segunda-feira, 9 de maio de 2005

Travestis da sétima arte

Como dizem os vovôs que sofreram muito durante guerras e se tornaram pessoas endurecidas, artista é tudo malandro. Tudo gente safada. Eu não boto minha mão no fogo por nenhum deles. Opa, encosto, sai deste corpinho que não te pertence! Os vovôs podem acreditar nisso, mas não eu. Adoro quando atores ou atrizes se dispõem a largar o orgulho de lado e, digamos, “passar para o outro lado”. Homem vestido de mulher, mulher vestida de homem... Artista é tudo safado mesmo – o que é hilário!

O fenômeno fica engraçado por si só, mas ganha requintes em certas situações. É fato: quanto mais sério, renomado ou heterossexual o ator, mais divertida se torna a transmutação no sexo oposto. Ou alguém aí imaginava que Patrick Swayze, pilar dos “macho-pacas-mas-com-guinga-sexy”, ficaria tão interessante como a senhora Vida Boheme em “Para Wong Foo”? Ou mesmo Wesley Snipes, que dispensou as espadas afiadas de Blade e soltou toda a franga possível no mesmo filme?

Eu passo mal com essas variações de menino/ menina/ menino de novo/ quem sabe menina. Fico imaginando que, para um ator, deve ser o fino do profissionalismo interpretar com seriedade mesmo calçando salto alto. Ou para as moças, que abandonam vestidos, rapam o cabelo em estilo soldado e tentam engrossar a voz. Nunca dá muito certo – o que fica óbvio apenas para quem está na poltrona do cinema, pois os demais personagens parecem nem notar a falta do gogó ou pernas peludas debaixo da meia-calça.

Rapazes, quase sempre, precisam virar mocinha para conseguir um trabalho, cumprir uma promessa ou fugir de marido ciumento. Garotas tendem a envergar terno para provar seu valor junto ao outro gênero. As histórias são manjadas, mas não importa. Legal mesmo é notar as mutações sórdidas, sentar e seguir pensando “quando será que vão descobrir tudo?”. Nestes casos, os meus prediletos, demorou um bocado...

Julie Andrews em “Victor ou Victoria”
Ela era uma linda moça que precisou se travestir de rapaz para conseguir um papel em que fazia uma moça. Confusão instalada, claro. O mais curioso é que Julie, aquela pérola em forma de mulher, não poderia enganar nem mesmo ao Steve Wonder! Com o rosto de boneca, ficou o cara mais feminino do planeta. Victor, gente? Ah, por favor, estava na cara que era Victoria!

Johnny Depp em “Ed Wood”
Taí um caso em que não havia necessidade de usar vestido para fugir, trabalhar ou cumprir missão secreta. Era pura “coisa de artista”, como mencionava o pensamento retrógrado supracitado. Segundo a lenda, Ed Wood, o cineasta, curtia trajar artigos da seção feminina. Ao interpretar o malucão, Depp precisou fazer o mesmo. E não é que ficou uma gatinha?

Robin Williams em “Uma Babá Quase Perfeita”
Sempre capaz de levar a comédia às últimas conseqüências, Williams não se importou de transformar o pai de família Daniel em Euphegenia Doubtfire, simpática babá e governanta. Ficou clássica a cena dele(a) queimando os peitos no fogão e apagando com as tampas de panela. Pode chamar de tonta, mas eu me apaixonei por aquela velhinha.

Dustin Hoffman em “Tootsie”
O filme foi lançado em 1982, quando eu contava apenas sete anos. Pois não é que acreditei piamente, durante tempos, que Michael Dorsey e Dorothy Michaels eram pessoas diferentes? Ninguém podia me convencer de que havia um homem por trás daquela atriz feia pra danar. Dustin Hoffman é um dos meus atores preferidos. Mas ele dá uma mulher horrenda, cruz credo.

Jack Lemmon e Tony Curtis em “Quanto Mais Quente Melhor”
Quem iria acreditar, em 1959, que Curtis e Lemmon eram dois homens respeitáveis e seguros de sua opção sexual? Vestidos de coquetes nesta jóia do cinema, eles podiam enganar qualquer um – até Marylin Monroe. Como Josephine e Daphne, Joe e Jerry embarcam na turnê musical de um grupo de garotas. Estão fugindo de mafiosos e, ao mesmo tempo, descolando trabalho como tocadores de saxofone e contrabaixo. Nas horas vagas, aproveitam para se deliciar no vestiário feminino ou promover saborosas briguinhas de travesseiro com as meninas. Em certo momento, “Daphne” diz ao outro que foi pedida em casamento. E quando Joe pergunta “quem é a garota de sorte”, “a louca” responde “sou eu, ora!”. Às vezes a brincadeira sobe à cabeça... Mas vá explicar isso aos vovôs ranhetas...

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Mas eram dois moços tão bonitos e com saúde...
Pelamadrugada...

Fla Wonka às 10:46 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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