sexta-feira, 6 de maio de 2005

Vá nos Rafaéis

Faz uns quatro meses que tive hóspedes aqui em casa. Não, não era o rato. Muito pelo contrário, eram visitantes muito bem-vindas. Patrícia e Aline, primas do namorido com 12 e 13 anos respectivamente, vieram de uma cidade do interior e se assentaram aqui por uma semana. Nosso dia-a-dia era bem de férias, entremeado de programinhas e tours de carro. Patrícia é uma menina linda, morena, com um ar discreto e um sorriso delicioso. Aline não fica atrás, com uns olhos azuis de doer e uma cabeça distraidíssima. Gracinhas, as duas me acordavam de manhã depois de ter lavado a louça. Ainda por cima são prendadas, como diria minha avó.

No final da semana, como eu já tinha de trabalhar, elas ficavam a maior parte do tempo na piscina. E, no penúltimo dia, arrumaram um amigo. As duas estavam no chuveiro, depois da piscina, quando me aparece na porta um menino bem à la Harry Potter: de óculos, tímido e muito educado, ele perguntou se Aline e Patrícia podiam ir brincar.

Diante da minha cara de interrogação, se apresentou. Disse que se chamava Rafael e tinha conhecido as duas na piscina. Passei por um rápido flashback. Alguns anos atrás, era eu que me via plantada na porta da casa das minhas amiguinhas, pedindo às mães delas que as deixasse brincar comigo. Pisquei os olhos para voltar ao presente e disse ao Rafael que elas estavam no banho, mas eu podia avisá-las e, se ele quisesse, podia esperar. “Entra, Rafael”, convidei.

Ele, muito educada e timidamente, disse que esperava ali na porta mesmo. Falou que minha casa era bonita. Completou que havia se mudado, há pouco, de São Paulo, e tinha uma irmã menor cujo nome me escapa agora. As meninas ficaram prontas e lá se foram, porta afora, brincar com aquele garoto que apareceu na minha casa tão desarmado. De quebra, levaram alguns dos meus jogos de tabuleiro.

Quando os três saíram, fiquei pensando que o Rafa-Harry-Potter era o tipo de menino simpático, sincero e bacana que eu queria ter como amiguinho na infância. Pensando bem, eu tive um Rafael. Ele se chamava Leli, corruptela de um impronunciável Wesler, e sabia conversar e respeitar os outros, ao contrário do bando de garotos chatos e grosseiros que reinavam na escola. Baseando a comparação no cinema-pipoca, o Rafael e o Leli são garotos como o Matthew, de “De Repente 30”. Quem assistiu vai entender mais facilmente.

O Rafael é dessa espécie de menino que, justamente por suas maneiras, talvez não se dê muito bem no quesito popularidade escolar. Não que eles sejam bobões, travados ou fechados demais. São apenas guris que, por alguma razão, enfrentam as inseguranças da pré-adolescência sem se armar de uma carapuça xingalhona, chata e agressiva –“qualidades” estas endossadas por aqueles meninos popularíssimos, por quem todas as garotas se apaixonam. E quebram a cara.

Minha primeira paixão pré-adolescente escolar foi por um rapazote meio a meio (sem duplo sentido). Ele era um pouco Rafael (comigo), um pouco chatola (com o colégio). Depois, fui caindo na besteira de descambar as minhas paixonites agudas para o lado dos “populares”. E, claro, quebrando a cara toda vez – ou sendo sumariamente ignorada pelos bonitões, ou conseguindo alguma coisa só para logo notar que, de perto, de bonitões eles não tinham nada. Até que cresci e percebi que o que pega mesmo são os Rafaéis. Ainda bem que saquei a tempo de me casar com um deles.

Do outro lado da ciranda, estão os Rafaéis de saias. No caso das meninas, não é ser bem-educada que as faz passarem batidas no jogo do romance juvenil. Isso já é esperado de cada serzinho com cromossomos XX desde que eles abandonam as fraldas. O problema para nós é o humor. Parece que os homens não são lá muito fãs de garotas engraçadas. Pelo menos não enquanto eles têm à disposição moçoilas de saias mais curtas e peitos mais adiantados. Talvez mais tarde essas criaturas acabem por mudar de idéia. Melhor para eles, pelo simples fato de que peito, por mais que se adie, cai; presença de espírito, não.

Na manhã seguinte, Rafael bateu de novo à minha porta. Riscando o chão com a ponta do tênis, pediu que as meninas ficassem mais um dia. Expliquei para ele que elas voltariam para casa de carona com um tio, e que ele só poderia mesmo levá-las na data marcada. Eu não podia fazer nada. Mas prometi que, nas férias de julho, elas já estavam mais que convidadas para voltar – e eles poderiam brincar desde o primeiro dia (por que diabos a gente sempre faz amizade com alguém realmente legal no fim das férias?).

Quando falei para o namorido sobre o estranho pedido do novo amigo das primas, ele vaticinou: “o garoto está apaixonado. Só resta saber por qual das duas”. Bom, para isso teremos que esperar até julho. Só sei que, se alguma delas me pedir um conselho, a frase está na ponta da língua – para elas e para quaisquer outras meninas: “vá nos Rafaéis”!


Clara McFly às 11:11 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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