa acreditar no fato das duas terem o estreito laço familiar - fato um pouco curioso, já que ambas tinham A MESMA CARA! Queria eu ter cutucado a dupla e dizer que sim, eu acreditava.)
Passageira: Ela já matou a família inteira!
(Quando a jovem fez tal exclamação, eu, sonolenta após algumas horas na cadeira do dentista, dei um pulo e me ajeitei no assento. Pensei "essa história deve ser danada de boa!". Porém, percebi logo que o assunto era uma colega de trabalho famosa por dar desculpas para faltar à labuta: a moça, ao que parecia, achava que a batida história "minha avó morreu" ainda colava...)
Cobrador: Nessa loja aí só tem CD bom, tudo a R$ 7,90!
Motorista: Mesmo? Qual?
Cobrador: Eu comprei Mastruz com Leite, Love Line...
(O estabelecimento em questão fica no Largo da Batata, um local em São Paulo famoso pelos camelôs, barraquinhas de ervas para curar todos os tipos de males do corpo e do espírito, lojas populares e salões de cabeleireiro que fazem corte, escova, unha, barba e bigode por cinco reais. Portanto, acho um tanto difícil haver um CD realmente bom ali. E o que diabos é Love Line?).
Passageiro: Eu tô cheirando a formol, né? Precisei mexer nuns cadáveres...
(Outro diálogo que prometia ser impactante! Fiquei sem entender, contudo, se o garoto era estudante de medicina ou trabalhava em uma funerária. O caso é que ele estava conversando animadamente com uma garota e eu pensei que, bem, não era o papo mais apropriado quando você quer convidar uma colega para tomar um choppinho.)
Vendedor: Vai uma caneta aí, dona?
Passageira: Na minha casa não tem espaço.
(Pessoas costumam dar as desculpas mais esfarrapadas para não adquirir produtos vendidos por ambulantes de carona. Eu, no caso, me dou por satisfeita fazendo apenas um "não" com a cabeça e dando um sorrisinho. Mas a dona em questão resolveu apelar. E, cá entre nós: em que tipo de casa bagunçada ela mora para não caber uma mísera caneta?).
Passageiro: Ah, se Deus deixasse e minha mulher não visse!
(Se eu fosse caminhoneiro, essa seria a frase no meu pára-choque. Se eu fizesse adesivos para carros, essa seria a sentença escolhida. Se eu confeccionasse camisetas engraçadinhas, essa seria a estampa. O cara, que acabara de cometer algum pecado capital por cobiçar uma outra mulher fora do matrimônio, precisava registrar a máxima em seu nome, de tão sensacional!).
E as páginas do caderninho continuam sendo preenchidas. Encontro você para outras conversas, quem sabe, no próximo ponto.