terça-feira, 19 de abril de 2005

Um grande garoto

Vejo um bracinho, meia cabeça e meia barriga vestida de amarelo pela porta da cozinha. Escuto alguns gritinhos e um “shhh!”. Ouço a voz do pai dele: “tá escondido, filho?” Hum. Já entendi. Digo bem alto: “Ai, que saudades do Caetano, viu? Como seria bom se ele aparecesse aqui em casa, né, Douglas?”. E, de repente, sai detrás da porta aquele toquinho de gente que eu estava esperando: “Madinha, eu tô aqui! Vamo brincá?”. Essa é a senha para um dia que vai terminar com peças de brinquedo pelo chão, marcas de mãos nas paredes e uma madrinha orgulhosa, exausta e muito feliz.

O Caetano é meu afilhado e está a três meses de completar quatro anos. Ele fala com objetos inanimados. Ele ri aquelas gargalhadas de criança, de perder o fôlego. Ele adora o Chaplin, mas não consegue chamá-lo de outro nome que não “Chápelen”. Ele acha que eu me chamo Madrinha. E, quando disseram que eu me chamava Clarissa, ele passou a achar que o padrinho só podia se chamar... Clarisso, lógico.

Pensando bem, ele não é mais um toco de gente. Aliás, nunca foi. Nascido com respeitosos 4,6 quilos, tinha dobras até na carinha. Agora, está na idade do “eu não sou mais bebê”. Para prová-lo, quer me ajudar a fazer café, a lavar a louça e a preparar seus próprios sanduíches de presunto (que, na verdade, são de peito de peru, mas usamos da tática de chamar de presunto porque ele tem gostos e personalidade bem definidos e adora presunto. Ainda bem que o discernimento do seu paladar ainda não é tão bom).

Do dia de seu nascimento para cá, Caetano já ganhou 18 novos quilos. Dessa maneira, ele pesa metade do que eu peso. Mas aparentemente não tem noção disso: se joga em cima de mim, rola pelo sofá esperando que eu o segure e quer brincar de luta. Adora o Homem Aranha e diz que é ele. Eu pergunto, então, quem é o Peter Parker. Ele diz: “o Homem Aranha”. Eu digo: “então, como você é o Homem Aranha?”. Ele termina a conversa muito determinado: “eu sou o Homem Aranha Caetano, ué”. Ah, bom. Agora entendi.

Caetano tem uma teoria para tudo, como toda criança de sua idade. Os adultos é que são tontos de achar que os petizes não sabem nada. Achamos que, por tais teorias não corresponderem exatamente à lógica da realidade, não são dignas de nota. Besteira! Ele não pensa nada sem uma lógica – ainda que própria.

Uma vez apontei para uma foto dele do dia do batizado, colocada em cima da estante: “Quem é aquele?”. “Sou eu, mas agora eu não sou mais bebê”. Continuei: “É verdade, agora você cresceu. Mas eu te conheço desde quando você era bebê. E, quando você era bebê, não sabia andar nem falar. A gente tinha que carregar você para todo lado e sua mãe tinha que adivinhar porque você chorava”.

No dia seguinte, foi um sacrifício para a Carla convencê-lo de que ele tinha pés, sim, quando era bebê. Acreditando em meu testemunho de que não andava quando pequeno, ele imaginou que tal limitação só podia se dever ao fato de que... ele não tinha pés, oras. Eles devem ter crescido depois.

Apesar de ainda não compreender por completo o mundo dos adultos – e, vamos convir, somos mesmo cheios de hábitos e convenções surreais – Caetano é bem capaz de aprender rapidamente uma brincadeira qualquer. Inventamos uma assim: primeiro, eu tenho que adivinhar o nome da mãe dele. Então, começo chutando os nomes mais descabidos.

“Ermenegilda?”
“Nããão!”
“Marildinha?”
“Nããão!”
“Joaquina?”
“Nããão!”
“Florisbela?”
“Nããão!”

Quando ele está respondendo no automático, solto: “Carla?”. E ele: “Nããão!”. Então, enquanto Caetano percebe que errou e começa a fazer cara de gargalhada, dou uma piscadinha e falo: “te peguei!”. Rimos juntos. Depois, ele quer fazer comigo. “Me ensina, madinha?”. Mas o detalhe é que ele não sabe o nome da minha mãe. E, na falta de repertório, coloca como alternativas de nomes tudo que seus olhos encontram: “o nome da sua mãe é... sofá?!”

Aliás, ele se espantou quando descobriu que eu tinha mãe. No primeiro dia do ano, fomos até a casa dele. Eu perguntei se o Ano Novo já tinha passado. Ele disse: “já, foi amanhã”, cometendo um dos deslizes mais tradicionais da idade. Eu perguntei onde ele estava quando o Ano chegou. Ele contou que estava lá no apartamento mesmo. Então, falei que eu estava na casa da minha mãe.

O pequeno me fitou com os olhos azuis tão abertos que quase dobraram de tamanho: “você tem mãe?!”. “Claro que tenho”, e completei: “Sua mãe não é a Carla? E quem é mãe da Carla?”. Ele pensou um cadim e rebateu: “a vovó Ana”. “E seu pai não é o Cássio? E quem é mãe do Cássio?” “A vovó Regina”. Concluí: “tá vendo? Gente grande também tem mãe”. Ele aceitou a explicação. Porque, para crianças nessa idade, há que se provar por A mais B qualquer ponto. Eles não são bobos para aceitar qualquer balela à guisa de explicação.

Vai ver por isso o Caetano se espantou tanto com uma pergunta ingênua do Douglas. Certa feita, ele estava sassaricando aqui em casa quando bateu vontade de fazer xixi. Nós nunca tínhamos levado o rapazote ao banheiro. Seria a primeira vez. Então, o Douglas perguntou como ele fazia xixi. Imaginamos que ele ia dizer “de pé”, “sentado” ou “você tem que abrir a torneira”. Mas eis que ele replica, surpreso: “com o pipi, ué!”.

Depois dessa, me lembrei porque eu gosto tanto da companhia de crianças. Não é porque elas são cabeçudas e inspiram fofura em suas proporções, planejadas pela Natureza para isso mesmo. É porque elas oferecem aos nossos cansados olhos uma oportunidade de enxergar sob outra perspectiva – e de ver o mundo com idéias frescas, surpreendentes assim.

caetano-no-gira.jpg
Ele não é mais bebê
Clara McFly às 04:56 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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