terça-feira, 10 de maio de 2005

Estilo ginásio

No dia inaugural da quinta série, eu estava toda toda. Eram muitas novidades: não podia mais chamar a professora de tia, nem o intervalo de recreio. E, acima de tudo, os quatro pilares do primário haviam se multiplicado numa miríade de disciplinas interessantíssimas. De Estudos Sociais vieram História e Geografia. De Matemática surgiram Geometria, Álgebra e Desenho Geométrico (bom, nem tudo é perfeito). Ciências e Saúde se transformou em Biologia, Ciências e Laboratório. E, para minha alegria, Comunicação e Expressão se desmembrou em Gramática, Literatura e Redação. Três vivas para o ginásio!

Pois todas estas matérias nos foram entregues engradadas, num charmoso horário (ok, não passava de um papel xerocado). Mais que depressa colei o horário na minha fabulosa agenda (outra novidade de ginásio). Logo depois, descobri que a agenda tinha um espaço para o tal horário. Culpa da inexperiência. Então, copiei tudo de novo, dessa vez no próprio papel da brochura, tomando o cuidado e o capricho de fazer uma disciplina de cada cor – cortesia de minha caneta 10 cores.

Além da indispensável caneta 10 cores – eu queria aproveitar todas as opções possíveis depois de esperar quatro anos para usar uma esferográfica – a lista de material ainda incluía novidades bem pesadas. Cada uma das matérias exigia, é claro, um grosso (para os padrões que eu conhecia até então) livro didático. Eu abria a última página de cada um, maravilhada: “nossa, tem mais de 100 folhas! Como vamos terminar tudo isso?”.

Os caderninhos de brochura, encapados com papel dobradura e plástico só para, mais tarde, serem destroçados dia a dia no primário, também foram substituídos. Agora era a vez dos enormes e espiraludos cadernos universitários. Demorava à beça para encher uma página. E a denominação imprimia ainda mais sofisticação ao meu novo estilo de vida. Havia ali, entre aquelas carteiras azuis (que agora tampouco eram as mesmas dos anos passados) algo de... de... faculdade!

Fomos instruídos sobre outras novidades incríveis. Para irmos ao recr..., ops, intervalo, soaria um sinal e deveríamos descer so-zi-nhos! Nada de fila atrás da tia. Uau. Estávamos grandes mesmo... Além disso, as provas não precisariam mais ser copiadas da lousa, em folha de almaço. Nem teríamos a sexta-feira para pintar a capinha das avaliações. Agora, responderíamos a folhas xerocadas – o mimeógrafo também dançara.

Logo percebi que estar no ginásio acarretava outras mudanças sobre as quais ninguém tinha avisado. Andar sem a blusa amarrada na cintura era só para as meninas mais “dadas” (código besta, não?). Distrair-se e tascar um enfeitinho no caderno, entre uma atividade e outra, era morte certa. Se alguém visse, você seria tachado de crianção. Ter sua mãe te levando pela mão até a porta, então, equivalia a assinar a declaração de ruína de uma promissora e agitada vida social pré-adolescente.

Era um mundo duro e a adaptação a ele ia daquele jeito – entre uma aula de Desenho Geométrico, em que tudo que aprendi foi manejar o compasso para copiar famigeradas rosáceas e tentar concordar implacáveis arcos e retas – e outra de Gramática, na qual líamos textos que depois seriam interpretados e analisados sintática e morfologicamente. Pelo menos, quando entrava qualquer professora do núcleo outrora conhecido por Comunicação e Expressão, eu me sentia em casa.

Em Gramática, respondíamos a exercícios que nos faziam mudar uma mesma sentença em três ou quatro formas diferentes. Assim, ó: “Ontem passei um bom dia”; “Passei, ontem, um bom dia”; “Passei um bom dia ontem”, até que eu ficava meio louca e escrevia coisas como “Dia, passei um bom ontem”. Na época, achava isso quase tão ruim quanto ter doze anos e nenhum sinal de peito. Hoje vejo que esse exercício, que se chamava “A Frase e Seus Segredos” e se repetia a cada lição do meu “Texto e Contexto”, foi deveras útil.

Isso, junto a bobeiras como a coleção de rabiscos feitos na agenda com corretivo, intitulados “Arte em Branquinho” (a série ia do I ao VIII e era confeccionada nas aulas vagas), são alguns dos feitos que mais me despertam saudades do cruel-mas-superável ginásio. Some-se a tanto amizades descobertas, paqueras frustradas – ou não – e a experiência de que a sensação de deslocamento passa. Inclusive porque, um dia, a gente se desloca dali. Ou “Porque, inclusive, dali um dia a gente se desloca”. Ou “Se dia, inclusive, desloca a gente um porque dali”.

E haja preparação para o colégio, ao qual só os fortes sobrevivem.


Clara McFly às 10:24 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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