segunda-feira, 2 de maio de 2005

Um declive e tanto

Quando eu era pequena, poucas coisas eram capazes de me deixar tão entusiasmada quanto a Serra do Mar. Tudo bem, a verdade é que eu não dava a menor pelota para a serra em si, sua mata virgem ou o aspecto sócio-ambiental da coisa. Aquela porção montanhosa era tão querida somente por um motivo: ligava minha cinzenta, boboca e humilde São Bernardo ao ensolarado, divertido e esplendoroso litoral paulista. A viagem levava apenas uma hora, mas era uma vida de alegria.

Alegria para mim, evidente. Meus pais começavam a bufar só de pensar em equipar o carro para dar início ao percurso. Eu não entendia a razão de tanto aborrecimento naqueles tempos. Hoje sei porque o trajeto era uma festa para crianças e uma provação para os adultos. Tudo questão de perspectiva, claro.

Começava pelo trânsito. Nem precisava ser feriado, começo de férias, época de festas natalinas. A estrada era um entupimento eterno, sempre a apresentar acidentes, caminhões, fila no pedágio. Podia ser sexta-feira às 3h00 da madrugada: encontrar centenas de carros lotados de gente praieira como nós era facílimo.

Para os meus pacientes pais, ficar preso em um automóvel, dentro do congestionamento, com três petizes chatos, era um trauma. Para nós, um deleite. Eu é que não me importava com o aperto, o calor, as migalhas de biscoito no estofado novo do carro do velhinho. Já o velhinho... Por que meu pai nunca nos largou no acostamento, para sermos comidos pelas feras?

Decididos a passar pelo trânsito, o jeito era encarar tudo com animação. Repito: tudo. Na minha concepção de mundo, criança só é criança se um dia ficou dentro do carro contando os postes lá fora ou fazendo joguinho com as placas dos demais veículos. Nós fazíamos isso para matar o tempo – que nunca se resumia a tal uma hora hipotética de percurso.

Descer a serra tinha surpresas guardadas, literalmente, em cada curva. Até na Curva da Onça, a mais fechada e arriscada de todas. Ali se concentravam vendedores de comida, por exemplo. Então, quilômetros antes da manobra, eu já iniciava a pentelhação para comprar queijadinha, milho verde ou qualquer diabo disponível. O “não” era comum. O “não, cala a boca e senta a bunda nesse banco agora!” era mais comum ainda...

Para aplacar meu mal-humor, mamãe sempre tinha estratégias. E eram estratégias enormes, verdadeiras obras de engenharia. Os túneis alojados na Serra do Mar, se não me engano, são nove. Alguns longos, onde a luz do sol some por completo. Outros curtinhos, até meio ridículos, típicos de Paulo Maluf querendo superfaturar projeto. Em qualquer um deles, nós tínhamos que ficar espertos para a “hora de dormir” e a “hora de acordar”.

Era isso que gritávamos quando o túnel se aproximava. Entrando na caverna de alvenaria, todo mundo tinha que fingir pegar no sono e se jogar contra o banco de olhos fechados. Na saída, o berro de “hora de acordar” fazia a macacada na mamãe ficar animadinha de novo, espreguiçando e simulando um despertar. Brincadeira besta, não? Mas sabe que faço até hoje? Pena estar sempre ao volante, o que estraga um pouco a “hora de dormir”.

Outra forma de distrair era procurar cachoeiras. Ô serra para ter quedas d’água, minha nossa! Bastava fixar os olhos no morro e aguçar os ouvidos e era bico encontrar rios se atirando das pedras. Também era bem fácil achar vários Fuscas e Brasílias de motor fervido, a encher garrafas de coca vazias para dar de beber ao radiador.

Nessa hora, o mais gostoso era meter a cabeça para fora da janela e gritar “Pois é!”, como fazia o Ari Toledo na propaganda da Vimave – e depois rezar para nosso próprio carro não quebrar e o dono do calhambeque vir tomar satisfação. Ótimos tempos aqueles em que Fusca era carinhosamente chamado de “poisé”, que a concessionária Vimave ainda existia e que o Ari Toledo era engraçado.

Passadas cerca de duas horas e meia, conseguíamos finalmente alcançar o mar. A vista observada lá de cima, da mesma Curva da Onça, já havia revelado o sol gostoso da praia, então era questão de tempo até os pezinhos deixarem o tênis e tocarem a areia. O objetivo tinha sido cumprido: vencêramos a Serra do Mar e seus percalços para molhar o traseiro branco na água salgada!

Hoje penso muito mais na essencial Mata Atlântica, na ocupação desenfreada das encostas, da poluição das cachoeiras e no impacto ambiental da nova estrada. A Serra do Mar perdeu um pouco o charme com tudo isso, mas nunca vai deixar de ser sinônimo de viagem divertida. Na verdade, estou pensando em pegar o rumo do litoral e contar uns postes, comprar umas queijadinhas, sacanear com uns donos de Fusca. Tomara que estejam todos lá.

Anchieta.jpg
Uma estrada, muita diversão

Fla Wonka às 11:00 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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