quinta-feira, 5 de maio de 2005

Quando eu vier como eles

Se reencarnação existe ou não, a mim pouco importa. Estou me obrigando a acreditar nela de qualquer jeito, mesmo que o mais sério cientista prove o contrário. Ter a certeza hindu de que a próxima vida sempre vem é uma maravilha! Imagine o tanto de coisas que podemos sonhar fazer, mudar! Na encarnação vindoura, que acontecerá logo depois desta aqui, eu acho que seria bom vir como um rapaz, em vez de garota.

Os motivos escorrem pelo ladrão. O primeiro e mais óbvio é este: agora que já sei como é ser menina, quero explorar o outro lado. Lógico, preciso ser imparcial. Porque, por mais que divulguem a igualdade dos sexos, a gente sabe que, na prática, a teoria é bem outra. Então nada mais correto do que checar os dois lados dessa história.

Quando eu vier menino, já tenho metas a cumprir e situações a remediar (baseada em tudo o que conheço do lado feminino, digamos que tenho um bom material pesquisado). E vou começar cedo, logo nos bancos escolares.

Se a menininha da carteira à frente olhar para mim mais do que três vezes em uma aula, vou saber: ela quer papo, me acha simpático, quer ser amiga. Não vou puxar suas tranças, roubar seu suco e muito menos levantar a saia dela no meio do pátio. Sim, seria divertido rir disso entre os meus amigos marginais-mirins, mas não vou fazer. Vou ser gentil e me oferecer para segurar a mochila dela na saída. Só para começar a vida social com fama de cavalheiro.

Mais crescidinho, decidi cair de verdade no gosto das garotas. No baile da escola, tirarei para dançar a menina mais desengonçada da classe. Que se dane se ela pisará no meu pé ou seu aparelho irá enganchar na minha camisa. Aposto que a esquisita vai gostar, ganhar confiança e se tornar alguém mais despachado.Tudo por minha santa culpa.

E meu cartaz só vai crescer com o gênero oposto nos anos seguintes. Diabos! Eu serei o único rapaz a ligar para a namorada duas vezes ao dia. O único a marcar uma hora para pegá-la e não me atrasar porque estava vendo jogo do Inter de Itapipoca com o Grêmio Recreativo de Três Coroas. O único a dizer que a amo na frente de todo mundo – quem sabe até único a lacrimejar quando diz isso, se conseguir... Ou aí já seria demais e ela saberia que fui menina na outra encarnação?

Nas horas vagas, enquanto não estiver sendo o melhor cara do planeta, farei tudo para aproveitar o que a masculinidade tem de bom. Vou deixar crescer a barba e cortá-la de formas piradas, um dia imitando Fidel Castro e, no outro, o Abrahan Lincoln. Vou sentar de perna aberta, folgadão. Farei xixi de pé, meu deus, xixi de pé! Nunca mais terei problemas com banheiros públicos imundos!

Será uma loucura, o nirvana. No calor, posso tirar a camisa no meio da rua sem ser tachado de exibicionista. No frio, uso apenas uma malha leve e nem congelo – afinal, serei um sujeito macho pacas. Poderei correr várias quadras sem perder o fôlego, erguer caixas com mais de 5 kg acima da cabeça e chutar uma bola sem que ela vire uma besta-fera a se atirar contra mim. Ser menino é mesmo uma alegria.

Eu sei, não vai mais dar para chorar vendo novela. Nem conseguir as coisas que quero apenas fazendo beicinho ou emburrando suavemente. No dia do meu casamento, serei apenas aquele bocó vestido como o garçom, e não uma linda princesa de vestido rodado. Droga.

Ei... também não vou ter meus bebês, apenas acompanhar do lado! E nem vou organizar uma agenda cheia de badulaques ou uma caixa lotada de lembranças... Ai! E ninguém vai abrir a porta do carro para mim, e nem serei chamada de “gatinha linda do papai” para todo o sempre!

Pensando bem, agora, talvez seja melhor deixar a próxima encarnação como uma surpresa. E, se por acaso provarem mesmo a existência dela, minha opção pode continuar como a de hoje? Eu nem sou tão imparcial assim, poxa...

Fla Wonka às 10:29 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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· Vivi Griswold