quarta-feira, 4 de maio de 2005

Calçada gourmet

Quando eu era pequena e começava a dar minhas primeiras andadas solo pelo bairro, além dos avisos usuais de "não converse com estranhos" e "olhe para os dois lados antes de atravessar", minha mãe sempre dizia: "não vá comer nada na rua, hein, menina?". Obviamente, ela não estava se referindo a pegar restos de comida pelo calçamento, como fazia um amigo meu (aliás, o infante se empanturrava com pipoca de macumba e ainda achava o máximo a iguaria ser gratuita). Minha sapientíssima genitora alertava-me sobre os muitos perigos da culinária vendida em barracas e carriolas ali, no meio do passeio público.

Se segui aqueles conselhos? Por um tempo, sim. Mas, um belo dia, algo aconteceu. Caminhava do ponto de ônibus para casa quando, de repente, minhas narinas foram invadidas por um fumacê. A nuvem, espessa e escura, abriu meu apetite e me fez seguir, flutuando, até uma pequenina churrasqueira na frente de um boteco. Um trocado por um espeto de carne temperada! E ainda tinha farinha! Tudo bem: hoje eu sei que a carne deve ter vindo de um amigo felino, o tempero continha fuligem do escapamento dos automóveis e a farinha, provavelmente, era resultado da varredura do chão do distinto estabelecimento.

Apesar de nunca mais ter consumido um filé "miau", confesso que continuo sendo admiradora fiel dos quitutes de calçada. Afinal, quando a fome bate, o vento sopra trazendo aquele aroma enebriante, o ponto culinário aparece no meio dos camelôs e você possui apenas um punhado de moedas no bolso, a preocupação com higiene e procedência consegue ficar em segundo plano. Você pensa "ah, só dessa vez, vá?" e acaba cedendo. Eu, pelo menos, me rendo, sem culpa, aos populares quitutes abaixo!

1) Pipoca
Outro dia, enquanto forrava meu estômago com o conteúdo daquele saco engordurado escrito "Pipocão", pensava: por que diabos pago 10 reais dentro do cinema se ali na rua a mesma quantidade custa 2 reais? E ainda tem o imperdível molho de pimenta para botar em cima?

2) Maçã do amor
Além de delicioso, o doce é lindo, romântico e, vou ser honesta, a única forma de alguém me ver comendo maçã que não seja da Mônica. Porém, se antes não conseguia resistir àquelas bolotas vermelhas enfiadas no palito, agora preciso me conter. Maltido aparelho ortodôntico!

3) Cachorro-quente
O tio do carrinho não usa luva. O pão já está fazendo aniversário. A água da salsicha é mais vermelha que meu cabelo. O repolho do "vinagrete" bóia murcho. Mesmo assim, sempre acabo pedindo um dogão de rua. E pior: peço com desenvoltura para o moço caprichar no purê!

4) Tapioca
Meu ponto de tapioca favorito vive lotado. O culinarista faz a massa em uma panelinha enegrecida, joga-a em uma frigideira e, em cima, coloca Leite Moça (quer dizer, a lata é Leite Moça, mas o conteúdo, vai saber...). No final, temos um doce borrachudo ao preço de um passe.

5) Milho verde
Milho verde, para mim, tem gosto das minhas férias infantis passadas na praia. E precisa ser milho comprado na rua, pois aquele cozido em casa não conta com um detalhe importantíssimo: a "capinha" natural feita com a própria folha. De sobremesa, na barraquinha sempre há pamonha também!

6) Coquinho
Eu não sei qual é o nome certo daquilo. Vamos ver se consigo descrever: é um doce feito de coco, em pedacinhos. Cada um deles parece ser glaçado e, quando você solicita o quitute, o atendente enche um saquinho. Daí você põe um na boca e já enjoa na primeira dentada. Sabe qual é?

7) Pastel
Unanimidade no quesito culinária de rua: não há a menor graça em comer pastel nas lanchonetes fechadas e higienizadas. Tem que ser ali, em pé, no meio de um monte de transeuntes. Tem que engordurar o dedo e tentar limpá-lo com guardanapos ruins e sujar a boca com queijo derretido.

8) Calabreza
Sim, porque calabresa de calçada é calabreZa. Se estiver escrito de forma correta, desconfie. Aposto que não será tão gostosa quanto aquela da grafia popular. O essencial, no entanto, é comer de olhos fechados - não tente olhar para a fritura, pois você corre o risco de amarelar.

9) Amendoim doce
Normalmente, os pacotinhos de amendoim com aquela casca doce e crocante são vendidos junto com os de coquinho. Aliás, barraca de doce na rua é sempre uma grande festa: tem paçoca (daquela quadrada, mais densa), doce de abóbora em formato de coração e pé-de-moleque.

10) Churros
Como você deve saber, churros é deveras engordante: une fritura, doce de leite, massa e açúcar em volta. Isso, somado à qualidade sempre duvidosa do óleo utilizado pelas carrocinhas, fazem dessa popular vedete das calçadas um perigo para os estômagos fracos.

Mas dá para resistir?

churros.jpg
Tio, me vê um com bastante recheio, hein?!



Vivi Griswold às 10:27 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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· Flá Wonka
· Vivi Griswold