quinta-feira, 14 de abril de 2005

O Pop é Pop

Especial de Aniversário - Rapazes convidados

Alguns dos melhores momentos da vida ocorrem quando estamos em uma roda de amigos, em conversas que fluem animadamente por horas e horas. Se em uma mesa de bar, melhor ainda, embora seja preciso fazer a ressalva de que os bate-papos mais "aproveitáveis" só rolarão enquanto a quantidade de álcool ingerida possibilitar um nível de consciência suficiente para que a conversa não descambe nos dois temas recorrentes a este Garoto que Diz Ni: futebol e mulheres.

Mas sobre o que conversamos com nossos camaradas quando não discorremos sobre nossas desventuras profissionais e desencontros amorosos? Cultura pop, é bóbvio! É fato: nesta era da informação, boa parte dos elos em comum que temos com nossos amigos provém das bancas de jornais, das telas de cinema, dos fones de ouvido, dos programas de TV, dos blogs e sites que visitamos.

Quantos de nós não fizeram amizades baseados nos gostos musicais, cinematográficos ou literários de alguém? Neste mundo maluco em que pessoas caminham apressadamente a esmo, encontram-se e desencontram-se pelos labirintos do dia-a-dia, tornam-se famosas por quinze minutos e depois são relegadas ao anonimato, o universo pop é uma espécie de eixo que auxilia extraviados a encontrarem seus pares. Eu, por exemplo, posso falar dos amigos que fiz a partir de gostos em comum, como acompanhar religiosamente os episódios de "Arquivo X" ou ir a shows dos Paralamas, assim como do dia em que meus olhos brilharam quando descobri que "aquela" menina também gostava de Hitchcock e Neil Gaiman. E, oras, quem nunca gravou um CD ou, no meu caso de balzaquiano, uma fita-cassete com suas músicas prediletas, torcendo para que aquela paquera gostasse das canções que fazem parte da trilha sonora de sua vida tanto quanto você?

Sim, um dia eu fui desses caras que, feito Charlie Brown, suspiraram pela garotinha ruiva que jamais soube que eu existia. Depois, nutri tórridas paixões platônicas pela Magri da Turma dos Karas, a Virginie do grupo Metrô, Molly Ringwald e, claro, a Luciana Vendramini. Também já saí do cinema sonhando em pegar uma carona no DeLorean do Marty McFly pra consertar algumas burradas que fiz, ou cantar "Twist and Shout" no meio da rua feito o Ferris Bueller. Ouvi Maria Bethânia pela primeira vez graças ao quadro antológico em que Didi Mocó interpretava a Terezinha da canção, e ainda guardo no bojo da memória diversos nomes de bandas de rock nacionais, como Omar e os Cianos, Detrito Federal, Vzyadoq Moe, Os Eletrodomésticos e O Espírito da Coisa.

Não sou ingênuo, porém, a ponto de incorrer na nostalgia burra de bradar que "bom mesmo era no meu tempo". Tenho plena consciência de que muita coisa que li, vi e ouvi naquela época é artisticamente nula. Mas por que então eu, e tantas pessoas de minha geração, consumimos tantas tranqueiras dos anos 80 com renovado prazer? Penso que é uma maneira que temos de reter nossas memórias e fazer com que lembremos como foi que nos transformamos nas pessoas que somos hoje. Afinal de contas, somos o que somos graças à somatória de experiências que vivenciamos: as histórias contadas por meu avô, o cheiro da merenda do recreio, a emoção do primeiro beijo, sons, texturas, vozes, leituras e lições que apreendemos do passado. O que não é pouco, ainda mais em tempos nos quais modas e tecnologias renovam-se vertiginosamente, turbilhando nosso cotidiano repleto de itens jogados precocemente no que Cazuza definiu como "museu de grandes novidades".

Na condição de leitor e fã de Vivi Griswold, Clara McFly e Flá Wonka, penso que um dos motivos deste site ser tão bacana e bem-sucedido é o fato dele ser despretensioso como as melhores canções pop, que falam de sentimentos comuns a todos nós com palavras simples e melodias assobiáveis, que grudam feito chiclete nos ouvidos. Porque são músicas como essas que ouvimos com os olhos fechados e fazem com que a gente resgate emoções e sensações de outras épocas no breve intervalo de alguns minutos. Porque assim é o site das Garotas que Dizem Ni, que conversam com seus leitores da mesma maneira com que entabulariam animadamente discussões sobre técnicas de pular com pogobol, livros de Agatha Christie, comédias do Monty Python ou o medo de se engasgar com balas Soft em uma conversa de mesa de bar.

- Garçom, mais uma rodada aí pra gente!

* * * * * *

Alexandre Inagaki desfia essas e outras no finíssimo Pensar Enlouquece. Pense Nisso e ainda arranja tempo para atuar em tantas frentes virtuais que nos faz desconfiar seriamente de sua existência como uma só pessoa no plano real. Obrigada, Ina!


às 02:22 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold