terça-feira, 3 de maio de 2005

Você tem medo de quê?

Tem gente que, ao conhecer alguém, gosta de saber qual o signo do novo interlocutor. Outros preferem perguntar das bandas e filmes favoritos do sujeito. Há quem priorize, ainda, saber onde a pessoa cresceu e estudou. Tudo para tentar captar com que tipo de gente (ou gentalha) estamos lidando e se vale a pena (ou nem por decreto) virar amigo da pessoa. Mas eu tenho um outro caminho.

A melhor maneira de conhecer alguém a fundo é... o tempo. Não há meio de ter completa consciência de outrem a não ser o sabendo há muitos, muitos calendários. Eu, por exemplo, me conheço há 27 anos, e ainda não sei tudo de mim!

Já a segunda melhor maneira, em minha (i)modesta opinião, é saber o que a pessoa teme. Todo mundo morre de amores e de pavores por umas e outras coisas, mas o costume é polir seus gostos e abafar seus medos. Pois são justamente estas pistas mais escondidas que dão a dica de quem, afinal, é esse mané à minha frente.

O mané à sua frente eu não sei, mas esta mané do outro lado da tela tem um monte de paúras, pânicos, temores, sustos e receios, em toda sua gama de intensidade. Sim, eu tenho medo de...

... perder a mão e nunca mais acertar um texto, um bolo ou um conselho.

... perder a memória e nunca mais saber quem é aquela fada loira que me visita com freqüência.

... capotar o carro num acidente espetacular e... perder a memória (veja item acima).

... me perder para sempre e não conseguir jamais voltar para casa (não ria, comigo tudo pode acontecer).

... achar um bebê na porta e não poder ficar com ele. Pensando bem, achar um bebê na porta já seria medonho o suficiente.

... botar fogo numa lata de lixo com a bituca do cigarro e depois ter de me explicar.

... deixar a janela aberta ao sair para passar um dia inteiro fora – e ver cair uma daquelas tempestades homéricas só imaginando o estrago, sem poder fazer nada.

... atropelar bichinhos, esses pobres que zanzeiam por aí sem eira, beira ou noção de atravessar na faixa.

... ser levada pela correnteza e ir parar em alto-mar, tão longe que não se veja um isso de terra.

... esquecer o lugar do carro no estacionamento e ter de esperar todo mundo sair, além de mobilizar um guarda a cada andar, para encontrar.

... ser encurralada pelo rato, em busca de vingança, em algum canto da casa enquanto estou sozinha.

... topar com o Duende e ver o infame serzinho roubar todos os meus sapatos.

... topar com o João Kleber e ver o infame serzinho... ah, basta topar com ele.

... ficar presa no elevador com o Christopher Walken e ver aquele cabeção gigante se aproximar.

... deixar o carro rolar – note bem: rolar, não descer – para trás numa ladeira muito muito íngreme e não poder fazer nada contra a força da gravidade (sempre tenho essa fantasia em subidas muito acentuadas).

... acordar num buraco e descobrir que as formigas cavaram um mega-formigueiro debaixo de meu doce lar.

... ser mal compreendida e, depois, ter de enfrentar todos os contratempos que um engano traz (tenho verdadeira paúra de ser mal compreendida, na verdade).

... assistir ao Gato Félix e aquela gargalhada facínora que sempre se repete ao final dos desenhos.

... encontrar monstros debaixo da cama e eles não serem simpáticos e azuis como o Sulley de "Monstros S.A.". Podem ser aranhas gigantes ou sapos, também.

... calçar o sapato e perceber que esmaguei uma incauta barata que fizera morada lá dentro. Irc!


E você, leitor? Tem medo de quê?

Clara McFly às 11:16 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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