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Palavras de rara beleza Especial de Aniversário - Rapazes convidados Ninguém acredita quando eu conto, mas juro que é verdade: certa vez, há uns cinco anos, escutei claramente alguém dizer que precisava isquedular uma reunião. É. Estava no escritório, ouvi de passagem dois gerentes que conversavam no corredor: — Mas e aí, como a gente faz? — Liga pra mim amanhã, a gente pode isquedular pra qualquer dia desta semana. Isquedular, é claro, vem do inglês to schedule, "agendar", "programar". Eu isquedulo, tu isquedulas, ele isquedula, nós isquedulamos, vós isquedulais, eles isquedulam, eita! É bonito que é danado, não? Eu mesmo parei na hora o que estava fazendo para saborear o momento raro que é o nascimento de uma nova palavra. Aquele isquedular olhou em volta, ensaiou algumas batidas com suas asinhas, foi ganhando segurança e finalmente alçou vôo. No dia seguinte, todos no escritório já isquedulavam alegremente. Passei anos sem voltar a experimentar um momento de revelação como aquele. Até que, quatro meses atrás, comecei a trabalhar numa dessas empresas de consultoria. Ah, o paraíso! A variada gama de serviços prestados por essas companhias é mera fachada para sua verdadeira atividade, para sua real contribuição à humanidade, que é a de prover a todos palavras novinhas em folha, prenhes de significado. São verdadeiras chocadeiras de palavras: impactar nasceu nesses ninhos prestadores de serviços, assim como alavancar. Digam sinceramente: que reunião hoje em dia duraria mais de cinco minutos sem essas duas gemas preciosas? O que faríamos o dia inteiro se não tivéssemos reuniões excitantemente prolongadas por tanta gente alavancando daqui e impactando dali? Seria o caos, o apocalipse, o inferno. Felizmente podemos contar com esses homens e mulheres incansáveis na geração de novas preciosidades. E o horizonte à nossa frente é promissor. Enquanto você lê este texto, centenas, milhares de consultores trabalham sem descanso parindo termos de inegável beleza. Ofereço, por exemplo, duas palavras muito em voga nas empresas de consultoria, o que significa que em breve serão a coqueluche de todo o mundo corporativo: capilaridade e granularidade. Tirado de seu contexto, o sentido dessas palavras é bem óbvio. No entanto, quando se trata de uma reunião de negócios, são coringas de valor inestimável. Imagine-se por um momento numa sala de reuniões. O ambiente é hostil, e enquanto você fala todos olham com cenho franzido. Você já tentou falar em alavancar, em impactar, e nada. Pois bem: saque um desses novos termos da manga. Mas não de qualquer maneira, por favor! Há todo um gestual associado a cada um deles: ao dizer capilaridade, coloque as duas mãos fechadas à frente do corpo e vá estendendo os dedos e os braços lentamente, como uma flor desabrochando. Para granularidade, esfregue as pontas dos dedos de ambas as mãos, como se estivesse salpicando a mesa de reuniões com algum pó invisível, enquanto as mãos descrevem pequenos círculos. É complexo — depois eu faço um vídeo para explicar melhor — mas infalível: ao ouvir tais palavras acompanhadas desses gestos, todos render-se-ão a você. Alguém que fala em capilaridade e granularidade com tal desenvoltura só pode estar no domínio da situação. A produção não para por aí, é claro. A cada momento termos recém-saídos do forno são testados em exaustivas reuniões internas até serem considerados suficientemente maduros para construírem sua gloriosa carreira no mundo exterior. Eu poderia dar a vocês muitos outros exemplos de verbetes ainda incipientes mas promissores. Infelizmente, não terei como fazê-lo. Já explico por quê. Dia desses, apenas de passagem por uma sala de reunião, ouvi alguém comentar: — Nós chegamos mesmo a ter dificuldades para tangibilizar nosso produto. Esse tangibilizar entrou pelos meus ouvidos, fez vibrar os meus tímpanos e ecoou por todo o meu cérebro. Tangibilizar, tangibilizar, eu repetia. Num momento que só posso mesmo chamar de epifania, me dei conta de minha total insignificância diante de tanta beleza. O gesto que acompanhava a palavra — um esfregar de dedos contra a palma da mão, coisa muito fina e elaborada — era quase hipnotizante. Percebi que eu — pobre de mim! — ainda estava muito longe do nível de elevação necessário para utilizar tão propriamente as palavras arduamente forjadas pela grande organização para a qual trabalhava. Resolvi, portanto, reconhecer minha derrota e pedir demissão. Finalmente tangibilizei que não era digno de tanta sabedoria. Não, não perguntem o que estou fazendo aqui, porque eu também não sei. As garotas me convidaram, eu aceitei (que mais podia fazer? É um convite delas, por Deus!), e cá estou. O profeta pop-star Marco Aurélio ataca em seu blog Jesus, Me Chicoteia! e também colabora com o Balde de Gelo. Valeu, Marco! |
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